Nem a série dramática mais intensa e caótica sobre chefs de cozinha e restaurantes de uma qualquer plataforma de streaming conseguiria descrever um ano tão tumultuoso para Ljubomir Stanisic como têm sido estes últimos 12 meses. Ljubo, conhecido pelo seu temperamento indomável e frontalidade desarmante, parece estar a viver um verdadeiro "efeito dominó" de infortúnios que ameaça tudo aquilo que construiu a pulso. O golpe mais recente aconteceu na Rua da Misericórdia, em Lisboa: um incêndio "devastador" destruiu por completo o restaurante Carnal, o gastrobar mexicano que era um dos projetos mais recentes do Grupo 100 Maneiras, liderado por Ljubomir.
Fogo no Chiado: reerguer o Carnal das cinzas
O restaurante localizado perto do Chiado, no 9Hotel Mercy, foi palco de um incêndio que, de acordo com a agência Lusa, deflagrou na cozinha na madrugada de quinta-feira, 2 de abril, tendo obrigado a uma evacuação temporária do hotel. Oito pessoas foram assistidas por inalação de fumos, sendo que o incêndio, segundo os bombeiros à Lusa, ficou confinado à cozinha e foi dado por extinto pouco depois das cinco horas da manhã, meia hora depois de ter sido dado o alerta.
Em comunicado oficial, o grupo confirmou que o espaço, inaugurado em novembro de 2021, foi destruído na "totalidade". Mais do que o avultado prejuízo financeiro, os estragos assumem contornos particularmente emocionais, uma vez que as chamas consumiram as obras exclusivas de Carlito Dalceggio, que conferiam ao Carnal uma "mitologia livre", única na capital. Apesar da "profunda tristeza" manifestada pela equipa liderada por Stanisic, Nelson Santos, Nuno Faria, Miguel Ângelo Fernandes e Manuel Maldonado, a determinação em manter o projeto vivo é mais forte que o desalento perante a tragédia. Por agora, a alma mexicana do grupo sobrevive com a transferência do conceito para o Bistro 100 Maneiras, no Largo da Trindade, de forma temporária, enquanto irão decorrer os trabalhos de reabilitação do espaço original.
O adeus à Estrela e o agudizar da crise
Este incêndio é, no entanto, apenas o derradeiro capítulo de um ciclo que tem sido terrível para o chef bósnio. No início de 2025, ficou a saber-se que o 100 Maneiras tinha perdido a Estrela Michelin. Para Ljubomir, o impacto não foi apenas uma questão de prestígio, mas um rombo financeiro pesado, com uma quebra de 40% na faturação mensal. Isso significou o agudizar da crise que atinge muitas das empresas de restauração.
Na altura, Ljubo confessou em entrevista ao 'Observador' que a sobrevivência passou a ser a prioridade. “Eu próprio estou a passar por essa crise porque pago contas e não chego ao break even (ponto em que as receitas totais de uma empresa se igualam aos seus custos totais) no final de mês. Por isso tenho que me reinventar. Tenho que fazer conceitos que tragam mais pessoas. Por isso, o que estamos a fazer é tentar sobreviver no meio de um lago de m**** onde estamos todos", disse, na mesma entrevista, com a frontalidade que lhe é característica, ao mesmo tempo que lamentava fuga de parte dos empregados que "não são leais" nos momentos de crise.
A perda da tão emblemática estrela foi, na visão de Ljubomir Stanisic, puramente política. O chef acredita que a sua franqueza, nomeadamente quando comparou a Estrela Michelin a uma fralda "Dodot" que "serve para limpar o c*", durante uma entrevista a Daniel Oliveira, na SIC, acabou por definir este desfecho. "Fui avisado por 20 chefs que ia perder a estrela", revelou, reiterando que não pretende "chupar p*** a ninguém" para recuperar a distinção, preferindo focar-se no mérito do seu trabalho, longe dos jogos de influências que marcam este setor da restauração de luxo.
Polémicas, televisão e milhões em tribunal
Para além do cenário gastronómico estar dramaticamente agastado, o lado financeiro pessoal de Ljubomir sofreu igualmente um rude golpe com o fim do seu contrato com a SIC, no final de 2024, que lhe valia um ordenado fixo de 15 mil euros mensais. Ljubomir manteve-se no canal de Paço de Arcos durante os primeiros meses de 2025. De acordo com um comunicado do canal gerido por Francisco Pedro Balsemão, Ljubomir passaria a integrar “projetos transversais no grupo Impresa” com “expressão máxima na SIC generalista e nos diferentes canais do grupo e também na nova plataforma streaming que a SIC irá lançar”.
No entanto, em julho de 2025, o fim da relação entre as duas partes acabou assumida publicamente de forma clara pelo chef de 'Hell's Kitchen'. “Não foi decisão de ninguém. Simplesmente o meu contrato tinha um início e um fim e também decidi estar um bocadinho relaxado, parar e não estar à procura de rigorosamente nada”, explicou Ljubomir, em entrevista à TV7 Dias.
Para além desta perda de rendimentos, Stanisic ainda tem para resolver o processo que decorre em tribunal, com a TVI a exigir-lhe o pagamento de uma indemnização de 1.2 milhões de euros por uma alegada quebra de contrato aquando da sua transferência para o canal de Paço de Arcos, em 2020. O julgamente arrancou a 20 de outubro de 2025, no Tribunal Cível de Lisboa. No entanto, o chef garante que é ele quem tem dinheiro a receber da estação de Queluz de Baixo. Stanisic exige 8.966,67 euros referentes a dias de trabalho e à gravação de um programa, além de 5% das receitas publicitárias da terceira temporada de 'Pesadelo na Cozinha'.
Tudo isto faz regressar Stanisic a um passado que julgava enterrado. Em 2008, o chef viveu a falência do seu projeto em Cascais, uma experiência dolorosa que o deixou com uma dívida de meio milhão de euros e lhe ensinou que, na hora do aperto, "90% dos amigos" desaparece. Habituado a cenários de guerra, o "vilão" mais amado da televisão portuguesa, natural da antiga Jugoslávia, enfrenta agora o desafio de reerguer o Carnal das cinzas e estabilizar as contas, provando que a sua resiliência é, de facto, à prova de fogo.