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As memórias felizes de Diogo Jota que sustentam o duro caminho de Rute Cardoso e o sorriso da viúva que se ilumina pelo eterno amor

Falar sobre Diogo Jota tornou-se numa espécie de terapia para Rute Cardoso, que encontra nas memórias felizes com o marido uma forma de a ajudar no luto e a conseguir seguir em frente. Sempre um dia de cada vez e com os filhos como prioridade.
Rute Lourenço
Rute Lourenço
Rute Cardoso
Rute Cardoso Foto: D.R.

Já recebeu as mais variadas propostas para dar entrevistas sobre Diogo Jota, a curiosidade em torno das suas palavras corre o Mundo, mas até aqui Rute Cardoso preferiu sempre ser muito criteriosa e limitar ao mínimo as declarações sobre o grande amor da sua vida, que perdeu há um ano em circunstâncias trágicas. Além do relato concedido a José Manuel Delgado para integrar o livro de memórias 'Diogo Jota: Nunca Mais é Muito Tempo', a viúva do futebolista falaria pela primeira vez em vídeo, onde acabaríamos por ouvir de sua viva voz a falta que lhe faz o pai dos três filhos. Mas para além da dor ficou também visível outro detalhe: regressar às memórias de Jota é também uma fonte de alegria, de manter vivo aquilo que viveram, e por diversas vezes vimos Rute a sorrir ao recordar esses tempos que a fizeram tão feliz.

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Rute Cardoso

As melhores recordações passarão por viagem, dias de sonho pelo mundo, mas estão principalmente nas pequenas coisas. Até porque, como a própria Rute viria a confidenciar, ela e Diogo eram um "casal de chatos". Caseiros, preferiam estar em casa a ver um filme ou a jogar a videojogos do que jantares em grandes restaurantes, preferiam a simplicidade do convívio com os filhos a programas fora da caixa e foi nesse gosto comum pela vida leve que construíram a longa relação, que começou ainda na juventude, mas que nunca perderia a sua essência. Até porque, por mais que a vida e a conta bancária tivessem mudado, a verdade é que Diogo e Rute nunca tiraram os pés do chão, cultivando a mesma forma de estar na vida.

"Vou citar a Rute [a viúva], numa das conversas que tivemos e que está no livro, em que ela dizia: 'Nós éramos um casal de chatos, basicamente, porque não fumávamos, não bebíamos, não tomávamos café, não gostávamos de sair à noite, o que gostávamos mesmo era de estar em casa, às vezes o Diogo a jogar Playstation, porque ele tinha uma paixão tremenda pelos e-sports, ver filmes, sei lá, na televisão, na Netflix, ter amigos em casa para jogar jogos de tabuleiro, isso é que nos dava prazer'", explicou o José Manuel Delgado a propósito do livro que lançou.

Algo que Rute preserva na sua nova vida, à qual se tenta habituar, sem Diogo Jota. Desde a partida do futebolista, a viúva regressou à sua terra natal, mas manteve o seu dia a dia longe de luxos, que nunca pautaram a vida da família. A prioridade está agora na educação dos três filhos e também em manter viva a memória de Diogo Jota, principalmente recordando o seu talento e também as grandes paixões. 

Foi por isso que para Rute o desporto se afirmou também como uma boia de salvação. Seguindo os passos do marido, a viúva começou, em primeira instância, a correr para se libertar da dor e com o tempo foi acrescentando novas modalidades para se desafiar: do hyrox ao boxe, tudo tem servido à viúva como um escape nos momentos em que a saudade a deixa mais abalada.

UM ANO SEM DIOGO JOTA

Há precisamente um ano, Rute Cardoso vivia a doce leveza de quem ignora que sobre si está prestes a abater-se uma desgraça. Ultimava o casamento com o seu grande amor, Diogo Jota, e, na azáfama dos preparativos, e os cuidados com os três filhos, uma delas ainda bebé, não havia tempos vazios. Havia, sim, um mundo de expectativas e o dia da cerimónia, a 22 de junho, confirmou os sonhos do casal: tinha sido tudo como imaginaram. "Não sei para onde nos leva o futuro. Não sei, nem me interessa, desde que seja contigo. Amo-te para sempre, minha branquinha", foi a arrepiante mensagem de Jota para a noiva no dia da cerimónia.

No entanto, Rute mal teria tempo para saborear essa felicidade plena e, na maior das ironias do destino, perderia Jota 11 dias depois de consumado no papel este grande amor. Antes da tragédia, desfrutaram de uma noite de cinema e jantaram nas margens do Douro, numa roulote, ao lado de amigos. Programas simples que, apesar do tanto que a vida mudou em termos financeiros, continuavam a privilegiar "Era noite de amigos, de tradições, de coisas simples, das coisas que, entre amigos, na verdade, nunca mudam, das que nunca são atrapalhadas pela fama, pela visibilidade. Os amigos constituem sempre o centro. São o sítio, a casa", é relatado no livro de José Manuel Delgado 'Diogo Jota - Nunca Mais é Muito Tempo', onde Rute explica também como foram as horas trágicas em que percebeu que a sua vida nunca mais seria a mesma.

Já tinha enviado mensagens ao marido. “Amor, quando parares, liga-me, que eu tenho aqui uma coisa para te mostrar.” Ao não obter resposta, acabaria por enviar uma segunda que dizia apenas: "Vai com Deus."

Foi a ausência de uma resposta que começou a deixar Rute alerta, numa sensação que crescia à medida que as horas passavam. Em conjunto com a família começou, então, a ligar para hospitais, para o hotel onde Jota e o irmão eram suposto pernoitar mas nunca fizeram check-in, até que a confirmação da desgraça acabaria por surgir quando o tio de Rute entrou em contacto com a polícia espanhola.

"Ouvi o meu tio dizer: 'Sim, são dois irmãos'. Era a certeza, forte e dura de que algo havia acontecido. De repente, o meu tio pediu-me que lhe passasse o Nuno, o meu cunhado. Ouvi o meu tio dizer-lhe: 'Os corpos estão a ser levados'. Acho que ele acrescentou 'para a morgue', mas a minha cabeça parou ali. 'Corpos?'"

A confirmação chegaria pouco tempo depois, tendo sido comunicada por um polícia espanhol, que leu a declaração formalmente. "Declaro o óbito de Diogo José Teixeira da Silva, nascido em 4 de dezembro de 1996".

Nos dias seguintes, Rute apenas existiu, apesar de o chão lhe ter sido roubado. Com a ajuda da família, suportaria as horas de vazio, a dor das cerimónias fúnebres, as perguntas dos filhos, as questões a tratar, as decisões que havia para tomar.

Acabaria por deixar Liverpool, mudando-se para a casa da irmã, em Gondomar, o seu pilar para conseguir enfrentar a vida sem Diogo Jota. Com o decorrer dos meses, agarrou-se à fé, aos filhos, a sua enorme força, e ao desporto como superação, mas também às homenagens do marido como uma renovada missão de vida, até que, sem saber muito bem como, os dias foram passando até se assinalar o primeiro ano sem Diogo Jota: no dia 3 de julho assinala-se um ano desde que o Lamborghini em que o craque da Seleção seguia sofreria um despiste fatal, ceifando a vida ao futebolista e ao irmão, André Silva, num momento trágico pintado a negro na história do futebol mundial.

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