Somos vítimas do acaso, de uma qualquer viagem por caminhos errados que nos levam a destinos errados, ou então somos apenas incompetentes, quando algo assim acontece. Certo é que naquele momento tudo o que interessava
era a certeza de que era aquela, só aquela, a mulher que queria ter na sua vida para sempre e era mesmo aquela que já estava para sempre na vida de outro homem.
Conclusão: há sistemas de GPS amenos no mundo.
- Queres casar comigo?
- Sim, agora deixa-me dormir.
Existe, por vezes, aquilo a que podemos chamar romantismonegro – foi assimque elame explicou e eu estou apenas a transcrever, juro – nas melhores, e mais duradouras, relações. É como se – e essa possibilidade não é despicienda – a sombra fosse a base para a luz, e não o seu contrário: uma relação de anulação clássica, mas invertida, passe a complexidade, só espero que alguém me entenda. No fundo: é importante que se esteja pronto a colocar tudo
em causa para se perceber quanto vale esse tudo que se coloca em causa, e não há nada mais capaz de questionar do que a sátira, o lado lunar do que provavelmente sempre foi diurno.
Conclusão: todos os apaixonados têm amor e comicidade, passe a redundância. Amava a felicidade. Nunca foi correspondido. Nenhuma criatura é mais sarcástica do que a vida, convenhamos. O que não falta neste planeta
de deuses e de diabos é pessoas que acreditam firmemente na felicidade e nunca a encontram. Uma pena, claro, e é dessas pessoas que tenho pena, nunca das outras, das que se mantém quietas, pessimistas, à espera de que a
desgraça aconteça. Às vezes a desgraça, claro – a lei das probabilidades é infalível –, acontece mesmo. E elas queixam-se, coitadinhas e parvas.
Conclusão: o pessimismo é uma profeciaque, mesmo errada, acerta em cheio.
- Sabe, doutor: tenho queda para sobreviver. É, por certo, a maior vocação que todos teremos
de ter. Continuar, todos os dias, custe oque custar, doa o que doer, é o maior dos desportos radicais. Todos os velhos são heróis, o que não quer dizer que todos os jovens não o sejam também: o atleta que vence a maratona foi tão brilhante no começo do percurso como foi no meio ou no fim. As maratonas ganham-se em todos os metros, com uma gestão criteriosa, exaustivamente pensada, com criatividade aqui e ali para apimentar o percurso, como as vidas se ganham em todos os dias, com a mesma gestão criteriosa, exaustivamente pensada,
era a certeza de que era aquela, só aquela, a mulher que queria ter na sua vida para sempre e era mesmo aquela que já estava para sempre na vida de outro homem.
Conclusão: há sistemas de GPS amenos no mundo.
- Queres casar comigo?
- Sim, agora deixa-me dormir.
Existe, por vezes, aquilo a que podemos chamar romantismonegro – foi assimque elame explicou e eu estou apenas a transcrever, juro – nas melhores, e mais duradouras, relações. É como se – e essa possibilidade não é despicienda – a sombra fosse a base para a luz, e não o seu contrário: uma relação de anulação clássica, mas invertida, passe a complexidade, só espero que alguém me entenda. No fundo: é importante que se esteja pronto a colocar tudo
em causa para se perceber quanto vale esse tudo que se coloca em causa, e não há nada mais capaz de questionar do que a sátira, o lado lunar do que provavelmente sempre foi diurno.
Conclusão: todos os apaixonados têm amor e comicidade, passe a redundância. Amava a felicidade. Nunca foi correspondido. Nenhuma criatura é mais sarcástica do que a vida, convenhamos. O que não falta neste planeta
de deuses e de diabos é pessoas que acreditam firmemente na felicidade e nunca a encontram. Uma pena, claro, e é dessas pessoas que tenho pena, nunca das outras, das que se mantém quietas, pessimistas, à espera de que a
desgraça aconteça. Às vezes a desgraça, claro – a lei das probabilidades é infalível –, acontece mesmo. E elas queixam-se, coitadinhas e parvas.
Conclusão: o pessimismo é uma profeciaque, mesmo errada, acerta em cheio.
- Sabe, doutor: tenho queda para sobreviver. É, por certo, a maior vocação que todos teremos
com criatividade aqui e ali para apimentar o percurso.
Conclusão: estar vivo é uma questão de talento.
- Questiono tudo. Um dia vou saber porquê. Não existe ciência alguma nas respostas, por mais que insistam em afirmar o contrário. O que desencadeia a descoberta é a pergunta, o instante de magia em que alguém se dá ao trabalho de perguntar: e se? Um humano que não se dá ao trabalho de perguntar é um humano que não se dá
ao trabalho de se incomodar – que é o mesmo que dizer que é um humano que não se dá ao trabalho de viver. Andar por aqui é muito isso: darmo-nos ao trabalho, incomodarmo-nos com aquilo que, de facto, nos pode mudar a vida.E incomodarmo-nos a sério, sem medo de interrogar, sem medo de indagar, sem medo de contrapor, sem medo de
melindrar.
Só os mortos não melindram ninguém. Conclusão: há gravidade a mais no mundo.
O problema não é a falta de justiça. É o excesso de juízes.
E daqui não sou mesmo capaz de concluir nada, conclua lá quem está desse lado.
Saíste. E nem um beijo. Simplesmente foste. Tinhas certamente muito em que pensar, a empresa, as preocupações, as contas para pagar, os desafios que te esperam, mas foste sem um beijo. Deixaste um até logo distante, que quando foi falado já não estava aqui.
Eu sei: a culpa é minha. A culpa é minha e desta minha cabeça que não pára de pensar. Que não pára de questionar. Que não pára de querer entender tudo e mais alguma coisa.
CARTA AO PREGUIÇOSO ARREPENDIDO: Meu grandessíssimo burro, como querias tu que a paixão resistisse, que a nossa vida, tal qual a sonhámos resistisse, se simplesmente te deixaste cair na preguiça? Como?
Somos do tamanho do que impedimos em nós para magoar quem amamos. Em mim impeço tudo. Se sei que te pode magoar, paro. Se sei que te pode magoar, respiro, acalmo. E não faço.