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Eunice Munõz e Rogério Samora nos papéis de avó "adorada" e de pai "encorajador" em 'Amadeo', o último filme da atriz e o penúltimo do ator

Aos 93 anos, Eunice Muñoz chegou ao plateau como se fosse fazer o seu primeiro filme e Rogério Samora gravou uma das mais emocionantes cenas de 'Amadeo'. O realizador Vicente Alves do Ó conta à The Mag como foi trabalhar com dois dos maiores atores portugueses no final das suas carreiras.
Miguel Azevedo
Miguel Azevedo
Eunice Muñoz, Rafael Morais, Rogério Samora, Amadeo
Eunice Muñoz, Rafael Morais, Rogério Samora, Amadeo Foto: D.R.

É com uma dedicatória a Eunice Munõz e a Rogério Samora que começa o novo filme do realizador Vicente Alves do Ó, 'Amadeo', sobre o pintor português Amadeo de Souza-Cardozo. Já em exibição nas salas portuguesas, este foi o último filme feito pela atriz que morreu a 15 de abril de 2022, aos 93 anos, e o penúltimo no qual participou o ator, que partiu prematuramente, de forma trágica, a 15 de dezembro de 2021, aos 62 anos.

Na história, Eunice desempenha o papel de avó "adorada" por quem Amadeo "tinha uma devoção total e absoluta", enquanto Rogério Samora veste o papel de pai "encorajador" do artista. Amadeo, "o homem que pintou o futuro", também ele partiu, curiosamente, de forma prematura, vítima de gripe espanhola, aos 30 anos, a 25 de outubro de 1918.

Eunice Muñoz, Vicente Alves do Ó, Amadeo
Eunice Muñoz, Vicente Alves do Ó, Amadeo Foto: D.R.

"Vicente nunca te esqueças deste dia. Quando estiveres em baixo ou pensares em desistir, lembra-te da Eunice neste dia (...)"

      

O realizador Vicente Alves do Ó guardará "para sempre", a experiência de se ter cruzado com Eunice e Rogério. "Foi uma lição de vida trabalhar com eles. Quando privamos com os verdadeiramente grandes aprendemos muito, nomeadamente a nunca perder a humildade perante a arte e o respeito perante o trabalho dos outros". Sobre Eunice Munõz, em particular, recorda a primeira vez que a atriz surgiu para gravar. "Quando chegou ao plateau, parecia que vinha fazer o seu primeiro filme. Estava feliz da vida porque ia fazer cinema, porque já estava com saudades. Eu com 50 anos e ela com 93, eu só dizia para mim: "Vicente nunca te esqueças deste dia. Quando estiveres em baixo ou pensares em desistir, lembra-te da Eunice neste dia, desta pessoa que já fez tudo o que havia para fazer e que está aqui como se fosse a primeira vez. Foi um prémio que eu recebi", confidencia à The Mag. "É importante nunca esquecer a capacidade de espanto e eu nunca me hei-de esquecer do seu olhar de espanto, da graciosidade, do nervosismo e da sua delicadeza".

Eunice Muñoz, Rafael Morais, Amadeo
Eunice Muñoz, Rafael Morais, Amadeo Foto: D.R.

"Confesso que quando me informaram do que tinha acontecido fiquei emocionalmente muito mal. Trabalhar com o Rogério foi mesmo muito bonito"

Já sobre Rogério Samora, Vicente Alves do Ó lembra um momento em particular. "Ele filmou connosco nos últimos dias e há uma das cenas na carpintaria, uma conversa entre pai e filho que nos emocionou muito a todos que estávamos presentes, porque era sobre a paternidade. E sei que aquilo tocou muito o Rogério. Eu que não fui pai, por exemplo, gostava muito de ter vivido aquele momento", diz o realizador que, como todos, foi apanhado de surpresa com a morte de Rogério Samora. "O que aconteceu com ele foi uma tragédia que ninguém estava à espera. Confesso que quando me informaram do que tinha acontecido fiquei emocionalmente muito mal. Trabalhar com o Rogério foi mesmo muito bonito". 

 

Rogério Samora, Manuela Couto, Amadeo
Rogério Samora, Manuela Couto, Amadeo Foto: D.R.

Filmado por Lisboa, Sintra, Óbidos, Comporta, Caldas da Rainha e Costa Oeste, com um orçamento de cerca de "um milhão de euros", revela o realizador, 'Amadeo' contou com uma vasta equipa de 26 atores, entre os quais está também Rafael Morais que dá vida ao pintor português. O filme deparou-se com os constrangimentos impostos pelo fraco orçamento ("gostava muito, por exemplo, de ter ido filmar a Paris, mas como não foi possível tivemos de o fazer com efeitos digitais", conta), mas ainda ainda assim vai à minúcia de ter recriado a famosa exposição que Amadeo fez em 1916 no Salão de festas do Jardim Passos Manuel, onde hoje é o Coliseu do Porto. "Foi todo reproduzido em decor e todos os 114 quadros foram minuciosamente reproduzidos, pintados e emoldurados. "Para aquilo que é um filme português, isto é um passo em frente", diz. 

 

O que é que o levou a interessar-se pela história do Amadeo de Souza-Cardozo?

O que me despertou o interesse, mais do que a obra que eu já conhecia, foi mesmo a vida dele. Em novembro de 2016 estava no Porto e estava a passar à frente do Museu Soares dos Reis e vi que estava patente uma exposição sobre o Amadeo a propósito do centenário da grande exposição que ele fez em 1916 que é retratada no filme. Eu entrei, visitei e vi umas citações das suas cartas e da única entrevista que se conhece que eram frases que comunicavam muito comigo. 

Amadeo, filme
Amadeo, filme Foto: D.R.

Como assim?

Foram frases que me espantaram pela sua audácia, coragem e diferença. Quando saí de lá, fui a correr comprar a fotobiografia e a partir daí foi nascendo a ideia. Comprei a biografia, fui atrás de historiadores e comecei a trabalhar no guião e no argumento para cinema. Não tinha cabimento contar a vida toda dele, mas tinha cabimento contar aqueles que eram momentos chave da sua histórias que nos aproximam do homem, do pintor e do seu destino que foi tão trágico aos 30 anos.

Durante quanto tempo andou em pesquisa para este projeto?

Comecei logo em novembro de 2016 e as filmagens começaram em novembro de 2019, portanto três anos. Durante esse espaço de tempo, o guião teve quase vinte versões, experimentei todas as possibilidades, trabalhei com duas historiadoras que foram acompanhando a escrita do argumento, contactei a família e tive a oportunidade, através da Gulbenkian, de visitar o espólio pessoal do Amadeo. Visitei a casa, o atelier e foram de facto três anos muito intensos, até chegar a um argumento que eu sentia que dizia exatamente aquilo que eu queria.

"O grande Portugal, só se apercebe do Amadeo a partir do momento em que a sua viúva vende o acervo à Gulbenkian e que faz uma grande exposição em 2006 que atrai quase 200 mil pessoas."

E o que é que queria?

Queria mostrar um homem corajoso, destemido e que vai à procura de uma vida diferente, da sua vocação e vai explorar o seu talento. Acho que ele é um exemplo tremendo para as novas gerações. Eu tinha que contar a história desta maneira. Ele fez uma coisa impensável. Depois da tal exposição de 1916, ele enfrenta o Portugal conservador do século XIX, moralista que olha para aquela exposição e não sabe lidar com aquilo. No filme, vou também até 1911, a uma noite primordial em que o Amadeo junta a elite parisiense na sua casa e conjuntamente com Modigliani [artista plástico italiano] mostra os seus primeiros trabalhos e se assume e se define como pintor. Finalmente, foco-me também no ano de 1918, o ano da morte, porque eu precisava de resgatar a razão pela qual este homem desaparece da história universal da arte moderna.

Rafael Morais, Amadeo
Rafael Morais, Amadeo Foto: D.R.

E Portugal só toma conhecimento dele bem mais tarde!

Sim, o País, o grande Portugal, só se apercebe do Amadeo a partir do momento em que a sua viúva vende o acervo à Gulbenkian e que faz uma grande exposição em 2006 que atrai quase 200 mil pessoas. Mas este filme é só o início porque ainda há muita coisa para fazer à volta do artista que precisamos de pôr outra vez no mundo.

O que descobriu sobre o Amadeo que mais o surpreendeu?

Descobri que ele tinha uma curiosidade e uma fome de mundo  tremenda. Ele nunca estava contente com um quadro, ele chamava-lhe "quadritos", porque achava que podia fazer melhor. Era um artista sempre em construção, que se interroga continuamente e que é muito curioso. Nunca teve medo de arriscar. Primeiro Paris, depois provavelmente Nova Iorque e eu acredito que ele ia acabar no cinema. E há uma coisa que eu aprendi com ele: a menorizar a crítica e menorizar aquilo que nos pode ferir e abater.  

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