(cinco definições simples para coisas eventualmente complicadas)
1. A profundidade é 50% de simplicidade e 50% de poesia, o que equivale, contas por alto, a 100% de trabalho. O complexo é, nada mais inteligível do que isso, uma forma de cobardia: qualquer um consegue ser ininteligível, basta saber pouco daquilo que quer mostrar que sabe muito. Aqui vai um exercício especulativo: o sublime é, em ti, uma instituição absurda, uma aproximação engenhosa, e perigosa, ao pesadelo – assim escreveria um literato altamente apaixonado por si mesmo à mulher que clama amar; quando nos imagino juntos até Deus tapa os olhos – assim escrevo eu, que de poeta tenho pouco, mas de amor, juro (juro, catano), tenho tanto.
2. A tolerância é, com certeza, uma forma de sabedoria, e mais ainda de coragem. Tem traços de heroísmo aquele que, contracorrente, não diz "esfola" perante a turba esfaimada. O grande é o que tolera. Fala-se, assim, de uma grandeza humilde, a única espécie de grandeza, afinal. Mas para ser grande há também que ser diferente, não simplesmente para ser diferente, que estupidez, mas simplesmente por respeito próprio, a mais importante das castas de respeito, afinal. São as ovelhas fugitivas que levam o rebanho a novos caminhos, mesmo que sejam maus, qualquer pastor o saberá. Pelo menos um terço das descobertas que a História eternizou foram por acaso, uma falha no mapa, uma distracção, uma paixão incontrolável, ou apenas um humano perdido como todos os outros que sem explicação escolhe o lado improvável da estrada. Todos, nessa altura, o insultaram; mas todos, no limite, o toleraram. Já viste se não o tivessem feito?
3. A inteligência é, antes de mais, a resistência ao cansaço. A fadiga entra em nós como um cutelo pouco afiado, músculo a músculo, e só os mais criativos sobrevivem. O tédio, esse, cansa por não cansar – e é a morte dos pequeninos. Nunca nenhum génio morreu de tédio. É essa a lição da infância, onde tudo acontece menos nada acontecer. Sofre então o adulto de uma anti-criancice militante e tosca, uma adultice, digamos, que tolice. São os tolos que mudam o mundo, ou pelo menos acreditam que sim, que sorte.
4. A poesia é a véspera do mundo: os poetas sonham o que o Homem faz. Critica-se tudo menos o amor, ou não será, na verdade, amor nenhum. É pelo amor que provocam que se distinguem as pessoas: chama-se herói a quem consegue lutar contra ventos e marés para chegar ao seu destino, que parvoíce; o herói é o que convence os ventos e as marés a ajudá-lo a chegar ao seu destino, e no final da viagem ainda lhes oferece uma sandes e um copo de vinho, pelo menos. É à mesa, todos juntos, que se ganham as guerras – evitando-as, claro. O poeta é assim o mestre da paz, o que, pelo que sonha, faz os outros sonhar. E tu: quantas pessoas já fizeste sonhar hoje? Prepara aí uma dúzia de sandes e duas ou três garrafas de vinho e vai à tua vida, vá, que já se faz tarde.
5. A riqueza parece-me oca e dará certamente muito trabalho. O sacrifício é uma forma de pobreza, como se precisar da fome fosse necessário para comer. É isso, porventura, a juventude: uma liberdade que, por culpa de se impor como uma obrigação, reprime tanto quanto seduz. Importa acima do resto encontrar um caos coerente, uma desordem que console a ferida. Ser feliz não é uma escolha unicamente nossa; mas não ser estúpido é.