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Como Marcelo mudou tanto em dez anos! Tomou um banho de realidade e passou de Presidente pop a Chefe de Estado recatado no meio do seu povo

Tédio é uma das palavras que nunca será usada para descrever dez anos da presidência de Marcelo Rebelo de Sousa, que dia 9 de março passará a pasta ao aparentemente tranquilo novo eleito António José Seguro. Taticista, Marcelo foi um estratega em Belém, mesmo quando fez da estabilidade política uma bandeira. Criticou o Governo quando este geriu mal o drama dos fogos em 2017, obrigando mesmo António Costa a demitir a MAI da altura. Foi herói a salvar donzelas em perigo no mar, viveu muita proximidade ao povo e acabou vergado por dois duros anos de decisões difíceis e impopulares durante a pandemia da Covid-19. Aguentou demissões e quedas de governos e sofreu ao ver o seu nome envolvido num escândalo de favorecimento. Isso magoou-o pessoalmente e fragilizou-o então junto da opinião pública, das forças políticas e fê-lo cortar relações com o filho, Nuno.
Por João Bénard Garcia | 02 de março de 2026 às 21:03
Marcelo Rebelo de Sousa tira selfie com os jovens Flash
Marcelo Rebelo de Sousa vítima das 'selfies' Flash
Marcelo Rebelo de Sousa vítima das 'selfies' Flash
Marcelo Rebelo de Sousa vítima das 'selfies' Flash
Marcelo Rebelo de Sousa vítima das 'selfies' Flash

Eleito à primeira volta em janeiro de 2016, Marcelo Rebelo de Sousa, hoje com 77 anos de idade, sofreu uma mudança drástica na sua forma de fazer intervenção pública, e também política, ao longo destes últimos dez anos no Palácio de Belém. Do jovial Marcelo do início do primeiro mandato, que mantinha com o primeiro ministro António Costa, seu ex-aluno na Faculdade de Direito de Lisboa, um cordial relacionamento institucional, que garantiu estabilidade política; Marcelo passou a sofrer com o desgaste das duras decisões que teve de tomar, em consonância com o Governo, durante os mais de dois anos da pandemia de Covid-19. Em 2023, quando o país tinha finalmente uma maioria política estável para governar, eis que um escândalo alegadamente envolvendo o então primeiro ministro António Costa deita tudo a perder. Mas o pesadelo de Marcelo ainda não tinha terminado. A TVI tinha noticiado nesse ano que o Presidente teria tido intervenção num pedido do filho e que duas gémeas brasileiras com Atrofia Muscular Espinal teriam recebido a administração do fármaco mais caro do mundo, intervenção que custou dois milhões de euros ao erário público.

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Em 2023, na sua tradicional deslocação na véspera de Natal para tomar uma ginjinha no Barreiro, o Presidente Marcelo desabafou com jornalistas e com populares que o quiseram ouvir e reconheceu que "2023 foi uma tempestade perfeita". O Chefe de Estado aceitou fazer ali, na rua, um balanço lúcido de como se sentia angustiado com o ano que então findava. O ano que tudo apontava ser o da recuperação pós-Covid 19, que parecia ser de esperança e otimismo, começa por ser manchado por uma alega investigação da Procuradoria Geral da República (PGR) a supostos favorecimentos a negócios da parte de António Costa e seus colaboradores, embora nunca se tenha esclarecido se o António Costa referido era o original ou o então ministro da Economia, António Costa Silva, o titular direto da pasta que poderia favorecer o alegado negócio empresarial. A investigação seguiu o seu curso e Costa ex-ministro acabou por nunca ser acusado. Para afastar suspeitas e evitar que este escândalo atingisse a reputação do Governo maioritário, e em particular a pessoal do primeiro ministro, Costa demite-se em poucas horas e eclode uma crise política.

Marcelo Rebelo de Sousa na ginginha do Barreiro Foto: Flash

Marcelo convoca eleições antecipadas, que serão vencidas em 2024 pelo PSD de Luís Montenegro, e o país vira à direita do expecto político, com o Chega e a Iniciativa Liberal (IL) a também ganharem terreno no novo Parlamento. Entretanto, também em 2023, o alvo das suspeitas tinha sido o próprio Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, que se viu envolvido num escândalo que tem como interveniente o seu filho, Nuno, que lhe teria pedido um favor especial para tratamento médico em Portugal de Maitê e Lorena Martins, filhas gémeas de um casal brasileiro seu amigo.

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Foto: Ivo Rainho Pereira
Foto: Ivo Rainho Pereira
Foto: Ivo Rainho Pereira
Foto: Ivo Rainho Pereira
Foto: Ivo Rainho Pereira
Foto: Ivo Rainho Pereira
Foto: Ivo Rainho Pereira
Foto: Ivo Rainho Pereira
Foto: Ivo Rainho Pereira
Foto: Ivo Rainho Pereira

Dois pormenores da situação: as meninas brasileiras ganharam a nacionalidade portuguesa em tempo recorde e os medicamentos (Onasemnogeno abeparvoveque, vendido sob a marca Zolgensma) custaram dois milhões de euros ao orçamento do Estado português. O acesso ao tratamento gerou uma ampla controvérsia devido a alegações de tráfico de influência e favorecimento envolvendo membros do Governo e figuras influentes, nomeadamente a então ainda ministra da Saúde, Marta Temido e o seu secretário de Estado, António Lacerda Sales.

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PANDEMIA, DEMISSÕES E CASO DAS GÉMEAS

Em pleno segundo mandato, o Chefe de Estado viveu, com este escândalo, alguns dos piores dias da sua governação no Palácio de Belém. "Acho que os piores anos foram os de pandemia. Os dois anos de pandemia, o declarar por duas vezes o estado de emergência e renovar por mais duas vezes. Foi o problema mais difícil para decidir politicamente", reconheceu, assumindo como se sentiu incompreendido pela população desgastada com medidas proibitivas e limitadoras da sua liberdade: "Era um problema de consciência que as pessoas aceitaram muito bem no começo, mas depois começaram a ficar muito cansadas".

Nessa deslocação em 2023 à ginjinha do Barreiro, Marcelo aceitou falar sobre as suspeitas que sobre ele recaíam e não escondeu o que sentia, depois de ter feito conferências de imprensa desastrosas em que confundiu mais, comprometendo o seu papel, do que explicou os contornos deste caso. "Em 2023, cheguei aqui e só se falava das gémeas. Foi uma conferência de imprensa sobre as gémeas. Nesses mesmo dia, saía a entrevista de um antigo ministro do Governo e chegava o meu filho a Lisboa", evocou o Presidente da República, sendo questionado pelos jornalistas sobre se já tinha resolvido o diferendo com o filho, com quem afirmara ter cortado relações após o escândalo das gémeas: "No momento oportuno, isso acontecerá". Ainda não terá acontecido, segundo reafirmou recentemente.

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Dois anos mais tarde, Marcelo destacou, também em jeito de balanço, o facto de que teve de gerir "três dissoluções – a segunda foi uma iniciativa do primeiro-ministro, que quis ir a eleições e apresentou uma moção de confiança – e o facto é que a oposição não se absteve e também quis ir para eleições", mas descreveu-as como pacíficas, pouco traumatizantes até. "Na primeira, de facto, não havia acordo e na segunda também não. Mas apesar de três dissoluções Portugal foi dos poucos países da Europa que teve só dois primeiros- ministros durante dez anos", rematou, acrescentando que "os portugueses tiveram bom senso, ao votar, de encontrar soluções que significam isto: um primeiro-ministro que durou oito anos e tal e um primeiro-ministro que vai a caminho de dois anos para fazer uma legislatura. Isto é muito raro na Europa”, assinalou.

MUDANÇA RADICAL DA POSTURA PRESIDENCIAL

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Marcelo Rebelo de Sousa foi, ao longo de dez anos de dois mandatos, uma presença constante, uma proximidade rara e dedicação ao serviço público. Ele humanizou a Presidência e tornou-a acessível aos portugueses, ao tornar-se o "Presidente dos Afetos", sempre presente nos momentos mais duros da vida nacional, mas também nos festivos. Enfrentou alguns dos períodos mais complexos e exigentes da nossa história recente, tomou decisões difíceis, mas sempre procurou garantir o regular funcionamento das instituições e a preservação da estabilidade democrática.

Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República, algarve, netos, quinta do lago, gigi Foto: Nuno Alfarrobinha
Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República, algarve, netos, quinta do lago, gigi Foto: Nuno Alfarrobinha
Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República, algarve, netos, quinta do lago, gigi Foto: Nuno Alfarrobinha
Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República, algarve, netos, quinta do lago, gigi Foto: Nuno Alfarrobinha
Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República, algarve, netos, quinta do lago, gigi Foto: Nuno Alfarrobinha
Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República, algarve, netos, quinta do lago, gigi Foto: Nuno Alfarrobinha
Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República, algarve, netos, quinta do lago, gigi Foto: Nuno Alfarrobinha
Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República, algarve, netos, quinta do lago, gigi Foto: Nuno Alfarrobinha
Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República, algarve, netos, quinta do lago, gigi Foto: Nuno Alfarrobinha
Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República, algarve, netos, quinta do lago, gigi Foto: Nuno Alfarrobinha
Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República, algarve, netos, quinta do lago, gigi Foto: Nuno Alfarrobinha
Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República, algarve, netos, quinta do lago, gigi Foto: Nuno Alfarrobinha
Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República, algarve, netos, quinta do lago, gigi Foto: Nuno Alfarrobinha
Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República, algarve, netos, quinta do lago, gigi Foto: Nuno Alfarrobinha
Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República, algarve, netos, quinta do lago, gigi Foto: Nuno Alfarrobinha
Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República, algarve, netos, quinta do lago, gigi Foto: Nuno Alfarrobinha
Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República, algarve, netos, quinta do lago, gigi Foto: Nuno Alfarrobinha
Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República, algarve, netos, quinta do lago, gigi Foto: Nuno Alfarrobinha
Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República, algarve, netos, quinta do lago, gigi Foto: Nuno Alfarrobinha
Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República, algarve, netos, quinta do lago, gigi Foto: Nuno Alfarrobinha

Ele esteve presente, no meio do povo, em feiras, mercados, praias, aldeias perdidas ou bairros ostracizados. Sempre pronto a escutar, abraçar, beijar e conciliar pessoas. E claro, a tirar selfies, a sua imagem de marca, que sempre se voluntariava para tirar.

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Abandona o Palácio de Belém dez anos depois de ter imprimido um estilo muito pessoal, peculiar, em algumas circunstâncias até exótico, como Presidente da República. Marcelo deixa uma marca profunda, com um estilo vincado pela proximidade, com muitas reações espontâneas, muita "traquinice quase infantil", como dele afirmaram os amigos de longa data. Poucos portugueses haverá que se tenham cruzado com ele a quem não tenha agarrado no telemóvel e tirado uma fotografia para mais tarde recordar.

Marcelo teve uma intensa atividade política, deu mergulhos livres na praia e nadou mesmo para águas mais profundas, para desespero do seu corpo de segurança. Ficou igualmente famoso pelos seus cumprimentos efusivos, tendo sido o mais conhecido o que deu a Paddy Cosgrave, o organizador da 'Lisbon Summit', televisionado para todo o mundo. O "professor", como muitos portugueses ainda lhe continuaram a chamar, era visto, com a maior facilidade do mundo, em especial no seu primeiro mandato, de calção azul bebé a dar mergulhos na Praia do Ancão e do Gigi, na elitista Quinta do Lago, no Algarve, mas no segundo mandato, depois do drama da pandemia da Covid-19, mudou-se nas férias de verão para a popular praia de Monte Gordo, onde circulava no meio do povo e comia bolas de Berlim. Nas suas aventuras nas praias algarvias ficou inclusive famoso e viral o seu salvamento de duas donzelas em perigo dentro de água: Marcelo nadava quando avistou duas jovens aflitas, cuja canoa se tinha virado, e, prontamente, nadou rápido para as socorrer, um momento em que se tornou "um herói", principalmente com a ajuda das redes sociais.

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Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República, algarve, netos, quinta do lago, gigi Foto: Nuno Alfarrobinha

O ESTILO "TRAQUINA QUASE INFANTIL"

No seu estilo de "malandrice", descrito pelos seus amigos de longa data como sendo uma "traquinice quase infantil", Marcelo ficou conhecido por quebrar o protocolo. Em contraposição conseguiu oito anos de estabilidade política, algo só semelhante ao "reinado" do Presidente Mário Soares, em coabitação com o ex primeiro ministro Cavaco Silva. A convivência estreita com António Costa, quando este era Chefe do Governo, foi marcada por um apoio mútuo, embora pontuada por alguns puxões de orelhas, como aconteceu em 2017 com a hecatombe dos incêndios, em que foi o primeiro a ir para o terreno e criticou o Executivo de Costa, em especial a então ministra da Administração Interna, Constança Urbano de Sousa, pela forma como estava a gerir o estado de calamidade nas zonas afetadas. A ministra acabou demitida.

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Além do escândalo das gémeas, também as suas declarações extemporâneas sobre as ex-colónias portuguesas criaram grande embaraço ao Governo e geraram um coro de críticas da oposição, em especial do partido Chega. Em 2024, Marcelo sugeriu que Portugal deveria assumir a responsabilidade e pagar reparações pelos danos causados durante o período colonial. As declarações caíram mal em vários quadrantes políticos e deixou o Governo de cabelos em pé. O ano de 2025 ficou também marcado por novos confrontos políticos entre Marcelo e a esquerda mais radical e defensora da autodeterminação do povo de Faixa de Gaza, na Palestina. No recinto da Feira do Livro de Lisboa foi criticado pelas suas declarações contrárias a que Portugal declarasse como legítimo o Estado da Palestina e assumisse a defesa da autodeterminação deste povo, num momento sensível em que Israel bombardeava este território para forçar os terroristas a devolverem os reféns que tinham em sua posse.

Barbas, Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente, Costa de Caparica Foto: Flash
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Basicamente Marcelo passou de ser um Presidente irreverente no início do seu mandato para se transformar num político mais discreto e calmo. Evoluiu enquanto pessoa, embalado pelas adversidades que teve de enfrentar (em especial a crise da pandemia da Covid-19, que foi um momento duro para si, como foi para todos os portugueses), fazendo a sua quadratura do circulo, apagando mais as marcas da sua carismática personalidade e transferindo o enfoque para as pessoas: os que sofrem, os que celebram, os que conquistam.

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