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Dez anos de Marcelo: Foi "rei das selfies", campeão dos passou-bem frenéticos, deu 'colinho' a António Costa e foi traído pelo escândalo das gémeas

Tédio é uma das palavras que nunca será usada para descrever o irrequieto Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, que dia 9 de março passará a pasta ao aparentemente tranquilo António José Seguro. Taticista, Marcelo foi um estratega em Belém, mesmo quando fez da estabilidade política uma alegada bandeira. Deu um puxão de orelhas ao Governo quando geriu mal o drama dos fogos, em 2017, obrigando mesmo António Costa a demitir a MAI da altura. Viveu muita proximidade ao povo e acabou vergado por um escândalo que o magoou muito: cortou relações com o filho, Nuno, que envolveu o pai num caso que manchou a sua reputação e notoriedade.
João Bénard Garcia
João Bénard Garcia
26 de fevereiro de 2026 às 21:05
O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, termina o mandato a 9 de março do próximo ano, o dia agendado para a tomada de posse do seu sucessor
O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, termina o mandato a 9 de março do próximo ano, o dia agendado para a tomada de posse do seu sucessor

Abandona o Palácio de Belém dez anos depois de ter imprimido um estilo muito pessoal, peculiar, em algumas circunstâncias até exótico, como Presidente da República. Marcelo Rebelo de Sousa, 77 anos, deixa uma marca profunda, com um estilo vincado pela proximidade, com o epíteto de ser o "Presidente dos afetos", com muitas reações espontâneas, muita traquinice e por ser o inigualável "rei das selfies", que sempre se voluntariava para tirar. Poucos portugueses haverá que se tenham cruzado com ele a quem não tenha agarrado no telemóvel e tirado uma fotografia para mais tarde recordar.

Marcelo teve uma intensa atividade política, deu mergulhos livres na praia e nadou mesmo para águas mais profundas, para desespero do seu corpo de segurança. Ficou igualmente famoso pelos seus cumprimentos efusivos: abanou braços de papas (O Sumo Pontífice Francisco registou bem na memória e sem vontade de sorrir os esticões que Marcelo lhe deu antes da visita ao Santuário de Fátima em 2017), mas também de reis, presidentes e de muitos jovens com o seu cumprimento truculento. Mas nada bate o violento sacão que deu a Paddy Cosgrave, o organizador da 'Lisbon Summit', televisionado para todo o mundo, e a quem quase ia arrancando um braço e por uma unha negra não o fez tombar ao chão do palco, com muitas risadas de fundo da plateia.

Foi logo desde o início do seu mandato que Marcelo se popularizou com as selfies, tirando milhares de fotografias com cidadãos em visitas por todo o País. Depois de Aníbal Cavaco Silva, o Presidente distante do povo, o "professor", como muitos portugueses lhe continuavam a chamar, era visto, com a maior facilidade do mundo, de calção azul bebé a dar mergulhos na Praia do Ancão e do Gigi, na Quinta do Lago, e anos mais tarde na de Monte Gordo, todas no Algarve. Ficou inclusive famoso e viral o seu salvamento de duas donzelas em perigo dentro de água: Marcelo nadava quando avistou duas jovens aflitas, cuja canoa se tinha virado, e, prontamente, nadou rápido para as socorrer, um momento em que se tornou um "herói", principalmente nas redes sociais.

O ESTILO: "TRAQUINA QUASE INFANTIL"

No seu estilo de "malandrice", descrito pelos seus amigos de longa data como sendo uma "traquinice quase infantil", Marcelo ficou conhecido por quebrar o protocolo. Em contraposição conseguiu oito anos de estabilidade política, algo só semelhante ao "reinado" do Presidente Mário Soares, em coabitação com o ex-primeiro ministro Cavaco Silva. A convivência estreita com António Costa, quando este era chefe do Governo, foi marcada por um apoio mútuo, embora pontuada por alguns puxões de orelhas, como aconteceu em 2017 com a hecatombe dos incêndios, em que foi o primeiro a ir para o terreno e criticou o executivo pela forma como estava a gerir o estado de calamidade nas zonas afetadas.

O Chefe de Estado - que o comentador Vítor Matos classificou como "carnívoro" no balanço que fez no programa 'Fontes Bem Informadas' na CNN Portugal, em contraposição a um comentário do próprio Marcelo enquanto era comentador na TVI, em que disse que Cavaco Silva era "um Presidente herbívoro" -, não passou por Belém livrando-se de pequenos escândalos pessoais, empolados graças à sua enorme exposição mediática. 

O CASO DAS GÉMEAS ACABOU COM A "PRIMAVERA MARCELISTA"

A grande machadada na sua reputação, e que encerrou o seu período de nova e fresca "Primavera Marcelista", acabou por ser um escândalo que o afetou diretamente e que envolveu o seu filho Nuno da Mota Veiga Rebelo de Sousa e as suas relações no Brasil. O episódio levou mesmo ao corte de relações entre pai e filho. Até hoje. Esse momento mais crítico ocorreu no seu segundo mandato e envolveu suspeitas de favorecimento no tratamento médico de duas crianças brasileiras em Portugal que receberam, em tempo recorde, dupla nacionalidade para serem tratadas no hospital de Santa Maria, com recurso a um medicamento que custou dois milhões de euros. Foi um caso que o próprio Presidente já elegeu como sendo um dos "mais complicados" da sua presidência.

Além da bronca das gémeas, também as suas declarações extemporâneas sobre as ex-colónias portuguesas criaram grande embaraço ao Governo e geraram um coro de críticas da oposição, em especial do partido Chega. Em 2024, Marcelo sugeriu que Portugal deveria assumir a responsabilidade e pagar reparações pelos danos causados durante o período colonial. As declarações caíram mal em vários quadrantes políticos e deixou o Governo de cabelos em pé. O ano de 2025 ficou também marcado por novos confrontos políticos entre Marcelo e a esquerda mais radical e defensora da autodeterminação do povo de Faixa de Gaza, na Palestina. No recinto da Feira do Livro de Lisboa foi criticado pelas suas declarações contrárias a que Portugal declarasse como legítimo o Estado da Palestina e assumisse a defesa da autodeterminação deste povo, num momento sensível em que Israel bombardeava este território para forçar os terroristas do Hamas a devolverem os reféns israelitas que tinham em sua posse.

CONTRABALANÇO DE PODERES, NEM SEMPRE FÁCIL

Conhecido por dormir quatro a cinco horas por noite, e viver num eterno frenesim, os seus mandatos ficaram também marcados por soltar comentários espontâneos, fazer algumas piadas de "humor negro" sobre bombas em reuniões de autarcas e no reparo que fez ao decote pronunciado de uma cidadã, facto que gerou imensas críticas de vários partidos políticos. O novo senhor de Belém tinha deixado um aviso à navegação ainda antes de subir a rampa do palácio. Num discurso antes da campanha para o escrutínio que o elegeu, Marcelo, ao falar sobre os poderes presidenciais, avisou ao que vinha: "Se houver uma maioria absoluta de um partido ou coligação e com um líder forte, o Presidente tende a apagar-se. Se for uma maioria absoluta com uma coligação instável, o Presidente tem mais peso. Se houver uma maioria relativa, o Presidente ganha ainda maior relevo. Se houver crise nos partidos, cisões e instabilidade no Parlamento, o Presidente pode chegar a ter um poder particularmente decisivo, embora sempre no respeito da Constituição. Conta muito o estilo do Presidente", alertou.

Marcelo aceitou a 'Geringonça' que Cavaco Silva lhe tinha deixado, com PS a ser apoiado pela esquerda e extrema-esquerda e defendeu o discurso de que “cabemos todos em democracia”, onde não há inimigos, contrastando em tudo com a postura de Cavaco Silva e com a do PSD. A esquerda ficou descansada, mas não reparou nas letras pequenas daquele contrato eleitoral que Marcelo tinha anunciado meses antes num encontro na Voz do Operário, em Lisboa. O Governo PS acabou por se aguentar quatro anos, a Geringonça não foi renovada e quando António Costa arrisca governar com minoria, sem o apoio formal da esquerda, a estabilidade política cai por terra numa votação orçamental e o País vai de novo a votos, dois anos depois. O terceiro mandato de Costa, já com maioria, é assolado por escândalos sucessivos a manchar a reputação governativa, culminando no "célebre parágrafo", a nota de imprensa da Procuradoria-Geral da República (PGR) de 7 de novembro de 2023, onde se mencionava que o nome de António Costa surgia em investigações (Operação Influencer), levando à sua demissão, para além das suspeitas sobre o chefe de gabinete do próprio primeiro-ministro, empurrando Marcelo para nova convocação de eleições, ganhas, desta vez, de novo em minoria, mas desta vez pelo PSD/CDS.

POPULISMO DE MARCELO CONTRA TATICISMO DE COSTA

O estilo de Marcelo acabou por contar muito nas contas político-partidárias. Ele foi um estratega no jogo do xadrez político, mas usou sempre a seu favor a fama de ser o homem dos afetos, com muitos abraços e beijinhos, mas de forma real e percepcionada pelas pessoas. E isso deu-lhe muito poder e margem de manobra. Onde o Governo era frio e calculista, Marcelo era caloroso e empático com quem sofria. Perante um Governo minoritário, o povo mantém as costas quentes ao Presidente, o que lhe dá autoridade para meter o Governo na linha nos momentos mais difíceis, como aconteceu em 2017 quando Marcelo encostou António Costa às grades e o "forçou" a demitir Constança Urbano de Sousa, a então ministra da Administração Interna, que bombeiros e populações em geral acusaram de ser a responsável pela falta de resposta eficaz aos incêndios que vitimaram 116 pessoas em Pedrógão Grande e em Oliveira do Hospital.

Quando Marcelo deu o maior puxão de orelhas que um Governo poderia receber de um Chefe de Estado ao dizer em público: "Chocado ficou o País com a tragédia vivida", estava a pôr em prática a sua postura católica pós conciliar, missionária no mundo, sobretudo para com os mais fracos, mostrando uma aparente afetividade racional, com o intuito de ganhar popularidade. É que nunca nos podemos esquecer que Marcelo, nos seus tempos de estudante na Faculdade de Direito de Lisboa, foi um dos jovens mais ativos no apoio às populações que tinham sofrido com as mortíferas cheias de 1967, contrariando a desvalorização do ditador Oliveira Salazar, e que por isso ficou chocado com a fria reação de António Costa aos 116 mortos dos fogos de 2017. E muitos comentadores afirmaram então que o Presidente teria exatamente a mesma postura se o Governo fosse da sua família política.

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