A impressionante batalha de Nuno Morais Sarmento contra a doença, que o obrigou a deixar, de novo, o trabalho depois de 12 operações
Achou que tinha vencido a batalha contra um cancro na próstata quando começou a ficar ora descontrolado e irascível, ora prostrado e sem forças. Esteve neste limbo dois anos... até que um médico descobriu em três semanas que tinha um cancro no pâncreas. Viveu um inferno longe dos holofotes. Esteve hospitalizado durante ano e meio, ao longo de dois. Desses, cinco meses foram nos Cuidados Intensivos, muitas vezes amarrado à cama. Foi operado 12 vezes, "cortado às postas", como ainda consegue relatar com algum humor, gabando-se de ter sido um paciente "rebelde". Voltou ao trabalho à frente da FLAD em agosto de 2024, mas agora a saúde impede-o de continuar. O político PSD que na juventude foi boxer e também consumiu drogas volta para casa. Tem o sonho de escrever as suas memórias hospitalares. Talvez agora o faça.O histórico militante do PSD Nuno Morais Sarmento, 64 anos de idade (fará 65 a 31 de janeiro de 2026), saiu da liderança da FLAD (Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento), após 16 meses a conduzir os destinos da instituição. À frente do Conselho de Administração ficará agora Durão Barroso, foi esta semana anunciado.
O advogado e ex-ministro social democrata terá decidido sair "por não poder, neste momento, garantir as condições pessoais e de saúde necessárias à completa realização das funções", em especial porque teria de fazer inúmeras viagens ao continente americano nos próximos meses. O ano de 2026 avizinha-se de muito trabalho e o estado de saúde e anímico do ex-presidente não eram garantia de empenho e capacidade de corresponder às expectativas.
Em comunicado, a fundação revela que a demissão "foi aceite, com efeito a partir do dia 5 de Janeiro" e adianta que "os próximos anos, especialmente o de 2026, em que a FLAD comemora os 250 anos da independência dos Estados Unidos da América (EUA), serão de grande exigência, obrigando a um elevado número de viagens de longo alcance, como é o caso das viagens para os EUA", isto depois de em 2025 o também advogado ter conduzido as comemorações dos 40 anos da fundação e de ter arriscado a vida em esforços.
Paulo Sande, especialista em assuntos europeus e ex-consultor do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, veio a público, nas redes sociais, expor o que realmente se passa, e revelar o momento crítico de saúde por que passa, de novo, o antigo boxer e ex-ministro PSD. "Não é segredo para ninguém, e ele próprio nunca o escondeu, que combate há anos um cancro agressivo, combate feito com o estoicismo e a coragem que sempre o caracterizaram", recorda o amigo, lembrando como, depois de ter estado 18 meses hospitalizado - cinco dos quais nos cuidados intensivos e de ter sido submetido a 12 operações com anestesia geral e três intervenções com anestésicos mais ligeiros - "ainda participou, ainda muito debilitado, em novembro de 2023, num Congresso do PSD".
Meses depois de sair do hospital, onde por duas vezes esteve quase a morrer, uma delas com um enfarte, assumiu, em agosto de 2024 a liderança da FLAD. Em 2025 presidiu aos seis meses comemorativos dos 40 anos da instituição, celebrações que terminaram em Nova Iorque, no Carnegie Hall, num concerto com a Orquestra Sinfónica Portuguesa, dirigida pelo maestro de origem polaca, mas radicado português, Jan Wierzba, com a presença em palco dos fadistas Ricardo Ribeiro, Raquel Tavares e Cristina Branco. O que certamente ficou registado na memória do agora antigo presidente da FLAD foi o tributo, com duas mil pessoas a baterem palmas de pé, que recebeu.
ESPASMOS, DESCONTROLO E PROSTRAÇÃO
Em finais de outubro de 2024, três meses após ter voltado ao ativo assumindo as funções de presidente do Conselho de Administração da FLAD, Nuno Morais Sarmento deu uma entrevista para o podcast da SIC e do Expresso, "Tenho cancro. E depois?", onde revelou como viveu o inferno na terra. Teve alucinações, sentiu-se medievalicamente preso com correntes à cama nos Cuidados
Intensivos, onde esteve cinco meses, e chegou a despedir-se duas vezes dos filhos, Francisco e Madalena Maria, e da ex-mulher, Ana Filipa, de quem se divorciou em 2016, mas que esteve diariamente à sua cabeceira no leito de dor.
"Saí do hospital com 38 quilos, devo ter tido menos. Quis poupar os meus filhos. De fora era um morto-vivo”. Tinha um cancro no pâncreas que ninguém conseguia diagnosticar. Uma endocrinologista não conseguiu descobrir porque oscilava entre espasmos e descontrolo motor, com muita raiva, e prostração incapacitante. Uma amiga disse-lhe par falar com o médico João Raposo, da Associação Protetora dos Diabéticos de Portugal (APDP) e em três semanas teve um diagnóstico. Tinha sobrevivido a um cancro na próstata e estava longe de imaginar que os sintomas de que padecia estavam relacionados com novo carcinoma. Mas estavam.
Esteve praticamente dois anos no hospital, cinco do quais nos cuidados intensivos e fez 12 cirurgias. Oficialmente chegou a pesar 38 quilos, mas tem a convicção de que foi abaixo dessa fasquia. Estava ainda vigiado e a recuperar de um cancro na próstata quando começou a ficar descontrolado. Teve ataques resultantes da falta de açúcar, que o levavam à prostração ou a uma necessidade incontrolável de fazer movimentos, bater em coisas, agitado e descontrolado. "Isto não é possível numa reunião com clientes ou numa qualquer iniciativa política. No casamento do meu filho. Aguentei até ao discurso. O pai tinha que falar, e neste a caso a noiva não tinha pai presente, e eu ia falar pelos dois lados. E a seguir tive um 'down' completo e caí para o chão. Pensaram que estaria embriagado", conta, adiantando como passou a ser a sua vida doravante: "Chegado aí eu já não conseguia trabalhar, não conseguia fazer coisíssima nenhuma. Estava desesperado e uma amiga disse-me para falar com o professor João Raposo, o que fiz. Descobriram em três semanas quando tive a vida completamente disfuncional durante dois anos".
A PIOR NOTÍCIA DE TODAS
Nuno Morais Sarmento relata aos microfones do podcast das publicações do Grupo Impresa que foi várias vezes socorrido pelo INEM quando tinha espasmos e chegava a desmaiar. "Disseram-me que era um insulinoma, que é um tumor no pâncreas". Não era um, eram três, nas pontas do pâncreas. Fez 12 cirurgias, com 16 procedimentos, entre anestésicos e de sedação mais ligeira. "Foram-me cortando às postas, primeiro foi o pâncreas, depois a vesícula e depois o baço", relata, com surpreendente naturalidade. O doente "rebelde" - como lhe chamará por mais do que uma vez ao longo da conversa, sentado ao seu lado, o médico Jorge Paulino, o líder da equipa que o "salvou" no Hospital da Luz, em Lisboa - garante que nunca desistiu. "Se alguma vez baixei os braços? Não, isso não. Em momento nenhum da vida", garante o antigo pugilista, que também na juventude consumiu drogas, como já confessou publicamente. "O que está à frente combate-se e acredita-se que a vida continua. Num das vezes tive perfeita consciência de estar com um pé lá e outro cá. Lutei contra e tive consciência de ter dado o passo atrás. Fiquei com uma certeza tranquila de que a vida não acaba aqui. Tenho a certeza absoluta por causa desses momentos", resume.
Jorge Paulino confirma que o paciente Nuno fez um enfarte no hospital. "Estava fora do hospital, na Feira do Livro de Lisboa, quando me ligaram. Pensei que o tinha perdido", confessa, sendo interrompido pelo doente que se orgulha das histórias hospitalares que tem para contar, onde foi efetivamente rebelde. Chegou a ser amarrado à cama nos Cuidados Intensivos por causas dos ataques de descontrolo e relata esses momentos: "Passei noites amarrado porque arrancava os tubos todos. Amarrar as pessoas às camas é medieval. Cheguei a imaginar que me tinham raptado e chamei a polícia. Achei que era tráfico de órgãos e pensei que ia marchar", narra, numa lista de episódios que tem tanto de picaresco como de assustador.
COM DORES E LONGE DE ESTAR CURADO
"Despedir-me dos meus filhos custou-me mais na altura do que me custa agora", reflete, assumindo que em 2023 "tinha a sensação de que era um morto-vivo. Cheguei a pesar menos de 38 quilos". Nuno Morais Sarmento, o político que foi Ministro da Presidência entre 2002 e 2004 ao lado de Durão Barroso, e depois Ministro de Estado e da Presidência, com Santana Lopes, no final de 2004, garante que se sentiu tentado a escrever um livro sobre a sua experiência. "Escrevi algumas páginas, mas entretanto voltei à vida ativa e isso ficou adiado". A sua saída da FLAD pode significar o recuperar desse projeto suspenso, mais ainda porque vai ter de repousar mais do que a mente deixa. Em outubro de 2024 garantia que a doença estava "em ponto morto" e que não havia nada a fazer. "Fisicamente não estou recuperado. Tomo não sei quantos medicamentos por dia, que é uma coisa que me incomoda. Às vezes faço jejum intermitente dos remédios e durante uma semana não tomo nada. Tenho remédios para o coração, para o colesterol. Há dores, há incómodos. Tento fazer a vida normal e isso dá-me um gozo. Um dia normal pode ser para mim um dia de extraordinária satisfação. O diagnóstico de cancro é uma etapa, não podemos fugir, temos de passar por ela. Não podemos fingir que não é nada", remata.