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Do misterioso terço desaparecido aos joelhos ensanguentados na promessa em Fátima: a fé invisível que uniu Rute Cardoso e os pais de Diogo Jota e André Silva

Desde cedo que os dois irmãos cresceram numa família religiosa e tinham uma particular devoção pelos três pastorinhos e Nossa Senhora de Fátima. No momento de maior dor para esta família, é na fé que encontram forças para seguir em frente
Por Tiago Henriques | 18 de junho de 2026 às 23:45
Isabel e Joaquim Silva unidos com Rute Cardoso Foto: D.R.

Aquela madrugada de 3 de julho de 2025 mudou para sempre a vida de todos os que conviveram com os irmãos André Silva e Diogo Jota. Uma viagem que parecia simples e que se realizara por o mais velho não poder andar de avião, na sequência da operação ao pulmão que fizera dias antes, abalou para sempre esta família. A cada dia que passa, os pais que perderam os seus dois únicos filhos tentam seguir com a sua vida, sempre com um objetivo em mente: honrar a memória daqueles que serão, para sempre, os seus meninos. Tal como as viúvas, Paula, namorada de André Silva, e Rute Cardoso, a mulher de Jota

Namorada de André Silva inconsolável no funeral Foto: Flash
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Há dores que não cabem nas palavras e perdas de tal forma violentas que se tornam muito difíceis de entender. E talvez seja no espaço em que a razão deixa de encontrar respostas que a fé é encarada como uma salvação. Não como explicação para uma dor como esta, mas como um recurso para continuar a viver depois de perder o chão. 

Desde sempre que a família Silva teve uma especial ligação ao mundo religioso. Isabel e Joaquim educaram os seus filhos dessa forma e ambos tinham uma particular devoção pelos três pastorinhos e por Nossa Senhora de Fátima. Cresceram com essa referência espiritual e mantiveram-na ao longo da vida. André era um particular estudioso da Bíblia, como conta a namorada, Paula, no livro ‘Diogo Jota – Nunca Mais é Muito Tempo’, escrito por José Manuel Delgado. Lia a Bíblia todas as noites e uma vez por ano fazia questão de ir ao Santuário de Fátima agradecer. Ficou por concretizar uma última visita, mas que Paula, Joaquim e Isabel fizeram questão de manter após a tragédia

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O TERÇO QUE NUNCA APARECEU 

Também Diogo Jota e Rute Cardoso se dirigiam com frequência ao Santuário. Aliás, quatro dias antes da fatídica madrugada, tinham estado naquele lugar místico. E a viúva cumpriu uma tradição que tinha desde o nascimento do filho mais velho, Dinis, hoje com 6 anos de idade. “Depois de cada parto, cumpria uma promessa feita à Nossa Senhora, que consistia, com a companhia da minha irmã, em descer o santuário e dar três voltas à capela [das Aparições], de joelhos, com a criança ao colo. Como nessa época o Diogo tinha sido operado duas vezes ao pulmão, prometi que faria a mesma coisa por ele, dando outra volta”, relata a viúva na mesma obra literária. 

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Naquele domingo, 29 de junho, mal chegaram ao santuário, Rute Cardoso foi com o marido a uma loja “para ele escolher o terço” que ela “deveria levar na mão durante o cumprimento da promessa.” “Comprámo-lo, concretizei o prometido com a Mafalda ao colo, entreguei-a à minha mãe, e fui com o Diogo pela mão, a segurar o terço com a outra, descer outra vez e dar mais uma volta”, acrescenta. Era uma tarde de “muito calor”, com os termómetros a marcar “40 graus”. E Rute ficou com marcas do esforço. “Mesmo com joelheiras fiquei com os joelhos em carne viva”, recorda. 

É impossível não encontrar um simbolismo nesta imagem. Uma mulher de joelhos agarrada a um terço escolhido pelo homem que amava, a cumprir uma promessa feita por gratidão. Um gesto de fé, de entrega e de amor. Quatro dias depois, tudo mudaria para sempre. Diogo Jota levava o terço naquela fatídica viagem. Por isso, quando ia a caminho da morgue, em Espanha, para reconhecer o corpo do seu grande amor, Rute Cardoso sentiu necessidade de passar pelo local da tragédia. Não procurava respostas. Procurava o terço, aquele que a uniu num dia tão especial ao pai dos seus filhos e queria guardar para sempre uma das últimas memórias felizes que construíram juntos. As autoridades não a deixaram aproximar-se, mas o chefe da polícia prometeu que o procurariam. E encontraram um terço. Mas o de André. O de Diogo... nunca apareceu

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A FÉ QUE OS SALVOU 

Diogo Jota e André Silva foram velados na Igreja Matriz de Gondomar, que ocupa um lugar carregado de simbolismo na história desta família. “Foi aí que, além de casarmos, batizámos e velámos os nossos filhos, que agora repousam no cemitério que fica mesmo ao lado”, conta Isabel Silva. 

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Hoje, os dois irmãos repousam num jazigo de família. E entre as várias placas deixadas por quem os amava, há uma que sobressai pela força da sua mensagem. A placa de Rute Cardoso e dos filhos, Dinis, Duarte e Mafalda, em forma de coração tem inscrita uma frase simples e profundamente tocante: “O essencial é invisível aos olhos.” 

Diogo Jota e o irmão faleceram em acidente rodoviário na A-52, em Zamora Foto: Flash

Talvez seja essa a síntese perfeita da fé desta família, porque o essencial não se vê. Não se vê o amor que continua apesar da morte, a esperança que resiste quando tudo parece perdido. Não se vê a oração silenciosa de uma mãe ou a promessa cumprida de joelhos pela mulher. Não se vê a confiança de quem continua a acreditar mesmo depois de sofrer aquilo que parecia insuportável. Mas tudo isso existe. E é precisamente por existir que esta família continua de pé. No meio da escuridão mais profunda, a fé permitiu que permanecesse acesa uma pequena chama. Aquela que os olhos mesmo sem conseguirem ver, o coração nunca vai esquecer. 

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