'

Notícia

THE MAG - The weekly magazine by Flash!

Salvavam as pistas de dança nos anos 90 e inauguraram o Festival Sudoeste: Os Entre Aspas estão de volta!

Vinte anos depois de se terem separado, Viviane, Tó Viegas e Nuno Filhó, recordam à The Mag os tempos em que ainda se gravavam cassetes, quando não existia internet nem redes sociais e a noite em que correram as discotecas 'todas' de Lisboa. O grupo celebra 30 anos sobre a sua formação com um regresso ao ativo.
Miguel Azevedo
Miguel Azevedo
19 de janeiro de 2023 às 22:36
...
Entre Aspas Foto: Cofina Media
Corria o verão de 1990 (a música moderna portuguesa iniciava uma nova era, depois da loucura dos anos 80), quando Viviane, Tó Viegas e Luis Fialho [substituído depois por Nuno Filhó], começaram a tocar em bares pelo Algarve. Ainda sem conseguirem definir o nome do grupo, surgiam nas agendas culturais apenas com duas aspas, para quando surgisse uma ideia que agradasse a todos. A verdade é que a designação foi ficando: Entre Aspas.     
Sem grandes expectativas, enviaram, em 1991, uma maqueta para um concurso de Música Moderna da Câmara Municipal de Lisboa. Ficaram em terceiro lugar mas foi o bastante para despertarem a atenção da editora BMG com quem viriam a gravar cinco discos nos dez anos seguintes. O primeiro deles intitulado 'Entre S.F.F', e lançado em 1993, continha, entre outros temas, 'Voltas' e especialmente 'Criatura da Noite', um dos maiores sucessos da música portuguesa da década de 90. 
Deram o último concerto no Festival Maré de Agosto, no Açores, em 2003, quando a ambição pedia a todos experiências diferentes por outros caminhos (Viviane iniciou, por exemplo, a sua carreira a solo) mas nunca voltaram as costas, mantendo sempre a amizade. No caso de Tó Viegas e Viviane mantinha-se mesmo uma relação para lá da música [os dois, que se conheceram na escola em Tavira, são casados há trinta anos e têm um filho em comum, Rafael, agora com vinte].    
Ora é precisamente para assinalar 30 anos sobre o primeiro disco que o grupo decidiu juntar agora, de novo, os "trapinhos" [leia-se as músicas antigas]. Viviane diz que as datas redondas "são para serem festejadas" e promete que vêm aí concertos de comunhão para recordar os bons velhos tempos. A digressão será anunciada em breve, mas antes disso sairá no próximo dia 27 uma nova versão e novo vídeo de 'Criatura da Noite'.   

Com os Entre Aspas de regresso ao ativo, afinal com o que é que podemos contar este ano?
Tó Viegas - Vamos começar por lançar uma nova versão do 'Criatura da Noite' que foi no fundo o nosso primeiro single. Esta versão foi feita pelo produtor brasiliero Alê Siqueira que, por exemplo, foi o produtor dos Tribalistas, Mayra Andrade ou Elza Soares e que já tinha trabalhado no último disco da Viviane.  
Viviane - O Alê é 'barra' em ritmos e está por detrás do festival Percpan [festival brasileiros de percussão]. Ele escolheu um ritmo para esta versão que é o electro swing e que assenta bem no 'Criatura da Noite'. Acho que o ar festivo da canção ainda saiu agora mais reforçado.

"Não nossa intenção regressar para continuar, mas apenas para festejar e assinalar esta data com alguns concertos ao longo deste ano de 2023"

E as novidades ficam por aqui?
Nuno Filhó - Não. Vamos lançar ainda um disco novo com canções que já estavam feitas e guardadas na gaveta. São temas da altura em que parámos de tocar juntos em 2003. Estamos agora a regravá-lo todo com novos arranjos e com um som mais atual. E vamos também fazer alguns espetáculos. Há já algumas datas confirmadas, mas que ainda não podemos dizer. No fundo é um ano para recordar aqueles bons velhos tempos. 
Viviane - Esse disco estava na altura pronto para ser lançado, só que depois decidimos não avançar e ir cada um para seu lado. Ainda assim mantivemos sempre a amizade forte que nos uniu e que nos manteve próximos. Agora, acho que os fãs dos Entre Aspas merecem conhecer estes temas que estavam guardados. 
E este regresso dos Entre Aspas tem duração limitada?
Viviane - Sim. Não é de facto nossa intenção regressar para continuar, mas apenas para festejar e assinalar esta data com alguns concertos ao longo deste ano de 2023.
 
Olhando para trás também têm aquela sensação de que foi ontem que tudo começou?
Viviane - Não. Nós sabemos que já lá vão uns aninhos (risos). Claro que quando se faz aquilo que se gosta, parece que o tempo passa mais rápido, mas sabemos que já lá vão trinta anos.   

...
Entre Aspas Foto: Cofina Media
E qual é a primeira memória do início de tudo?
Tó Viegas - Eu acho que foi quando lançámos o 'Criatura da Noite' em que nos vestimos  com umas abas de grilo, pusemos umas máscaras e corremos as discotecas todas de Lisboa, desde o Benzina até ao Alcântara. Entrávamos com a música a tocar, aparecíamos tipo criaturas, subíamos para cima das colunas ou dos balcões com os instrumentos e saíamos quando acabava a música para seguir para outra discoteca. 
Viviane - Foi uma ação de promoção muito engraçada. Naquela altura, aquele era o tema que salvava as pistas de dança nas discotecas. Os DJ's diziam que quando a noite começava a ficar fraca punham a 'Criatura da Noite' e voltava tudo para a pista para dançar. O engraçado é que acabámos esse dia na Grande Noite do Fado (risos). 
Como é que nasceu essa canção?
Viviane - Foi a primeira letra que eu escrevi e nasceu por causa de um sonhos bizarros e recorrentes que eu tinha em que me via a cair para dentro de um poço sem fundo e ia vendo criaturas da noite como mochos ou morcegos (risos). Sei lá eu explicar aquilo. O que sei é que gostava muito daqueles seres todos noturnos. 

"Quando lançámos o 'Criatura da Noite' vestimo-nos com umas abas de grilo, pusemos umas máscaras e corremos as discotecas todas de Lisboa, desde o Benzina até ao Alcântara. Entrávamos com a música a tocar, aparecíamos tipo criaturas, subíamos para cima das colunas ou dos balcões com os instrumentos e saíamos quando acabava a música para seguir para outra discoteca" 


Ficam muitas histórias de palco e estrada para contar daquela altura?
Nuno Filhó - Sim.  Acho que um dos concertos mais bizarro que demos foi no Machico, na Madeira, em 1993. Na altura o presidente era o Alberto João Jardim que tinha as freguesias todas, menos uma, precisamente Machico. Fomos para lá uma semana e quando chegámos é que fomos confrontados com o facto de nenhuma empresa da Madeira estar autorizada a alugar material a Machico. Foram os nossos técnicos que foram para lá soldar cabos e montar colunas.
Viviane - Ainda por cima, só tínhamos quatro holofotes em cima do palco. Quando estávamos a subir, um dos senhores da organização ainda nos disse: "Os senhores não estranhem se a luz se apagar daqui a cinco ou dez minutos". Mas foi uma grande festa... 
Nuno Filhó - ...e o tio Alberto não mandou desligar a luz (risos). 
Tó Viegas - E uma vez tocámos num coreto em que chovia dentro do quadro elétrico. 
O último concerto dos Entre Aspas foi em 2003. Como é que foi essa despedida?
Tó Viegas - Foi no festival Maré de Agosto, nos Açores, curiosamente onde tínhamos começado a tocar em 1993. Digamos que foi o último concerto do período em que a banda estava no ativo, porque depois disso, fomos mantendo a tradição de fazer um concerto por ano.

E porque é que na altura decidiram separar-se?
Nuno Filhó - Porque cada um tinha outros sonhos por concretizar. Os Entre Aspas tinham um estilo muito próprio, e a Viviane, por exemplo, com a sua carreira a solo conseguiu explorar outras coisas. Acho que todos nós quisemos desanuviar um bocadinho da pressão da banda. Mas o engraçado é que cada vez que nos encontramos é uma festa e a prova está agora aqui.  
Tanto tempo depois e numa altura em que o consumo da música é cada vez mais imediato, quem é que vocês vêm hoje como o potencial público dos Entre Aspas?
Nuno Filhó - Eu acho que o público dominante será da nossa idade, mas também hão-de ser os filhos daqueles que gostavam de nos ouvir. E depois também há outra coisa engraçada que é uma geração mais nova que nunca ouviu o nosso nome, mas que reconhece as canções como a 'Pequena Flor' ou o 'Criatura da Noite'.   
Viviane - Neste caso nós dizemos que estas canções já nem são nossas. Pertencem às pessoas e fazem parte da história da música portuguesa. Eu acho que vamos ter algumas surpresas engraçadas quanto às pessoas que vão aparecer para nos ouvir. 

"Há uma geração mais nova que nunca ouviu o nosso nome, mas que reconhece as canções como a 'Pequena Flor' ou o 'Criatura da Noite'"
Vocês têm saudades dos anos 90?
Viviane - Eu não tenho saudades das coisas que já passaram, tenho é saudades do que está para vir (risos). 
Mas a forma como se ouvia e se consumia música era totalmente diferente! Os discos, por exemplo, eram feitos para se ouvirem do início ao fim!
Viviane - Nós entrámos na música nos anos 90 e experimentámos as mudanças todas. Somos da altura em que, por exemplo, não havia internet nem redes sociais e que só gravava quem estava ligado a uma editora. 
Tó Viegas - Nós ainda somos da fase do analógico e chegámos a gravar em fitas e a fazer cassetes (risos).
Nuno Filhó - Quando aparecemos ainda nem existiam festivais. Nós fomos, aliás, a primeira banda a tocar na Zambujeira do Mar no Festival Sudoeste em 1997 [banda abriu o primeiro dia no palco principal]. 

Vai gostar de

você vai gostar de...