A viver um drama familiar entre portas, Gisela João não cala a revolta: "Estou frustrada e triste"
A doença tem impedido a fadista de sair à rua e juntar-se às manifestações, ao contrário de Ana Moura, uma das vozes mais ativas nesta luta. Mas, mesmo longe dos protestos, Gisela João não se cala e deixa uma mensagem que não deixa dúvidas sobre a sua posição."Entre o trabalho e ficar colada à cama, doente, ainda não consegui ir para a rua. E isso deixa-me frustrada e triste." É desta forma que Gisela João começa o desabafo que publicou nas redes sociais, onde expõe a indignação perante a realidade do país e a sensação de impotência que diz sentir. A fadista atravessa uma fase particularmente delicada também a nível pessoal. O irmão enfrenta uma luta contra o cancro no IPO do Porto. Sem estabelecer uma ligação direta entre esta situação familiar e a mensagem que publicou, a artista não esconde o desgaste dos últimos dias e a frustração por não conseguir estar presente nas ruas, como gostaria.
"Vejo publicações de amigos em quem confio, vejo as notícias e só me dá vontade de chorar perante a sensação de impotência", escreve a fadista, que não esconde a revolta com o que considera ser uma situação cada vez mais difícil de compreender. Um dos exemplos que aponta é o valor das rendas. "Há uns meses, quando vi nas notícias que o valor de 2300 euros era considerado uma renda acessível no meu país, caiu-me o queixo. Nem consegui perceber como é que se chega a este valor num país onde o ordenado mínimo não chega aos 1000 euros."
Para Gisela João, os números são reveladores: "Para mim, isto é suficiente para perceber que a conta está muito para lá de errada." Mas a sua crítica não fica pelos valores anunciados. A artista descreve a transformação do bairro onde vive, que considera ter perdido parte da identidade familiar que tinha. "O meu bairro era um bairro familiar. Hoje, há pessoas a dormir no meio da rua", lamenta, recordando também o desaparecimento de mercearias, frutarias, talhos, cafés e restaurantes de bairro, substituídos por outros espaços comerciais.
A fadista aponta o dedo à mudança que observa à sua volta, entre lojas com rendas elevadas, cafés modernos e restaurantes pensados para as redes sociais. "Ao mesmo tempo, o meu bairro enche-se de salas de yoga e de pilates, de yoga com cabras, de cafés modernos com preços que não são para nós, de restaurantes e bares feitos para o Instagram, de matcha latte, tostas de abacate e cafés a 8 euros."
Gisela João faz questão de distinguir estas mudanças das pessoas que trabalham nesses estabelecimentos. "Não são essas pessoas que fazem subir o preço das casas. Não são, acreditem." E explica porquê: "Converso e convivo diariamente com elas. Conheço um bocadinho das suas vidas e sei que também estão a tentar sobreviver." A experiência que teve numa aula de pilates é outro dos exemplos que partilha. "Fui experimentar uma aula de pilates e, no final, perguntei se havia algum horário com aulas em português. Prefiro. Não há."
Mas foi uma conversa que ouviu numa esplanada que a deixou particularmente revoltada. Segundo conta, algumas mulheres americanas descreviam o bairro como um lugar muito na moda e barato, referindo casas com rendas entre os 2500 e os 3000 euros. "Nem sequer consegui evitar ouvir aquela conversa. Senti inveja. Não gostei da pessoa em que me senti transformar naquele momento, mas apeteceu-me mesmo virar-lhes a mesa ao contrário", confessa.
A fadista reconhece que a situação internacional é instável e que as decisões políticas têm consequências, mas considera que a sua geração tem passado demasiado tempo a resistir. "Eu e a minha geração levámos com uma crise gigante, com uma troika, com uma pandemia e com tudo o que veio depois. E, no meio de tudo isto, não temos feito muito mais do que resistir."
É quando fala da importância de ter uma casa que o desabafo ganha um tom ainda mais pessoal. Gisela João recorda que, mesmo nos momentos em que tudo parecia difícil, ter um lugar seu lhe deu segurança para continuar. "Saber que tinha – que tenho – o meu cantinho deu-me sempre dignidade. Deu-me chão. Deu-me uma base a partir da qual podia continuar." É por isso que lhe custa assistir ao que está a acontecer e ver tantas pessoas sem condições para permanecer no lugar a que chamam casa.
"Quem sou eu para ter respostas para isto? Quem sou eu para reclamar ou apontar o dedo?", questiona, antes de deixar claro que, na sua perspetiva, esta é uma questão que ultrapassa os partidos políticos. "Quem sou eu, que não sou política, mas que tento fazer política todos os dias com as minhas escolhas, com aquilo em que acredito e com a forma como trato as pessoas?", escreve, resumindo a sua preocupação numa palavra: "Pessoas."
E desenvolve: "Pessoas que vivem, trabalham, criam os seus filhos, tentam pagar as suas contas e querem ter um lugar no mundo onde possam simplesmente existir com dignidade." A reflexão termina com uma pergunta que resume a preocupação com o futuro e com as condições necessárias para formar família: "Mas como é que se constrói uma família quando nem sequer podemos ter uma casa?" Gisela João deixa ainda uma última crítica, dirigida a uma sociedade que incentiva as pessoas a terem filhos sem garantir, na sua perspetiva, as condições para que possam construir o futuro que desejam: "Mandam-nos ter filhos para que nem sequer possam sonhar."