Podemos comparar o Caso Epstein ao nosso escândalo Ballet Rose? Moita Flores, o autor da escandalosa série de TV, explica tudo
Poder, podemos. Mas será que faz sentido? Tal como na história do perverso Jeffrey Epstein havia nos anos de 1960 sexo pedófilo em Portugal. Havia angariação de crianças em meios desfavorecidos. Havia poderosos, políticos, empresários e sacerdotes a abusar de crianças com 9 a 12 anos. Havia exercício de poder e tráfico de influências. O autor do guião da série portuguesa da RTP, que mesmo em 1998 escandalizou alguns puritanos e incomodou intervenientes e familiares sobrevivos, arrasa também Donald Trump e fala na escala das duas realidades e garante que em Portugal não houve cenas de canibalismoEpstein é o caso mais escandaloso deste século e ainda a procissão vai no adro. O Caso Epstein envolve as mais altas esferas do poder mundial, envolve tráfico de menores, abusos sexuais, rede de influências, negócios obscuros e até rituais satânicos que envolvem canibalismo com vísceras de crianças. Poderíamos descrever isto de uma forma mais romanceada, com palavras mais amenas, mas o que o gestor de fortunas Jeffrey Epstein e a namorada, a cúmplice Ghislaine Maxwell, fizeram não tem outra forma de ser narrado. A comentadora da CNN Helena Ferro de Gouveia comparou este caso ao famoso escândalo português Ballet Rose, que nos idos de 1960 envolveu ministros do governo de António Oliveira Salazar, empresários e proxenetas e acabou por ser abafado com a condenação em tribunal de três figuras menores da rede de prostituição que alimentava uma teia de influências.
Mas será que o nosso Caso Ballet Rose pode mesmo ser comparado com o Caso Epstein? Para esclarecer, a The Mag, by FLASH! falou com Francisco Moita Flores, ex-inspetor da Polícia Judiciária (PJ), escritor, argumentista e autor do guião da série televisiva que em 1998, realizada por Leonel Vieira, deu escândalo nos écrans da nossa televisão, pelas cenas mais ousadas e por mexer nos esqueletos do sótão de muita gente então ainda viva, e de familiares diretos. "Estes dois fenómenos têm analogias. O Ballet Rose foi uma coisa muito pequenina comparado com a grandeza disto. Este caso Epstein não é só um escândalo dos Estados Unidos da América (EUA), envolve muitos países. É de uma grandeza tal que não é possível associar ao Ballet Rose", reconhece Moita Flores.
Para o antigo inspetor da PJ, os princípios e os ingredientes existem em ambos os casos, nisso são similares: "A exploração de menores, a prostituição, o tráfico de influencias é comum, mas o Caso Epstein é de um grau de grandeza cem vezes maior", sublinha, acrescentando que "a angariação de crianças pobres é só uma parte do problema. O verdadeiro problema destes gajos é que é uma verdadeira forma de controlo de Poder. O Poder é que está aqui em causa. Quando a comunicação social põe em relevo os abusos sexuais escondem o que é o cerne desta organização. Isto é uma organização de Poder, que se considera acima do próprio Poder, das próprias leis e que trata as crianças como objetos de brincar. As crianças são objetos de brincar deles. Eles não veem isso como crime. Eles querem 'posse e mando', e dizem: 'ninguém me toca'", destacando a sua surpresa por ainda haver movimentações nas investigações depois de "terem passado uns 15 anos sobre a descoberta dos factos".
Moita Flores denuncia ainda aquilo a que chama "o Poder dominante nos EUA, corrupto, sexualizado, escondido por detrás daquilo que são as câmaras de televisão e o espetáculo político". E explica achar que em nada do que se tem visto e sabido neste Caso Epstein seja resultado de "chantagem". "Não acho que seja chantagem. Acho que tudo aquilo é feito de mútuo acordo e todos eles têm aquelas perversões sexuais. Encobrem-se uns aos outros para controlar o Poder. O exemplo mais claro é o Donald Trump, que chegou a Presidente dos EUA. Ele é um amoral, um indivíduo sem princípios, e faz parte desta organização informal, de gente corrupta e sem princípios, onde o tráfico e a exploração sexual de crianças é apenas uma das facetas dos objetivos destes indivíduos. São basicamente jogos de Poder", remata.
E A COMPARAÇÃO COM O BALLET ROSE JUSTIFICA-SE?
Deixando bem claro haver "nenhuma ligação entre o processo Casa Pia e o Caso Epstein" Francisco Moita Flores aceita estabelecer uma ténue ligação ao modus operandi do Caso Ballet Rose. "Em comparação com o Caso Epstein, o Caso Ballet Rose é uma coisinha, é quase um caso de aldeia", garante, destacando a similaridade dos princípios que estão na base destes tipos de crimes: "Há milhares de crianças abandonadas pelos pais, que não têm pais. Vivem em instituições de solidariedade. Milhares de crianças em Portugal, nos EUA devem ser milhões, há lá muita pobreza, é mais fácil chegar às crianças."
"O Caso Ballet Rose era gerido por três ou quatro putas que angariavam essas crianças em meios pobres. Havia no circuito políticos e pessoas com Poder económico. Não havia rituais de canibalismo, nem coisas macabras. Era prostituição pura e simples. Exploração sexual pura e simples", resume.
Reforçando a ideia de que não faz sentido comparar a dimensão do Caso Epstein ao escândalo sexual português que em 1967 levou à barra do tribunal várias proxenetas e alguns clientes que teriam usado, abusado e colocado no mercado meninas com idades entre os 9 e os 12 anos que satisfaziam os prazeres pedófilos de políticos, de sacerdotes e de homens de família muito tementes a Deus na Igreja, mas depois muitos perversos nos prostíbulos, Moita Flores mostra-se mais espantado é com a detenção do Príncipe André de Inglaterra no dia 19 de fevereiro. "Comecei a acompanhar a detenção dele e estou espantado. Ele sendo príncipe podia ter as mulheres que quisesse. Ele fez isto pelo Poder e pela orgia do Poder, da organização do poder entre eles nesta organização informal", conclui. Ao final do dia, depois da conversa com o nosso ex-inspetor da PJ, o antigo membro da Casa Real britânica foi libertado, após 12 horas de detenção para interrogatório.
O ESCÂNDALO QUE AINDA VAI NA PONTA DO ICEBERG
O caso Jeffrey Epstein é um dos maiores escândalos de tráfico sexual e abuso de menores da história mundial, podendo mesmo afirmar-se que será o primeiro grande escândalo deste século. Envolve uma vasta rede de influências que alcançou as esferas mais altas do poder global e não apenas do governo norte-americano. Jeffrey Epstein, que se terá suicidado na prisão em 2019, foi um gestor de fortunas milionário que construiu uma vasta rede de contatos entre a elite política, empresarial e também a realeza europeia. Começou como professor de matemática, antes de enriquecer no mercado financeiro, mas em 2008 foi apanhado pelas autoridades judiciais. Condenado pela primeira vez por crimes sexuais na Flórida, obteve um acordo judicial controverso que lhe permitiu cumprir apenas 13 meses de pena com saídas diárias. Em julho de 2019 foi detido novamente em Nova Iorque sob novas acusações federais de tráfico sexual. Um mês depois, em agosto de 2019, foi encontrado morto na cela. Embora a causa oficial tenha sido declarada como suicídio por enforcamento, as circunstâncias (como câmaras avariadas e guardas a dormir) alimentam teorias da conspiração até hoje.
A única testemunha e cúmplice de todos os crimes é a namorada de Jeffrey Epstein, Ghislaine Maxwell que foi presa em 2020 e dois anos depois condenada a 20 anos de prisão efetiva por ajudar o predador sexual na angariação das jovens para a rede de prostituição do milionário.
O Caso Epstein ganhou projeção em 2026 com a divulgação massiva de documentos pelo Departamento de Justiça dos EUA entre janeiro e fevereiro. Em menos de mês e meio, foram divulgados publicamente seis milhões de páginas, incluindo 180.000 fotos e 2.000 vídeos relacionados com as investigações. O ex-príncipe André foi recentemente detido para interrogatório e destituído dos seus títulos reais devido à sua ligação com Epstein e por suspeita de vazar relatórios confidenciais. Em todo o mundo, poderosos, de políticos a banqueiros e empresários, estão a tombar como castelos de cartas após verem os seus nomes expostos nestes ficheiros. Nomes como os de Donald Trump, Bill Clinton, Michael Jackson, Stephen Hawking e Bill Gates são mencionados como associados a esta associação criminosa à escala mundial.