Toca o despertador, olhos abertos, Joana levanta, mão a esfregar o que cansa, olhos que se fecham por dentro da cortina, casa percorrida, banho tomado, filho numa cama
- Acorda, João
filha noutra cama
- Acorda, Andreia
pequeno-almoço, cereais para ela, cereais para ele
- Para mim não dá tempo
marido na cama
- Acorda, Gouveia
Gouveia fica, Andreia fica, João fica
- Acorda, João
- Acorda, Andreia
- Acorda, Gouveia
o relógio não pára
- O autocarro está a chegar
filha a chorar, filho a chorar, marido a berrar, relógio que não pára, filha por uma mão, filho por outra, marido na cama
- Ressonas que nem um porco
autocarro atrasado, chuva que não pára de cair, vento que não pára de soprar, guarda-chuva partido, cabelos molhados, corpos ensopados
- Os meus meninos vão ficar doentes
autocarro cheio, suores, toques, odores, viagem que não acaba, filha numa escola
- Porta-te bem, às sete venho buscar-te
beijo de amor
(tudo por ti, filha)
filho noutra escola
- Porta-te bem, às sete venho buscar-te
(tudo por ti, filho)
passos cansados na máquina que costura
- Mais rápido
horas que passam
(tudo por ti, filha)
(tudo por ti, filho)
mãos cansadas, dedos marcados, campainha, hora de sair
- Os meus meninos
outra vez o autocarro, outra vez a escola, outra vez o filho às sete, a filha às sete, Gouveia em casa
- A que sabe este beijo?
palavras por dizer, amor por partilhar, cozinha, tachos, louça, comida, e as horas que passam
(tudo por ti, filha)
(tudo por ti, filho)
o corpo a ceder, a cama vazia, Gouveia ausente, ao lado e ausente, corpos voltados, e outra vez o despertador que toca e outra vez os olhos que fecham por dentro da cortina
- Outra vez
até quando outra vez?
Quase: adv. O mesmo que nada: pior do que nada. Dói mais a quem quase ganha a derrota do que a quem sempre esteve longe de ganhar.
Saíste. E nem um beijo. Simplesmente foste. Tinhas certamente muito em que pensar, a empresa, as preocupações, as contas para pagar, os desafios que te esperam, mas foste sem um beijo. Deixaste um até logo distante, que quando foi falado já não estava aqui.
Eu sei: a culpa é minha. A culpa é minha e desta minha cabeça que não pára de pensar. Que não pára de questionar. Que não pára de querer entender tudo e mais alguma coisa.
CARTA AO PREGUIÇOSO ARREPENDIDO: Meu grandessíssimo burro, como querias tu que a paixão resistisse, que a nossa vida, tal qual a sonhámos resistisse, se simplesmente te deixaste cair na preguiça? Como?
Somos do tamanho do que impedimos em nós para magoar quem amamos. Em mim impeço tudo. Se sei que te pode magoar, paro. Se sei que te pode magoar, respiro, acalmo. E não faço.