O peso do diagnóstico de cancro do Papa, os dramas familiares de Leão XIV e as inquietações que surgem de dentro da Igreja Católica
Com transparência, mas inquietação, o Vaticano enfrenta, menos de um ano e meio após a morte do Papa Francisco, novas incertezas em relação ao futuro. Com o Papa Leão XIV a aguardar indicações precisas na batalha contra o cancro no pulmão, a fé acompanha a jornada do Santo Padre, que sofre ainda pelo irmão e o peso de uma luta que há anos atormenta a sua família.As imagens estão ainda frescas, têm menos de um ano e meio. Em maio de 2025, havia fumo branco nas chaminés do Vaticano, com Leão XIV a ser eleito novo Papa, com um sorriso de comoção e felicidade, ocupando o lugar de Francisco, que falecia, após um quadro grave de penumonia bilateral, que resultou em meses de boletins clínicos, que ora davam esperança, ora remetiam para uma certa cautela, e que agora, de alguma forma, se repetem, com todos os alarmes a soarem no Vaticano.
E se quando foi anunciado que Leão XIV, de 71 anos, seria sujeito a uma cirurgia programada ao pulmão, os primeiros sinais de alerta se fizeram, ainda que timidamente, ouvir, após a operação, os semblantes carregavam-se com as notícias pouco animadoras. O Sumo Pontífice tinha cancro – um adenocarcinoma pulmonar, dos tipos mais comuns de cancro no pulmão – com parte do pulmão direito a ser-lhe retirado. "O exame histológico intraoperatório confirmou o diagnóstico de um adenocarcinoma pulmonar", revelou o Vaticano, garantindo que após novos exames pós-operatórios seria definido o plano de tratamento de Leão XIV para quem o diagnóstico tem uma forte carga pessoal.
Segundo foi divulgado pela imprensa internacional, Leão XIV há muito que fazia um acompanhamento próximo e rastreios de saúde específicos devido a um forte historial de cancros na família, doença que ceifou a vida da mãe, em 1990, com mais sete anos do que a idade atual do Papa. E como se o quadro já não fosse suficientemente difícil, também o irmão, Louis Prevost, se encontra em tratamentos contra o cancro numa clínica da Flórida, onde reside, num cenário difícil, mas encarado com a habitual fé. "Continuamos a rezar e a tentar manter o ânimo dos dois", contou Deborah, cunhada do Papa, à CBS News.
Conforme já havia acontecido com o Papa Francisco, a transparência foi a forma que a igreja Católica assumiu para enfrentar o assunto. Mais do que guardar segredo sobre o estado de Leão XIV ou tentar contornar, de alguma maneira, a situação, os habituais boletins vão surgindo de forma clara e concisa, com as informações essenciais a serem reveladas, o que não quer dizer que no Vaticano o estado não seja de algum alarme, até porque as preocupações são reais e podem, na verdade, obrigar a grandes mudanças na agenda do Santo Padre nos próximos meses. Tendo em conta os riscos associados a viagens aéreas pouco tempo após uma cirurgia pulmonar, podem estar comprometidas algumas deslocações, como a que está prevista para a América do Sul, em novembro, que tem um simbolismo muito especial, uma vez que o Papa tem prevista uma visita ao Peru, onde viveu durante cerca de 20 anos.
Em relação ao futuro, e aos abalos que a doença poderá causar, e aos tratamentos a que poderá obrigar Leão XIV, o Vaticano prefere, no entanto, viver um dia de cada vez, não alimentando rumores ou alarmismos e preferindo gerir o imediato, focando-se na recuperação do Sumo Pontífice.
A SAÚDE DÉBIL DE FRANCISCO
Quando o Papa Francisco chegou ao cargo máximo no Vaticano, as suas preocupações com a saúde já eram reais. Dizia que queria agir depressa, tinha receio de não ter tempo para fazer tudo aquilo que havia estabelecido. Acabou por falecer aos 88 anos, na sequência de um AVC, que foi o culminar de meses de uma saúde que se desgastava, com quadros de complicação respiratórios, que o impediram de estar ao lado dos fiéis, como tanto gostava.
Na verdade, desde cedo que Francisco já se vinha preparando para as partidas que a saúde lhe poderia pregar e, curiosamente, também teve parte de um pulmão removido, numa cirurgia que considerou "cruel". "Eu estava no segundo ano do Seminário de Villa Devoto. Naquele inverno, uma forte epidemia de gripe espalhou-se e muitos seminaristas foram infetados. Eu também. Mas de facto, no meu caso, a situação evoluiu de uma forma mais complicada", contou Francisco que, após meses de tratamento que se revelaram infrutíferos, teve de ser sujeito a uma cirurgia radical. "Disseram-me que tinha sido necessário usar muita força. Por isso, quando me recuperei da anestesia, senti muita dor".
Sendo na altura muito jovem, Francisco conseguiria, no entanto, recuperar na perfeição, sendo que depois da operação o pulmão afetado voltaria e expandir-se com os médicos que o acompanham a afirmarem que só um pneumologista de primeira linha poderia perceber que parte do pulmão tinha sido removido.
A saúde voltaria a atormentá-lo: teve de retirar parte do cólon, foi operado a uma hérnia e, apesar de ter sido bem sucedida, a operação pulmonar deixaria o papa mais vulnerável a gripes e infeções respiratórias, sendo que a grave pneumonia que sofreu em 2023 o debilitaria em primeira instância, com o quadro a agravar-se severamente dois anos depois, aquando da pneumonia bilateral, da qual já nunca recuperaria na totalidade.