José Maria Ricciardi e Ricardo Salgado: os primos criados como irmãos que, depois da "grande traição" estiveram em guerra fraticida até ao fim
Foram criados na mesma casa, como irmãos, cresceram com sonhos e ambições iguais, mas com a queda do BES aconteceria o corte total. Ricciardi, que faleceu esta quarta-feira, foi visto como o grande "delator" do primo e houve uma cisão na família. Espírito Santo e Ricciardi não mais conviveriam, com a dor a estar bem presente entre os clãs até ao fim.Desde 2014 que o corte de relações era total e absoluto. Primos, criados como irmãos no mesmo berço de ouro, em Cascais, José Maria Ricciardi e Ricardo Salgado começaram a distanciar-se em 2012, quando Ricciardi se tornou numa das vozes críticas do primo, questionando a direção que o banco tomava. "Tomou-me de ponta", disse o empresário, na última declaração pública, quando foi ouvido no âmbito do caso BES.
"Em vez de discutirmos assuntos, Ricardo Salgado começou a debitar o que tinha sido feito e o que se ia fazer, tanto no setor financeiro, como não financeiro. E eu levantei o braço e perguntei se era para discutirmos os assuntos ou se era para ouvir Ricardo Salgado dizer o que íamos fazer… a partir daí começou a tomar-me de ponta, porque viu que eu não estava disposto a fazer a mesma figura dos outros no Conselho Superior do grupo", frisou na altura, acrescentando que o primo "fazia tudo o que lhe apetecia", enquanto o Governador do Banco de Portugal "assobiava para o lado".
Era o início de uma guerra pública que não mais cessaria e que racharia a família a meio: os Espírito Santo para um lado, os Ricciardi para outro. O primo mais famoso de Ricardo Salgado faleceu esta quarta-feira, 25 de março, aos 71 anos, vítima de doença oncológica, enquanto o antigo dono disto tudo mantém o quadro de demência, que faz com que seja a mulher, Maria João, a representá-lo no escândalo do Banco Espírito Santo.
Dos tempos áureos, em que os dois clãs eram o ex-libris de uma determinada elite em Portugal, já pouco resta. Os escândalos e polémicas remeteram-nos para um lugar secundário, muitos membros da família acabaram por deixar o País, e a sua presença em festas e eventos sociais passou a ser uma raridade, fazendo esquecer os anos gloriosos de ambas as famílias, criadas lado a lado, em Cascais.
Ricciardi era filho de Vera Espírito Santo que, por sua vez, era irmã da mãe de Ricardo Salgado, Maria da Conceição Espírito Santo. As duas famílias gozavam de um status quo acima da média, pelo que os primos foram criados em berço de ouro. Foi o próprio José Maria Ricciardi quem o detalharia, numa entrevista a Anabela Mota Ribeiro, em que explicava como era a dinâmica na família, numa altura em que os donos das grandes fortunas não punham os filhos na escola, os ensinamentos eram feitos em casa, com preceptoras. "Tínhamos o que se chamava – nome pomposo – uma mademoiselle. Uma senhora francesa que era uma espécie de preceptora. Cuidava de nós. Havia muitas preceptoras e empregadas [que se ocupavam de tudo]. Isso fazia com que os pais tivessem uma vida menos direta, menos cúmplice do que aquela que temos hoje com os nossos filhos", explicou Ricciardi, muito antes de o império da família se ter desmoronado.
Os tempos eram outros e o banqueiro conta que a relação com a mãe sempre foi de alguma tensão, o que acabaria por levar a um acontecimento determinante para a família: a dada altura, durante um desentendimento com a progenitora, sairia de casa e procuraria guarida na mansão da tia, mãe de Salgado, que o recebeu de braços abertos. Passava, então, a dividir casa com o primo numa estreita relação que se estenderia por anos.
"Tive choques grandes com a minha mãe. De tal maneira que fui morar para casa da minha tia, mãe do Ricardo Salgado. Sou quase irmão deles, mais do que primo: vivi lá alguns anos. Ela foi a minha segunda mãe. Entre os 7 e os 12 anos. Depois voltei. A minha mãe, apesar de gostar de mim, fez sempre algumas diferenças entre mim e os meus irmãos", fez saber na mesma entrevista, em que revelaria que todos, na família, acabariam por traçar percursos semelhantes, estudando Economia ou Gestão para dar continuidade ao império familiar na área da banca.
Mas enquanto Ricardo Salgado cedo se destacaria pela pose altiva, pelo auto-controle, pelo rigor, pelo carisma e liderança, Ricciardi era intempestivo. Apaixonado por futebol e pelo Sporting, explodia nos jogos e a postura considerada menos ortodoxa era, por vezes, olhada de lado, vista com um handicap para quem pretendia seguir a vida de banqueiro, onde a diplomacia é um ponto de honra.
Muitos dizem que Ricciardi sempre invejou o lugar de Salgado, que via na posição do primo tudo o que queria alcançar e nunca conseguiu, ele sempre negou as ambições.
"A presidência do meu primo é absolutamente merecida. Ele é que liderou toda a reconstrução, não fui eu. Está onde está por mérito: ninguém lhe deu o lugar. E essa visão da minha família, que ficou revoltada e persegue: não temos essas características (pelo menos hoje)", disse, antes da queda do BES, acabando, no entanto por denunciar, que já havia indícios de uma guerra surda entre as famílias.
Anos mais tarde, quando confrontado se, afinal, não teria levado a cabo estas denúncias por alguma inveja ou sede de vingança, com o desejo de um trono que não lhe pertencia, voltou a negar categoricamente.
"Isso não é verdade. Não estava ninguém na calha para suceder ao Dr. Salgado porque ele gostaria de ficar no lugar até morrer. Nunca há sucessores na calha de pessoas com o perfil do Dr. Salgado. Na altura, tentou-se confundir as duas coisas. Disse-se que eu estava numa mera luta de poder e que a única coisa que pretendia era substituir e ter o poder de outra pessoa. É absolutamente falso."
No entanto, nada dessas intenções apagaria o que já estava feito. Ao mesmo tempo que o BES afundava, José Maria Ricciardi era visto pelos Espírito Santo como o grande traidor do clã, o homem que não tinha pudor em puxar o tapete ao primo, submetê-lo às maiores humilhações públicas, quer nas múltiplas entrevistas que dava sobre o assunto, quer no facto de se ter tornado numa das principais testemunhas de um processo que arrastou o nome da família na lama. "Quando falava com ele (Ricardo Salgado) apercebi-me de algumas coisas. Mas nunca nada disto. [...] Não me parecia possível que uma pessoa roubasse a sua própria família. Mas depois, com o tempo que foi passando, deixei de ter qualquer espécie de dúvida sobre isso", chegou a dizer Ricciardi ao 'Observador'.
Até ao fim, nunca houve quaisquer sinais de tréguas, numa mágoa que Ricciardi admitia sempre cultivar. "A relação é quase inexistente, para não dizer zero, para minha grande mágoa. Digo-o com amargura, mas a reação familiar neste desenlace é uma desilusão e uma grande lição de vida. Ainda hoje predomina o entendimento familiar de que a minha oposição ao Dr. Salgado foi a alavanca do desmoronamento do grupo – o que não é verdade. Estando ou não lá, desmoronar-se-ia exatamente da mesma maneira. A minha família acha que, se eu não tivesse feito o que fiz, passávamos entre os pingos da chuva, a assobiar para o lado. Continuávamos numa zona de conforto, usufruindo de um conjunto de privilégios que não merecíamos, prejudicando terceiros. Mas quanto mais tempo passasse, maior seria o número de investidores e clientes lesados. Isso é um grande choque para mim", disse em entrevista ao 'Sol', adiantando que seria sempre visto entre os Espírito Santo "como um traidor".