Aconteceu há mais de um ano e meio, mas as manchetes ainda estarão certamente na memória dos muitos que, em outubro de 2024, foram confrontados com a história de Nuno da Silva. O horror tomou conta do País, não por se tratar de um ex-concorrente do reality show da TVI 'Love on Top', mas pelo caráter hediondo da narrativa, uma vez que o fotógrafo era acusado de ter tentado matar o filho de 5 anos. Foi esta semana condenado a 12 anos e meio por tentativa de homicídio, e também pelo crime de violência doméstica e resistência e coação sobre militares da GNR. Terá ainda de pagar 35 mil euros a esse filho e cinco mil ao segundo, sobre o qual terá exercido outros atos de violência.
Para a mulher, Cynthia Noriega, e também ex-concorrente do 'Love on Top', nada nunca poderá apagar o horror que viveu naquele dia (e na verdade desde que a violência começou). No entanto, houve uma sensação de justiça, que a levou a reagir à condenação. "A justiça resistiu e a justiça confirmou", escreveu, partilhando uma fotografia de uma mãe leoa a proteger as suas crias, algo muito próximo de como terá sentido.
Os jovens conheceram-se no reality show 'Love on Top' mas a aura de encantamento vivida dentro do programa rapidamente se quebraria. "Ele foi o melhor que me aconteceu, apesar de todas as desgraças da minha vida ele foi a pessoa que me deu estabilidade", disse na altura Chyntia que ao lado de Nuno esquecia o mal-estar de um relacionamento passado, marcado pela violência doméstica. Cá fora, a relação foi vivida a mil, Cynthia acabaria por engravidar do primeiro filho e os problemas em casa surgiriam em catadupa, já longe dos holofotes públicos. Tanto que quando a tentativa de homicídio ao próprio filho aconteceu já poucos registos havia daquilo que era a vida do casal, com exceção para o que mostravam nas redes sociais, o que já dava algumas pistas de instabilidade.
Na véspera do crime, por exemplo, Nuno da Silva recorreria ao Instagram para dar conta de que havia sofrido de abusos sexuais por parte do avô durante a sua infância, algo que o marcara profundamente. "O que eu sinto não é de mim, há algo que corre no sangue da minha família, eu vi isso a minha vida inteira, ódio nos olhos deles, as atitudes de loucuras. Eu sinto que eles me passaram isso, e que piora com tudo o que passei até ao dia de hoje. Não eram pessoas normais”, lê-se na publicação, que já denotaria um cenário de confusão e instabilidade psicológica. Nesse texto, assumia também que se tentou suicidar por mais do que uma vez quando ainda era menor, uma delas ingerindo "líquido para lavar a roupa" e outra com comprimidos. No entanto, nada faria prever o que estava prestes a desenrolar-se.
A cronologia dos acontecimentos parece saída de uma série criminal. Em tribunal ficou provado que Nuno da Silva drogou a criança com comprimidos, pôs-lhe um pano de éter na boca e regou o corpo do próprio filho com gasolina. "Graças a Deus que não acendeu o isqueiro", disse a juíza Maria Isabel Gomes na recente leitura da sentença, sendo que o objetivo final seria esse. Deixaria, depois, o filho em casa e sairia com o mais velho, de 6 anos, dirigindo-se a casa dos pais. Rapidamente, os familiares se aperceberam de que algo passava quando o viram perturbado e sem o segundo neto.
"Ao ser questionado sobre o paradeiro do outro filho, o detido começou a gritar, a correr e a fugir. Os pais do detido perceberam que havia alguma coisa que não estava bem, foram a casa do filho [na Quinta do Conde, no concelho de Sesimbra], e encontraram o outro neto, o menino de 5 anos, inanimado", disse à Lusa o responsável da PJ de Setúbal, em outubro de 2024. A criança foi hospitalizada mas teria alta rapidamente por se encontrar fora da zona de perigo.
"Apenas para confirmar que o Noah está bem, já foi analisado e tratado no hospital e já estamos em casa. Em relação ao sucedido, peço por favor respeito neste momento tão delicado. Por favor, respeitem a privacidade deles que não têm culpa. (…) Um dia conto-vos a minha versão. O Nuno irá responder em tribunal consequente dos seus atos cometidos. Obrigada Cynthia”, escreveu na página de Instagram.
O cenário limite vivido naquele dia teve pela primeira vez consequências sérias, mas esta não foi a primeira vez que o jovem exerceu maus-tratos sobre os filhos, conforme se viria a provar. Em tribunal, ficou claro que Nuno assumia uma parentalidade baseada na violência, agredindo os filhos com chapadas e pontapés na barriga se se portassem mal. Eram, posteriormente, fechados num quarto escuro.
Provado ficou também que o crime não foi obra do acaso ou de uma psicose do momento, mas exigiu premeditação. De acordo com a investigação, uma semana antes de tentar matar o filho, Nuno da Silva adquiriu éter etílico, uma substância anestésica e potencialmente inflamável, numa farmácia e escondeu-o na casa em que vivia com a companheira, Cynthia Noriega, e as duas crianças. Na manhã do terrível incidente deixou que a mulher saísse para o trabalho e administrou comprimidos com benzodiazepinas e tricíclicos ao mais novo. Para além disso, molhou uma manta com éter e colocou-a sob o nariz e a boca da criança. Em seguida, levou-a para o seu quarto e regou-o com gasolina. Convencido de que o filho já estava morto, saiu de casa com o mais velho.
Desde então, o marido ficou em prisão preventiva e foram-lhe retirados quaisquer direitos parentais, enquanto Cyntia fez de tudo para refazer a vida e garantir o bem-estar dos filhos. No final de 2024, dois meses depois do acontecimento que lhe mudaria a vida, faria um sentido desabafo nas redes sociais, implorando por melhores dias. "Não te odeio, 2024, mas foste um ano difícil, cheio de desafios, mudanças e aprendizagens. Mostraste-me que a vida pode mudar num piscar de olhos e ensinou-me a confiar mais em Deus. Mas, acima de tudo, ele fez-me entender que a minha saúde seja física, emocional ou mental é o que importa", começou por escrever a jovem.
"Ainda há coisas que não consigo compreender, mas acredito que, com o tempo, vou entender o porquê e o propósito de tudo o que aconteceu! Nunca fui de pedir, mas, neste 2025, peço a Deus que me cure de tudo aquilo que só ele sabe o que passei. Feliz 2025", rematou Cynthia Noriega, que tenta agora olhar para a frente e dar uma renovada estabilidade aos filhos, quase dois anos depois do dia trágico.