Na hora da despedida, Marcelo adia visita aos reis de Espanha, volta a vestir a pele de 'Presidente dos Afetos' e regressa à sua verdadeira essência junto do País real
Na semana em que é eleito o próximo Presidente da República, Marcelo tem-se mostrado a fazer aquilo que, no fundo, é a sua essência: a conversar com as pessoas que perderam tudo nas zonas mais afetadas, deixando palavras de incentivo e também duras críticas ao Governo. A visita à Zarzuela, onde iria encontrar-se com os reis de Espanha, acabou adiada devido à situação de calamidade do País.Marcelo Rebelo de Sousa prepara a despedida de Belém, mas nestes últimos tempos não afrouxa os seus deveres de Chefe de Estado, pelo contrário. Nos últimos dias, o Presidente da República esteve quase sempre afastado da sua residência oficial para se mostrar ao lado daqueles que foram mais castigados pelas cheias. Na sua imagem de proximidade habitual, quis ouvir os problemas reais da população, mostrando-se sensibilizado, num regresso à essência de 'Presidente dos Afetos' a que habituou os portugueses.
Mostrar-se-ia, também, bastante duro em relação àquilo que viu, deixando duras críticas ao Governo.
"Não é por eu dizer que o Governo esteve melhor ou pior. Há coisas em que se esteve melhor e coisas em que se esteve pior. A explicação às pessoas, em muitos casos, não correu bem, não correu bem", explicou durante uma visita ao posto de comando da Proteção Civil de Ourém, onde se reuniu com o autarca Luís Miguel Albuquerque e com o secretário de Estado da Proteção Civil, Rui Rocha. "Não serve de nada ter medidas do papel se não for possível executá-las", disse, mostrando-se incisivo.
Perante o momento de calamidade que o País atravessa, Marcelo acabou por adiar a visita a Madrid, prevista para esta sexta-feira, 6 de fevereiro, depois de uma conversa telefónica com o rei de Espanha, Felipe VI. "O Presidente da República e o Rei de Espanha realizaram uma conversa telefónica e decidiram, com a concordância dos governos da Espanha e de Portugal, suspender a visita planeada para amanhã [sexta-feira], devido aos efeitos da tempestade Leonardo, e procurar uma nova data", lê-se na nota publicada no sítio oficial da Presidência da República na Internet.
Fica assim adiado o seu último encontro com realeza europeia enquanto Presidente da República. Para já mantém-se a data de domingo, 8 de fevereiro, para a realizaçãp das eleições Presidenciais, que irão decidir o próximo Chefe de Estado entre António José Seguro e André Ventura.
A última vez que Marcelo Rebelo de Sousa e os reis de Espanha se encontraram foi em 2021, numa ocasião que também incluiu um jantar privado oferecido pelos monarcas espanhóis.
Curiosamente, as suas filhas, a princesa Leonor e a infanta Sofia, foram as últimas a encontrarem-se com Marcelo. Leonor foi recebida pelo Presidente da República em 2024, num momento histórico: a sua primeira viagem internacional oficial a solo. De acordo com a 'Lecturas', Sofia esteve com Marcelo em outubro do ano passado, pouco tempo depois de ter começado a estudar em Lisboa.
NOVA VIDA NA CALIFÓRNIA
Enquanto o País se prepara para decidir quem será o próximo Presidente da República, em Belém, Marcelo Rebelo de Sousa começa, aos poucos, a fazer as malas e a arrumar os seus pertences. Foram dez anos entre Lisboa a Cascais – a casa que nunca abandonou e que foi, tantas vezes, o seu refúgio – e de uma dedicação ao País que assumiu como missão e que o levou a colocar a sua vida pessoal em segundo plano. Agora, porém, é tempo de voltar a tomar as rédeas, o mesmo é dizer que, aos 77 anos, o político sente-se como que a renascer e não deixou os próximos tempos ao acaso. Na verdade, Marcelo já sabe muito bem o que irá fazer e parte dessa vida passa por retomar um gosto muito seu, que deixou em prol da Presidência da República: dar aulas. E já tem definido onde será: na Califórnia, nos Estados Unidos, num afastamento que será quase necessário para que o ainda Chefe de Estado coloque em perspetiva os seus últimos anos.
No entanto, essa mudança só estará prevista dentro de dois anos, o que será uma espécie de coincidência feliz, uma vez que Marcelo irá aproveitar esse tempo para viver em pleno a magia dos Jogos Olímpicos, que em 2028 terão lugar nos Estados Unidos. "Vou ser professor convidado na Califórnia e, portanto, junta-se o útil ao agradável, que é estar lá a ensinar, convidado, no ano de 2028 e, como imaginam, é uma condição única e privilegiada para, com mais tempo, ver mais modalidades e acompanhar mais ainda os triunfos dos nossos atletas", disse, citado pela Lusa, acrescentando que, por esse altura, será "um homem livre".
Uma liberdade que é quase uma urgência para Marcelo Rebelo de Sousa que, depois de um primeiro mandato nas boas graças dos portugueses, viu o segundo transformar-se num pesadelo, com o envolvimento no caso das gémeas luso-brasileiras a desgastá-lo a todos os níveis, principalmente no campo do pessoal, com o processo a ter levado, inclusivamente, a um corte de relações com o filho – que não se sabe até que ponto se manterá aos dias de hoje. No entanto, limpar esses respingos da sua vida política será certamente uma prioridade para Marcelo, que não esconde o quanto tudo o que se passou ao longo dos últimos dois anos, principalmente, mexeu consigo.