Como Fátima Lopes voltou sem querer aos ecrãs da SIC, depois de fugir da apresentação diária por estar "farta, pelos cabelos" de dar más notícias
Discurso depressivo e bota abaixo não é com a apresentadora que durante duas semanas vai conduzir as emissões do 'Casa Feliz'. Na primeira pessoa, alerta: "Um dia as pessoas vão perceber que se continuarem a comer informação que é veneno, isto as vai matar aos poucos".E se recebesse um convite para voltar a fazer televisão? Esta foi a pergunta que a FLASH! fez à apresentadora Fátima Lopes, de 57 anos de idade, na última grande entrevista que deu para a nossa edição especial em papel, e que agora a The Mag, by FLASH! recorda. "Ter um programa Diário? Diário, diário, não, já disse isso ao Daniel Oliveira. Não quero dizer, a vida já me ensinou isto: Nunca digas nunca! A vida já me ensinou isso. Agora, neste momento exato, não faz sentido porque eu tenho muita liberdade nos meus projetos", reconheceu, defendendo que "se aceitas um programa diário sabes que todos os dias, àquela hora, tens de lá estar. Eu estou um dia em Seia, outro em Marco de Canaveses, depois apresento uma reportagem em Lisboa, e depois estou fechada quatro dias em casa porque estou a escrever um projeto. A minha vida é isto e eu gosto disto, de não ter duas semanas iguais".
Só que, nem um mês depois destas declarações, a vida pregou uma partida a Fátima Lopes. O diretor de programas da SIC, Daniel Oliveira, desafiou-a a apresentar sozinha, durante duas semanas, o programa matinal 'Casa Feliz', substituindo nas férias os anfitriões habituais Diana Chaves e João Baião. E Fátima aceitou. Afinal são apenas só duas semanas iguais.
À FLASH!, a comunicadora tinha garantido, com orgulho, que tinha conquistado tempo para si e até explicou em que o estava a gastar: "Gosto desta liberdade, ela permite-me, na minha vida pessoal e familiar, dar aos meus o acompanhamento que eu também quero para mim. Os meus pais estão bem, mas têm oitentas. É bom saber que se por mero acaso eles precisarem de mim eu posso". E ainda salientou: "Sempre sonhei, pelos pais que tenho, que quando chegasse a altura deles precisarem de mim que eu pudesse dar o que eles precisassem: atenção, disponibilidade, tempo. E a vida está-me a permitir isso. Eles precisam, eu vou sempre, porque posso".
Fátima vai conduzir as manhãs do 'Casa Feliz' de 10 de agosto até 24 deste mês, mas depois dessa data voltará a fazer aquilo de que mais gosta, como nos revelou. Fátima garantiu sentir-se feliz com o seu esquema de trabalho, explicando que hoje faz o que mais ama: "Faço para a SIC as minhas reportagens sobre a portugalidade, que adoro. Gosto de andar pelo país a conhecer pessoas incríveis que me ensinam tanto. Tenho muita sorte, faço um trabalho em que conheço gente extraordinária. A minha vida hoje em televisão é falar com estas pessoas. Hoje vou, sou bem recebida, partilham connosco coisas extraordinárias e vou entrevistar pessoas com muita idade, mas que são verdadeiros mestres. Isto é tudo o que quero fazer e continuo a fazer televisão. Mas faço a televisão que a mim me faz sentido fazer agora".
ESTAVA FARTA, ATÉ À PONTA DOS CABELOS, DE MÁS NOTÍCIAS
E o que podemos continuar a esperar destas duas semanas de Fátima Lopes à frente do 'Casa Feliz' na SIC? Se puder dar o seu toque pessoal, muito mudará, como nos afirmou há pouco mais de um mês. "Quando saí do daytime diário senti que estava farta de ouvir tanta história negativa. Uma pessoa chega a um momento em que só há discurso depressivo, sempre para baixo, está tudo mal e toda a gente está mal. Não como isso. Não quero, fartei-me, não quero. Estou farta, pela ponta dos cabelos", rejeita, revelando a sua visão sobre esta realidade que denuncia: "Isso acontece porque as pessoas estão viciadas em más notícias e nós, comunicação social, continuamos a alimentar o vício. Nós somos aqueles que continuamos a alimentar o vício, a dar mais uma dose todos os dias. Um dia as pessoas vão perceber que se continuarem a comer informação que é veneno, isto as vai matar aos poucos. Porque é uma coisa que acaba por afetar psicologicamente as pessoas".
A apresentadora garante que, no seu dia a dia, não compactua com as más notícias, embora as veja sempre na SIC. "Acompanho as notícias às oito da noite quando estou a cozinhar e acompanho as notícias na SIC, de vez em quando faço zapping, por canais nacionais e internacionais, para saber o que está a acontecer no mundo. Depois, fora das notícias, alimento o meu conhecimento com muita coisa boa. Trato de me equilibrar", jura, facto que agora vai poder pôr em prática com um novo programa semanal na estação fundada por Francisco Pinto Balsemão: Dia 1 de agosto, estreou o programa 'Caminhos de Portugal', que terá emissão sempre aos sábados à tarde, numa viagem nacional à descoberta dos rostos que mantêm vivas as tradições, os ofícios e os saberes portugueses. Ou seja, conteúdos pela positiva, contando histórias de pessoas que fazem acontecer coisas boas.
"QUANDO NÃO ESTOU FELIZ MUDO", DIZ, FALANDO DE "ANGÚSTIA"
Fátima afirma que procura o equilíbrio para manter a sua cabeça à tona e a lucidez intacta. "Se tiveres uma pessoa que não está bem psicologicamente e tu lhe apresentares uma história de desgraça, achas que esta pessoa vai ficar melhor depois de mostrares isso? Não! Criou-se este hábito da desgraça, da desgraça. É mundial, então se todos lá fora se vão mandar da ponte eu vou-me mandar também?", questiona, mostrando que equilibrar não significa apagar a realidade: "Não é deixar de dar o que está a acontecer. Se há guerra no mundo e fome no mundo temos que mostrar. Não estou a dizer que devemos começar a fazer de conta que a nossa vida é toda linda e maravilhosa".
A comunicadora faz um apelo a quem manda na escolha das notícias. "Temos que equilibrar a balança. Neste momento temos 85% de coisas nos nossos noticiários em que tens vontade de cortar os pulsos e nos dois minutos finais lá te dão um coisinha positiva. Metem a ferida aberta a sangrar e no fim dão uma gaze para pôr por cima para não sangrar muito", denuncia, ao mesmo tempo que aceita explicar como foi a sua saída da televisão, num momento em que era uma das estrelas dos ecrãs: "Quando deixei o ecrã, ao início, custou imenso porque eu não tinha plano B. Quando saí da TVI não tinha plano B, não tinha nada. Angústia sim, mas senti que tinha que dar aquele passo. Olhando para a minha personalidade e para a pessoa que eu sou, quando não estou feliz mudo. E tenho muitas coisas que gostava de fazer,mas são quase todas fora da televisão"
E será que Fátima guarda mágoas da TVI? "Não. Sair é fácil, é só isso. Podes sair de uma empresa, mas deves-lhe respeito. Estive lá dez anos e fiz coisas de que gostei muito. Trabalhei com pessoas de quem gostei muito. Tenho uma enorme gratidão em relação à SIC, como tenho em relação à TVI. Não tenho malapata com ninguém, ninguém. Tive sempre o cuidado de quando saio de um projeto sair a bem com as pessoas, porque foi assim que a dona Amélia e o senhor Francisco me ensinaram. Com educação".