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Caso Epstein: o modus operandi dos "banquetes de sexo e fetiches" com raparigas jovens com a conivência da elite norte-americana

Neste caso, são os milhares e milhares de ficheiros do caso Epstein que dão voz à narrativa do que se passou, durante anos, na recôndita mansão do milionário nas Ilhas Virgens. Organizavam-se verdadeiros banquetes de sexo com raparigas jovens, que estavam expostas às mais variadas humilhações. Por 300 dólares, exigia-se-lhes que "falassem sujo", satisfizessem os fetiches mais escabrosos e fossem o adereço principal de sumptuosos jantares em que se debatiam negócios à mesa e se juntavam alguns dos homens mais poderosos do mundo, que participaram e validaram a barbárie. No entanto, entre as zonas cinzentas da lei, todos dizem o mesmo: estiveram lá, sim, mas não viram nem fizeram nada de errado...
Rute Lourenço
Rute Lourenço
18 de fevereiro de 2026 às 20:16
Foto de Jeffrey Epstein surge em investigação sobre abusos
Foto de Jeffrey Epstein surge em investigação sobre abusos

Pode demorar uma vida até que se consiga analisar a fundo tudo o que consta dos Esptein Files. Até porque estamos a falar de milhares e milhares de fotografias, vídeos, emails a perder de vista, e muitas das vezes sem um contexto adicional, o que dificulta a sua leitura ou interpretação isenta. Pode ainda não se perceber ao certo qual a dimensão da rede de tráfico sexual criada pelo magnata  Jeffrey Epstein - que em 2019, alegadamente, pôs fim à vida na cadeia - mas uma coisa fica cada vez mais clara: a entourage do milionário era composta por uma determinada elite norte-americana (essencialmente, mas não só) que - embora o negue - é acusada de ser conivente com o crime, de validar práticas bárbaras e de banalizar o abuso para com mulheres jovens, muitas delas menores de idade, e quase todas elas numa posição de vulnerabilidade, oriundas de um determinado contexto socio-económico, que as deixava mais desprotegidas.

Ao todo, serão mais de 1000 as vítimas de Jeffrey Epstein que, progressivamente, começou a valer-se do seu estatuto de todo-poderoso para dar palco a festas na sua mansão das ilhas Virgens em que o sexo e a promiscuidade pareciam ter free pass, num ambiente de total impunidade em que tudo estava validado. O modus operandi é agora conhecido: uma rede de angariadoras - da qual se especula que a supermodelo Naomi Campbell faria parte - partia em busca de raparigas jovens, bonitas, sem doenças sexualmente transmissíveis (muitas delas eram sujeitas a exames) que, a troco de 300 dólares, eram convidadas para massagens que rapidamente se apercebiam ser de cariz sexual. Entre as que, horrorizadas, não voltavam e aquelas que precisavam daquele dinheiro para se sustentarem, passou a haver uma frequência certa na mansão de Epstein, em que todos sabiam o que acontecia, mas cujo silêncio era de ouro. No entanto, o burburinho crescia e a fama daquelas festas crescia no boca a boca entre uma determinada elite, sem que nunca ninguém tenha feito nada para as travar

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Aprovada a divulgação dos ficheiros Epstein. E agora? Perceba a explicação pelo jornalista da AP Michael Sisak

Em 2012, por exemplo, os ficheiros dão conta de um email de Elon Musk, o dono da Tesla, para Epstein em que o questionava:  “Qual será o dia/noite da festa mais animada da sua ilha?”, perguntou, não sendo claro se alguma vez o magnata marcou presença num desses eventos.

sobre Bill Clinton, Mick Jagger, Michael Jackson ou o príncipe André, por exemplo, não há dúvidas sobre a sua presença na ilha isolada, que parecia reger-se por uma conduta própria, e que o facto de se localizar numa zona recôndita do globo os fazia sentirem-se impunes e a salvo das leis.

Cada visita, cada evento era pensado ao detalhe pela equipa de Epstein para que os convidados se sentissem verdadeiros reis. Viajavam de jato privado, tinham motorista à disposição e à chegada eram recebidos com tratamentos de spa e outras mordomias. Já no interior da mansão, havia faustosos jantares, em que os homens se sentavam à mesa a debater assuntos importantes da sociedade ou a trocar piadas, enquanto as mulheres assumiam uma função meramente decorativa: circulavam, sorriam e sabiam exatamente as funções que tinham de desempenhar. A essas raparigas pedia-se, muitas vezes, serviços de sexo como quem acena por um café, mas também que seguissem um guião: “Quero que fale o mais sujo, vulgar e imaginativo que puder… Isso vai libertar a sua mente. É como um espirro mental”, pode ler-se num email, enquanto num outro um convidado que marcou presença numa festa escreve: “Obrigado por uma noite divertida… a sua menina foi um pouco traquina."

Nos emails que Epstein trocava com a sua assistente, havia também pedidos de contactos com modelos da Victoria's Secret e ainda reparos sobre dentes que tinham de ser tratados, peso a perder ou, por vezes, críticas à contratação das raparigas. "A ucraniana e a moldava chegaram. Grande deceção a moldava não é tão atraente quanto na foto. Photoshop", sugere um dos amigos de Epstein que, a dada ocasião, recebeu as raparigas que iam estar na festa. O tom era, frequentemente, de gozo ou desdém para com essas mulheres, ao contrário daquele que era dirigido aos convidados, com Jeffrey a dar ordens claras sobre as preferência de ilustres, e de como era suposto servir sauvignon blanc, pinot grigio e rosé. "Nada de chardonnay, por favor!"

Ao contrário das mais de cinco mil referências a Trump nos ficheiros, a palavra vagina surge apenas perto de 500 vezes, no entanto, isso é porque as outras milhares de referências tratavam-se de diferentes nomes usados para retratar o mesmo, com as conversas sobre as mulheres a serem, sobretudo, superficiais, jocosas, apenas como um apêndice essencial à festa, porém, sem conteúdo aparente. "A vagina é, de facto, baixa em carboidratos. Ainda aguardando resultados sobre o teor de glúten, no entanto", escreveu num email um médico canadiano especialista em longevidade, num comentário aplaudido por Epstein e a sua trupe que, a páginas tantas, são descritos como parecidos a um bando de miúdos do secundário sedentos de miúdas e sexo. Só que neste caso, pareciam saber exatamente o que estavam a fazer e de que forma o estavam a colocar em prática.

No entanto, há uma coisa que os ficheiros agora revelados parecem deixar claro. Epstein rodeou-se de uma elite que, ao ser convivente e interveniente, acabava por aumentar o escudo de proteção em relação ao magnata, mas faltaram-lhe sempre contactos entre os meandros judiciais e nomes influentes ligados aos tribunais e polícia, pelo que a sua impunidade acabaria por ter os dias contados. Aos poucos, as mulheres lesadas foram soltando as amarras, antigos funcionários começaram a admitir, timidamente, o horror que lá se vivia, mas Epstein já cá não está para assumir as culpas, a sua antiga Ghislaine Maxwell, condenada a 20 anos de prisão, alega a quinta emenda para não falar e os todos-poderosos assobiam para o lado, revelando que aquela fotografia em que foram apanhados na festa foi caso isolado, e que não viram nada de errado, que era uma normal festa de alta-sociedade, porque enquanto há espaço para a dúvida quase todas as vidas continuam iguais, na sua bolha de privilégio, exceto aquelas que foram irremediavelmente danificadas.

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