A verdadeira história de 'Baby Reindeer', o êxito estrondoso e perturbador da Netflix
Série relata eventos verídicos entre um comediante e a sua perseguidora que o leva à loucura e já está a ter reflexo no mundo real.
O êxito esmagador do streaming enquanto forma de consumir arte e as suas características muito próprias levam a que, de vez em quando, uma produção consiga concentrar para si atenções de milhões de pessoas em simultâneo, criando um verdadeiro fenómeno que a coloca em discussão nas mesas de casa, de restaurante e de café em todo o mundo.
Foi este o caso com ‘Baby Reindeer’, a minissérie britânica da Netflix que é em iguais partes genial e perturbadora, que conta a história de Donny Dunn, um comediante que trabalha num ‘pub’ e acaba por ser a vítima de Martha Scott, perseguidora implacável que operara como advogada e que já havia sido condenada por este mesmo crime no passado.
No mundo real, Donny é, na verdade, Richard Gadd, autor, realizador e protagonista destes sete episódios, que contam uma parte muito verdadeira da sua vida, com pormenores macabros: Gadd recebeu da sua ‘stalker’ um número esmagador de 41 mil e 71 emails, 350 horas de ‘voicemails’, 744 tweets, 46 mensagens no Facebook e 106 páginas em correspondência física.
CAÇA AO TESOURO
O êxito da série teve uma consequência insólita. Houve quem começasse à procura da verdadeira Martha Scott e um jornalista do ‘Daily Mail’, Neil Sears, conseguiu chegar mesmo a contacto com a pessoa que terá inspirado a antagonista, que não terá ficado nada satisfeita com a forma como foi representada.
"Recebi ameaças de morte e insultos por parte de apoiantes do Richard Gadd. Ele está a usar o ‘Baby Reindeer’ para me perseguir agora. [Está a] fazer bullying a uma mulher mais velha em televisão para fama e fortuna. Eu sou a vítima. Ele fez o raio de uma série sobre mim", terá dito esta mulher, cuja identidade a publicação britânica preferiu não revelar. Segundo o artigo, vive sozinha num apartamento em Londres, com um orçamento alimentar de 30 libras por semana.
Após a entrevista, o próprio Sears alega ter sentido na pele a personalidade perseverantemente incomodativa da ‘Martha’ da vida real. "Estou há quatro dias a receber uma maré de chamadas incessantes e mensagens assustadoras como na série", pode ler-se no título de um artigo que escrevera depois.
CONTRA-ATAQUE
Qual bola de neve, a história continuou a ter novos desenvolvimentos, agora no mundo real. Uma mulher veio a público confirmar que foi em si que a história e, no seu perfil de Facebook, lançou duras críticas a Gadd, num tom coincidente com aquele utilizado pela sua representação fictícia.
"Não sigo as manifestações de Richard Gadd ou outros comediantes falhados como ele. Não faço ideia o que ele disse para lá de algumas citações que me foram enviadas. Parece que ele foi buscar uma mulher feia e gorda chamada Martha a ser interpretada por uma atriz a fingir que sou eu", escreveu esta mulher.
"Não acredito, nem ninguém que eu conheça, numa única palavra do que ele diz. (…) Sei que ele faria qualquer coisa e diria qualquer coisa por dinheiro", acrescentou, prometendo avançar com um processo contra a Netflix.
Fãs da série encontraram, no Twitter, várias mensagens endereçadas a Richard Gadd, que coincidem com pormenores que este expôs em ‘Baby Reindeer’, desde as menções às "cortinas" – metáfora sexual que é utilizada pela personagem na série – a referências aos e-mails que o protagonista recebe: "Recebeste os meus emails ou estou a enviar para o email errado?"
HÁ MAIS VÍTIMAS
Gadd não foi a única vítima desta perseguidora na vida real. Pelo menos de acordo com Laura Wray, uma advogada que diz ter reconhecido a Martha da série e decidiu vir a público relatar a sua experiência, que começou quando lhe ofereceu trabalho.
"A série trouxe de volta tantos momentos de que eu já me tinha esquecido. Ela fez exatamente a mesma coisa a mim, tornou a minha vida num pesadelo. A reação dele foi a mesma que a minha, senti pena dela", descreve, ao ‘Daily Mail’.
"Despedi-a em uma semana. Ela ficou furiosa e ameaçou fazer isto, aquilo e aqueloutro. Começou a gritar que o meu marido ia arrepender-se. Algumas das raparigas no escritório ficaram a tremer e pensaram que ela me ia atacar. Eventualmente, foi levada para o exterior", acrescenta.
Foi aí que a tempestade teve início. Segundo conta, a mulher começou a segui-la até às suas aulas, enviou voicemails ameaçadores, incluindo uma ameaça de morte ao seu marido. Ademais, denunciou o casal à Segurança Social por alegadas agressões ao filho, que vivia com uma deficiência severa.
"A mulher afirmou que batíamos no nosso filho e eu tive de explicar tudo. Os trabalhadores da Segurança Social acreditaram em mim, felizmente, mas eu fiquei furiosa. A criança não andava nem falava, não fazia nada sozinho… Pensar que alguém sugeriu que poderíamos fazer isto foi cruel", disse, revelando que conseguiu uma ordem de restrição.