A fascinante história secreta de José Condessa. Nunca brincou com uma Playstation, foi sobredotado até aos 12 anos e colega no Benfica de estrelas mundiais
Recebeu um Globo de Ouro e nos agradecimentos fez um elogio rasgado aos pais, Jorge e Delfina, por o terem educado bem. Mas afinal o que fizeram estes pais de tão invulgar? O ator conta tudo na primeira pessoa, fala das suas paixões, dos seus dramas e das suas conquistas.Na última Gala dos 'Globos de Ouro o ator José Condessa, de 29 anos de idade, dedicou uma parte muito emotiva do seu discurso aos pais ao vencer o prémio de Melhor Ator de Ficção na 30.ª edição da festa maior da SIC. O ator foi galardoado pelo seu desempenho na segunda temporada da série da Netflix, 'Rabo de Peixe' e os pais, Jorge e Delfina, estavam num camarote a ver o filho em palco. José agradeceu-lhes profundamente pela educação e pelos valores transmitidos, destacando o seguinte: "Foram eles que me mostraram o mundo e os seus pormenores, as músicas e os cheiros, o respeito e a palavra. Foram eles que me ensinaram a dizer amo-te e a celebrar tudo isto que nos faz amar".
A The Mag, by Flash pegou nas palavras do promissor ator em palco e foi descobrir que mundo foi este que Jorge e Delfina mostraram ao seu caçula, que músicas lhe transmitiram e como lhe ensinaram o sentido da palavra amar. Muitas dessas respostas estão dadas numa entrevista que Condessa deu, em 2018, então com 20 anos, ao jornalista e divulgador cultural Germano Campos para a rádio pública. Nela, o rapaz que nasceu e cresceu entre a casa dos pais no Casal de São Marcos, em Sintra, a casa dos avós em Belém e a Academia de Santo Amaro em Alcântara, ambas em Lisboa, fala de tudo, em especial das suas duas grandes paixões: o futebol e o teatro.
Filho de um pai que é ator amador, que ainda hoje está ligado à Academia de Santo Amaro (ASA), José começou aos 3 anos a ter de assistir aos ensaios do pai e foi, ao longo de anos a fio a ver nascer teatro em cima do palco que ganhou "o bichinho". "Aos 5 anos fiz o meu primeiro monólogo que foi escrito para mim. Era só uma página e eu ainda não sabia ler na altura. O meu pai lia e eu reproduzia", conta, garantindo ter tido sempre "boa memória".
Não foram só as viagens aos dias de semana às seis da manhã entre São Marcos e Belém que fazem José ter uma gigante admiração pelo pai Jorge. "O meu pai foi o meu professor em tudo. Eu aprendi a escrever e a ler com o meu pai em casa. O meu pai é um ser magnífico, o meu pai e a minha mãe", salienta, agradecendo-lhes por todo o que lhe ensinaram, bem como aos irmãos: "Eu, até aos 12 anos, fui sobredotado ao nível da aprendizagem. Devo isso também ao facto de ter tido os meus irmãos com 20 e 19 anos e aprendia tudo o que a minha irmã me podia ensinar. O meu crescimento foi sempre com um lado pedagógico presente".
TEM MEMÓRIA DE ELEFANTE E UM DESAFIO PARA O PAI JORGE
Condessa garante que além de ter sido uma esponja a absorver tudo o que ouvia em casa e que a irmã e os pais lhe ensinavam, "os meus pais sempre quiseram que eu estivesse em contacto com a natureza, com jogos e com tudo. Com os meus avós percorríamos todas as semanas 3 ou 4 museus. Eles moldaram-me", acredita, confirmando que é "muito ligado à família e acho que vou ser sempre". Além da paixão pelo futebol, e em particular pelo Benfica, José Condessa revela duas das suas paixões musicais. "A minha banda preferida é Queen, e a do meu pai também. Eu sou anos 80. Anos 80 é a minha onda, mas 70 também, Beatles e mais para trás", revela.
A admiração pelo pai Jorge é tão grande que o filho José tem um sonho que acredita um dia poder realizar. "Tenho a certeza que um dia vou contracenar com ele. Vou raptá-lo para o teatro profissional. Ele faz teatro por amador por amor e sempre com um sorriso na cara", defende, avançando que também se questiona algumas vezes porque está nesta profissão: "Também me interrogo porque estou a fazer isto. É sempre bom ter momentos de reflexão. Eu falo isto porque amo e quero fazer como os meus pais me ensinaram, algo para a minha vida. Tenho gosto pela plateia. Gosto de ter pessoas a ouvirem-me e eu tenho o dever de seduzir e cativar essa plateia".
Criado com liberdade a brincar na rua nas imediações da casa dos avós em Belém, José Condessa confessa: "Nunca tive uma Playstation, brinquei muito na rua, graças a Deus. Joguei à carica, só nunca joguei ao berlinde, tudo o resto brinquei".
O BENFICA, A LESÃO AOS 15 ANOS E O FIM DO SONHO
Outra das grandes paixões de Condessa é o futebol, que nunca abandonou. Recentemente foi notícia o facto de ter sido contratado para a equipa de futsal do clube da Luz, depois de deixar os camaradas do Nisa. "Aos 16 anos desisti do futebol. Eu comecei com 5 anos na formação do Benfica. A minha vida sempre foi teatro e futebol e sempre fui bom aluno e respeitador dos professores, como os meus pais me ensinaram", garante, continuando: "No Benfica era daqueles rapazes que tinha a bola pelo joelho, nós tínhamos três capitães e eu era um deles. A braçadeira do Benfica foi das coisas mais impressionantes e de que me orgulho de ter envergado na vida".
O jovem ator, que hoje tem 29 anos, teve hipótese de, na adolescência, ter jogado contra grandes clubes. "Representei o clube contra o Real de Madrid e passei pela Seleção, até acabar no Futsal, no Dramático de Cascais, na 1.ª Divisão. A minha turma no Benfica era eu, o Renato Sanches, o Gonçalo Guedes, o André Horta", revela, explicando como foi a triste história de ter arrumado a chuteiras para o futebol profissional aos 15 anos. "Saí do futebol por lesão, foi um dos maiores desgostos da minha vida. Uma das coisas que mais me entristece é a dúvida do que teria sido se eu tivesse seguido o futebol. Modéstia à parte, acho que tinha capacidade de ter chegado longe".
O momento fatídico que lhe acabou de vez com as esperanças aconteceu num jogo da Seleção portuguesa contra a Argentina. "Lesionei-me no aquecimento e fiz uma rotura do tendão de Aquiles, tinha 15 anos. Foi horrível porque o corpo está a crescer e a esticar os tendões e os músculos e depois eu tinha que fechar a rotura no tendão, ou seja em contraciclo. Tive dores horríveis, estive muito tempo em fisioterapia", descreve, contando o que sentiu no fim: "Chorei e fiquei frustrado quando arrumei as chuteiras". E porquê? "Porque eu jogo com paixão da mesma forma que represento com paixão. São as duas coisas que mais gosto de fazer na vida."