O relato sofrido de Vítor Emanuel ao revelar o inferno que viveu no mais solitário dos silêncios
Durante muito tempo, conseguiu continuar a trabalhar enquanto enfrentava uma batalha que poucos conheciam. Houve dias em que mal era capaz de sair do quarto e outros em que precisava dos pais por perto para cumprir os compromissos profissionais. Agora, Vítor Emanuel recorda o período mais difícil da sua vida.Vítor Emanuel começou na televisão aos 13 anos, como apresentador do programa infantil 'Clube Disney', da RTP. Ao longo dos anos, passou por várias produções televisivas, deu voz ao burro Pavarotti e participou em 'A Quinta das Celebridades', da TVI, onde interpretou o Senhor Pires. Mas, com a falta de novos projetos televisivos e longe das câmaras, o ator atravessou uma fase particularmente difícil: a depressão, que se instalou sem que percebesse o que estava a acontecer.
No podcast 'Juntos Contra a Depressão', da CNN Portugal, Vítor Emanuel contou que foi diagnosticado há cerca de 15 a 20 anos. Não se recorda de ter identificado sinais prévios. O primeiro alerta surgiu quando começou a querer isolar-se e sofreu ataques de pânico, algo que nunca tinha vivido daquela forma.
"Comecei a ter comportamentos completamente diferentes dos que eram habituais em mim", recordou. A situação agravou-se rapidamente. "O galopar foi gigantesco. Não foram uns passinhos de pónei, foi tipo um dinossauro, e a coisa ficou fora de controlo", descreveu. As manhãs tornaram-se particularmente difíceis. Acordava com uma angústia intensa e sem saber se conseguiria sair do quarto, conduzir ou chegar ao trabalho. Chegava a fazer viagens de apenas 15 minutos a chorar compulsivamente, sem conseguir parar.
Apesar disso, continuava a cumprir os compromissos profissionais. Antes de entrar num estúdio para fazer um direto, tentava secar as lágrimas e disfarçar os olhos vermelhos. Quando alguém reparava, arranjava uma explicação: "Foi o banho, foi o champô, já vou pôr um bocado de soro ou qualquer coisa."
Conseguia fazer o seu trabalho, mas, assim que terminava, o sofrimento regressava. "Mal chegava à porta do carro, ainda antes de a abrir, já estava outra vez compulsivamente num desespero de causa", contou. Até os encontros com pessoas de quem gostava podiam tornar-se difíceis: por vezes, sentia uma necessidade urgente de se afastar, sem conseguir explicar o que se passava.
Naquela altura, Vítor Emanuel vivia sozinho, depois de se ter divorciado. Os pais e a irmã eram as pessoas mais próximas, mas o ator tinha dificuldade em mostrar-lhes a dimensão do seu sofrimento. Desde novo, habituara-se a cuidar da família e a querer melhorar a vida dos seus. "Pus-me em primeiro lugar para conseguir, mas nunca me pus em primeiro lugar para usufruir", explicou. A ideia de acrescentar preocupações aos pais e à irmã era difícil de aceitar, apesar da relação próxima que sempre os uniu.
Quando procurou ajuda médica, a primeira medicação teve um efeito inesperado. No próprio dia em que começou a tomá-la, Vítor Emanuel perdeu os sentidos enquanto estava com o amigo Rui Teles, a caminho do lançamento de um livro de Nuno Markl. O episódio assustou profundamente o amigo, que chegou a pensar que o ator estava morto. Como a ambulância demorava a chegar, decidiu levá-lo para casa. A irmã foi chamada e contactou os pais, que se deslocaram para junto dele.
Seguiu-se cerca de dia e meio de grande prostração, durante o qual Vítor Emanuel não tinha vontade de fazer nada. Mas havia uma campanha publicitária para gravar. O ator tinha sido escolhido para uma ação que assinalava os 40 anos do Jumbo e as filmagens começavam no dia seguinte. Em apenas dois dias, perdeu "sete quilos e qualquer coisa". As roupas que tinha experimentado uma semana antes ficaram-lhe largas. Mesmo naquele estado, continuou a gravar os anúncios. Como não conduzia, eram os pais que o levavam de manhã ao local das filmagens. Quando não podiam ficar, a sobrinha aparecia para o ver e lhe dar apoio.
Foi Henrique Jales, produtor da campanha, quem percebeu que a situação exigia uma intervenção e pediu que chamassem uma ambulância. Vítor Emanuel foi levado para o Hospital de Cascais, onde encontrou uma médica que o acompanhou durante os meses seguintes. A recuperação foi gradual. O ator começou a sentir melhorias cerca de um mês depois e fez medicação durante um ano e alguns meses. Ao fim de seis meses, sentia que estava praticamente de volta a si próprio.
Na mesma entrevista, Vítor Emanuel falou dos filhos, Leonor e Rafael, e da forma como a paternidade mudou a sua vida. "Há um Vítor Emanuel antes de eles nascerem e um Vítor Emanuel depois", afirmou.