Quem o via no passado a defender acerrimamente o Benfica ou a falar de questões jurídicas na televisão dificilmente conseguiria imaginar que, um dia, André Ventura se tornaria numa das figuras políticas mais polémicas do País. As investidas ao universo foram sido feitas quase com pés de lã, primeiro quando admitiu que tencionava candidatar-se à Câmara de Sintra, pelo PSD, e depois quando o fez, efetivamente, para a autarquia de Loures, em 2017, tendo sido eleito vereador. Mas o grande volte face aconteceria em 2019, data em que fundou o Chega. Passaram-se sete anos, ao longo dos quais Ventura se foi afirmando como figura política a que não se fica indiferente: amado por uns, odiado por tantos outros, segue para a corrida a Belém, suscitando reações exacerbadas do eleitorado.
Filho de um "pai de direita e de uma mãe de esquerda", André Ventura nasceu em Algueirão, Mem Martins, e até aos 14 anos levaria uma vida igual a tantos jovens da sua idade, não fosse a decisão de ingressar no seminário. Não era batizado, nem tinha sido criado numa família extremamente católica, mas conta que despertou para a religião, que o fez ponderar dedicar toda a sua vida à fé. Acabaria, no entanto, por desistir do desejo de ser padre, movido por outros amores mais terrenos, aos quais se revelava incapaz de resistir. Apaixonava-se, então, por uma rapariga, com quem acabaria por namorar já na Faculdade de Direito. Depois disso, teria outras paixões até conhecer a atual companheira, Dina, fisioterapeuta de crianças, com quem acabaria por se casar, em 2016, e que tem estado a seu lado em todas as decisões, mesmo que estas tenham impacto direto na sua vida.
As reações exacerbadas de Venturas e posições muitas vezes extremistas levam a uma onda de ódio que obrigam o líder do Chega, de 42 anos, a andar diariamente com pelo menos dois guarda-costas, sendo que dos primeiros tempos em que se fazia acompanhar por Dina para todo o lado, acabaria por fazer o caminho inverso para a proteger da exposição pública. Hoje, a fisioterapeuta apenas aparece em momentos-chave – como acontece agora, a aparecer ao lado do marido nesta segunda semana de campanha eleitoral para a corrida a Belém –, com a carreira política de Ventura a impactar também a decisão de o casal ter ou não filhos. "Ainda não desisti de ter filhos, gostava de ter. Mas vivo sempre com segurança, tenho sempre limitação nas deslocações que faço. Foi uma vida que eu escolhi, mas isso também me leva a pensar nas condições em que estou hoje, se tenho condições para dar aos meus filhos uma vida de segurança, que é o mínimo que eu lhes poderia querer dar e nós hoje temos de ter cuidados de segurança que eu não tinha há dez anos", explicou em conversa com Diana Chaves e João Baião no programa 'Casa Feliz', da SIC, acrescentando que ainda não desistiu totalmente desse desejo.
No entanto, André Ventura não esconde que a sua grande prioridade e devoção é a carreira, que muitas vezes o leva a lugares de que não se orgulha. Obstinado, coloca sempre o dever em primeiro lugar e hoje arrepende-se, por exemplo, de ter falhado momentos como o funeral de uma das pessoas mais importantes da sua vida. "Tem-me afetado muito a dimensão pessoal e familiar e há coisas que me levam a pensar... Os meus dois avós maternos faleceram no ano passado e isso fez-me pensar muito na questão familiar. A minha avó esteve num lar e eu não a consegui visitar tantas vezes quanto gostaria, e senti-me culpado. Quando ela faleceu eu estava em campanha autárquica... Nos dois casos, eu não consegui ir ao funeral porque tinha responsabilidades políticas, e eu não consegui estar no funeral de duas pessoas que foram pilares na minha vida. O que me leva a pensar: 'Vale a pena construir família se não conseguimos estar ao lado da nossa?", disse, em lágrimas, em conversa com Manuel Luís Goucha, sendo acusado de, de alguma forma, as fingir.
Não seria, claro, a primeira vez que tal acusação recairia sobre si. Na memória de todos está o momento em que, nos últimos dias da campanha para as Legislativas, André Ventura levou a mão ao peito e desmaiou no púlpito, caindo inanimado no chão, em Tavira. O episódio acabaria por se repetir dias mais tarde, com o político a ser sujeito a uma bateria de exames. No primeiro internamento, acabaria por ter alta no dia seguinte, tendo sido descartados problemas cardíacos, com os exames de diagnóstico ao coração a revelarem-se normais, tudo apontando para um "espasmo esofágico" – que ocorre devido à "passagem do conteúdo gástrico pelo esófago". No entanto, depois do segundo susto com a saúde, André Ventura seria transportado para o Hospital de Setúbal onde seria sujeito a um cateterismo cardíaco, um procedimento que permite avaliar qual o estado das principais artérias do coração e, se for caso disso, desentupi-las. Confirmando-se que tudo estava bem, houve quem acusasse o líder do Chega de ter feito um "golpe de teatro" na reta final da campanha para granjear simpatia, algo que o deixou indignado.
AS SUPERSTIÇÕES, OS INIMIGOS E OS PUXÕES DE ORELHAS DOS PAIS
Quando, no próximo dia 18, se proceder à contagem dos votos para as Presidenciais, o líder do Chega admite que, provavelmente, estará na igreja. É tão religioso quanto supersticioso, razão pela qual, a par do terço da sorte, que não lhe sai da carteira, segue milimetricamente os mesmos passos quando algo corre bem. "A partir das 16h de domingo deixo de atender telefonemas, por volta das 19h vou à missa e quando saem os resultados normalmente estou dentro da igreja. Não escolho fato, não escolho restaurante, não preparo nada, quase por superstição", já disse aquele que, por ter extremado as suas posições, foi somando inimigos, muitos deles famosos.
Ricardo Araújo Pereira, por exemplo, recusa-se a recebê-lo no seu programa e de todas as vezes que o líder do Chega foi ao 'Dois às 10', da TVI, Cláudio Ramos estava de folga. No entanto, quando o acusam de levar as suas posições ao limite porque é o que 'as pessoas' querem ouvir, face aos seus problemas, ele desvaloriza, explicando que em casa também é assim, algo que os próprios pais confirmam, uma vez que dificilmente partilham das suas posições políticas, dando-lhe até alguns puxões de orelhas. "A minha mãe diz-me sempre que eu devo ter um tom mais moderado, que sou demasiado crítico, demasiado exaltado." Não se pode, no entanto, dizer que Ventura lhe tenha dado ouvidos...