O caminho para o inferno de Rute Cardoso. Das doces memórias às horas de incerteza, até à trágica confirmação da morte de Diogo Jota
Há um ano, Rute vivia a sequência de acontecimentos mais trágica da sua vida: do casamento, o dia com que sempre sonhou, a despedida de Diogo, as horas de incerteza sem saber o que tinha acontecido, até à trágica confirmação da morte do seu grande amor. No dia 3 de julho, assinala-se um ano desde a partida do jogador."Para onde nos leva o futuro, talvez haja aí um ou outro senhor que possam saber melhor do que eu. Mas a realidade é que não sei, nem me interessa, desde que seja contigo. Amo-te, para sempre, minha branquinha." Ouvir esta mensagem de Diogo Jota aos dias de hoje, um ano depois de ter trocado alianças com a mãe dos filhos, Rute Cardoso, não deixa de ser arrepiante, principalmente porque na altura em que vivia um dos dias mais especiais da sua vida, o casal não sabia, ignorava, que o relógio tinha começado a sua trágica contagem decrescente. 11 dias depois da cerimónia, em que celebraram o amor ao lado da família e amigos, o futebolista do Liverpool perderia a vida, de forma trágica, ao lado do irmão, André Silva, num acidente de automóvel.
Para Rute e para os pais, inicia-se agora uma descida aos infernos nas memórias trágicas que os acompanharão para sempre e que os levaram de um extremo ao outro em pouco mais de uma semana.
O casamento tinha sido o dia com que sempre sonharam. Juntos desde a adolescência, Diogo Jota e Rute tinham ido adiando o momento: ora porque davam as boas-vindas a mais um filho, ora porque havia mais uma viagem para fazer naquele verão, e que eles tanto gostavam. Porém, de 2025 disseram que não passava, com o momento a ser muito mais do que haviam sonhado. Depois, não seguiram para nenhuma lua-de-mel paradisíaca. Continuaram pelo norte do país a desfrutar da vida que tanto gostavam: simples, entre amigos, sem os muitos luxos que o dinheiro do futebol podia comprar mas eles sempre dispensaram.
"Nós éramos um casal de chatos, basicamente, porque não fumávamos, não bebíamos, não tomávamos café, não gostávamos de sair à noite, o que gostávamos mesmo era de estar em casa, às vezes o Diogo a jogar Playstation, porque ele tinha uma paixão tremenda pelos e-sports, ver filmes, sei lá, na televisão, na Netflix, ter amigos em casa para jogar jogos de tabuleiro, isso é que nos dava prazer", recordou Rute em conversa com José Manuel Delgado, que escreveu o livro 'Diogo Jota, Nunca Mais é Muito Tempo'.
É nesta obra que constam, para já, as primeiras e únicas palavras de Rute sobre a tragédia, nas memórias mais duras que se esforça por não recordar. Depois de se despedir do marido, continuou normalmente a sua vida, até começar a sentir um nervoso miudinho quando, a cada nova mensagem que enviava a Jota, não obtinha resposta. Rute começou a entrar em pânico e deu, então, início a demandas, ligando para o hospital, hotel onde os irmãos eram suposto ter feito check in e, por fim, à polícia espanhola através de um tio, a quem pediu ajuda.
"Ouvi o meu tio dizer: 'Sim, são dois irmãos'. Era a certeza, forte e dura de que algo havia acontecido. De repente, o meu tio pediu-me que lhe passasse o Nuno, o meu cunhado. Ouvi o meu tio dizer-lhe: 'Os corpos estão a ser levados'. Acho que ele acrescentou 'para a morgue', mas a minha cabeça parou ali. 'Corpos?'"
A confirmação chegaria pouco tempo depois, tendo sido comunicada por um polícia espanhol, que leu a declaração formalmente. "Declaro o óbito de Diogo José Teixeira da Silva, nascido em 4 de dezembro de 1996".
A DOR SEM FIM DOS PAIS DE DIOGO E ANDRÉ
O mundo do futebol e o País pararam em julho de 2025 perante uma das notícias mais terríveis: as mortes de Diogo Jota, aos 28 anos de idade, e do seu irmão, André Silva, com apenas 25, num acidente de viação em Espanha, quando viajavam para Inglaterra ao volante de um potente Lamborghini. Agora, meses depois da tragédia, o pai dos jogadores, Joaquim Silva, abre o coração sobre o "pesadelo" que está a viver desde então, revelando detalhes arrepiantes da última vez que viu os filhos com vida.
No último encontro, a família reuniu-se em Valongo para um jantar na casa da cunhada de Diogo Jota. Entre brincadeiras com os netos e a despedida habitual, nada fazia prever o que o destino reservava. “Vimos o carro, estivemos a brincar com os miúdos… Depois, despedimo-nos deles, e seguiram viagem”, recordou o pai dos atletas, no livro de José Manuel Delgado.
Foi já em casa, enquanto descansava, que Joaquim recebeu a chamada que nenhum pai quer atender. Rute Cardoso, viúva de Diogo Jota, ligou em pânico: “Venham para aqui, por favor”. O mau pressentimento foi imediato. A viagem até ao local do acidente foi descrita por Joaquim como "horrível", mas o pior estava para vir. Ao saber que o rebentamento de um pneu em Cernadilha tinha provocado o despiste seguido de incêndio que vitimou os dois filhos, o chão desapareceu. “A pior coisa de sempre. A pior coisa possível. Não sei, até hoje, como consegui aguentar”, desabafou.
O relato de Joaquim Silva traça o retrato de uma família destroçada por um acidente classificado como "estúpido" e trágico. "Não foi só um, foram os dois. Foi o momento mais horrível da minha vida."
Já a mãe, Isabel Silva, conta que sentiu que algo poderia não estar bem, depois de ter enviado uma mensagem ao filho mais novo, já perto da meia noite, à qual nunca obteve resposta. "Enviei uma mensagem ao André a perguntar como estava a correr a viagem. Ele não me respondeu, eram 23h23. Liguei a televisão e adormeci, mas não completamente; havia ali algo que ficou à espera da resposta que não veio. (...) Foi então que o Quim Zé se acercou de mim, colocou-me as mãos nos ombros e disse: ‘Foram os dois’. Nem sequer sabia que o carro se tinha incendiado. Quando o Quim Zé me contou que estavam, cada um, num saco, respondi-lhe que não ia."
A DOR QUE NUNCA IRÁ SARAR
Para toda a família, tem sido de uma dureza extrema retomar as rotinas e uma vida sem Diogo. Para os pais fica o vazio de terem perdido os dois filhos, o golpe da vida que dificilmente se pode superar, para Rute, a saudade, tristeza e as duras respostas às perguntas dos filhos. O foco é e serão sempre as crianças, a par de uma renovada necessidade de viver por si e também pelo seu grande amor.
O desporto tem sido, aliás, um escape para a viúva do atleta que se foca numa paixão comum para aprender a viver sem aquele que julgava certo para a vida.