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Letizia, a rainha de gelo que não quebra. Das polémicas amorosas às guerras familiares, como ela resiste firme no trono

Rainha espanhola celebra 54 anos, numa altura em que tenta deixar para trás os anos mais tensos, que ficaram marcados pela polémica da suposta infidelidade com o antigo cunhado Jaime del Burgo. Entre o diz que diz sobre o casamento, a relação tensa com a família do marido e o controlo permanente face a tudo o que a rodeia, Letizia não verga e mantém-se firme perante o imenso escrutínio.
Rute Lourenço
Letizia
Letizia Foto: Getty Images

Letizia Ortiz assinala esta terça-feira, dia 15 de setembro, 54 anos, o que, contas feitas, faz com que uma boa parte da sua vida (mais de 20 anos) tenha sido passada como membro da família real espanhola, por oposição à pebleia com quem, corria o ano de 2003, Felipe anunciava que iria casar. O burburinho foi imediato e deixava adivinhar os anos de escrutínio constante que a monarca teria pela frente.

Jornalista no canal televisivo TVE, sem 'sangue azul' a correr-lhe nas veias, muitos diziam que Letizia não ia aguentar a pressão. O primeiro casamento, civil, com um professor de literatura uma década mais velho, durara apenas um ano (ainda que o namoro tenha sido mais longo) e, para os súbditos espanhóis soava a mau agoiro. Seria a rainha a mulher certa para dar o nó com o herdeiro ao trono espanhol? Não haverá uma resposta certa, mas a verdade é que o casamento dos atuais reis de Espanha juntará o melhor (e o pior) de dois mundos e rapidamente se perceberia que não seria apenas um conto de fadas, típico da realeza, acartaria também muitos dos problemas mundanos. Contra todas as polémicas, o casamento de Felipe e Letizia, tem resistido, no entanto, a tudo e, para muitos, se não ruiu com as acusações de infidelidade de Jaime del Burgo dificilmente algum dia irá chegar ao fim.

AS ACUSAÇÕES DE INFIDELIDADE

Foi, sem dúvida, um dos períodos mais críticos para os reis de Espanha. Em 2023, no livro 'Letizia e Yo', da autoria do especialista em Casas Reais Jaime Peñafiel, uma revelação ameaçava destruir o casamento dos monarcas. O antigo cunhado de Letizia, Jaime del Burgo - que foi casado com a irmã da rainha Telma, entre 2012 e 2016 - vinha a público afirmar que havia mantido um caso amoroso com a cunhada, que se prolongou no tempo.

Telma Ortiz e Jaime del Burgo
Telma Ortiz e Jaime del Burgo Foto: D.R.

A cronologia apresentada por Del Burgo dividia a história em quatro períodos: uma relação amorosa entre 2002 e 2004, uma fase de amizade e confidências entre 2004 e 2010, uma nova relação amorosa entre 2010 e 2011 e, depois disso, o período em que se tornam cunhados, entre 2012 e 2016. Ora o problema reside precisamente no terceiro período, uma vez que coincidiu com uma altura em que Letizia já estava casada com Felipe.

Letizia, Jaime del Burgo
Letizia, Jaime del Burgo

Segundo o cunhado, nesse período chegaram a fazer planos para uma vida a dois. De acordo com o próprio, imaginaram que formariam um casal longe de Espanha, quem sabe em Nova Iorque, e que teria um filho com recurso a uma gestação de substituição.

Desafiado a provar que o caso não passava de um diz que diz, foi mais longe e partilharia uma fotografia da rainha com uma pashmina que, segundo ele, lhe pertencia. No entanto, a verdade é que o assunto nunca ficaria esclarecido, uma vez que da parte da Coroa o assunto foi tratado com o mais profundo silêncio, ainda que os efeitos fossem devastadores.

Letizia com a famosa pashmina
D.R.
Letizia com a famosa pashmina

O casamento passou a estar debaixo de um escrutínio cada vez maior, notícias davam conta de um divórcio iminente, especulações descreviam o enlace como apenas de fachada, aventava-se que só um acordo assinado nos bastidores segurava a relação, que cada um poderia ter, em privado, a sua vida, mas a verdade é que os reis se mantêm juntos contra todas as previsões de rutura.

A RELAÇÃO DIFÍCIL COM SOFIA E JUAN CARLOS

As acusações de infidelidade foram, sem dúvida, as que se tornariam na maior polémica da vida de Letizia, mas não se pode dizer que tenham sido uma espécie de filhas únicas, uma vez que as controvérsias parecem inerentes ao percurso da rainha, que em 2018 deixou o mundo de olhos postos num vídeo de apenas 15 segundos, mas que abria um mundo de possibilidades.

Aconteceu à saída da missa da Páscoa, em Palma de Maiorca. Numa altura em que a rainha emérita Sofia se preparava para ser fotografada com as netas, Leonor e Sofia, pode ver-se Letizia a aproximar-se e a colocar-se diante destas, o que  pareceu impedir o enquadramento fotográfico. Em determinado momento, Letizia colocou a mão sobre a da sogra, enquanto Leonor se afastava do braço da avó. Felipe VI aproximou-se depois das duas mulheres.

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Escândalo: Letizia e rainha Sofia trocam 'mimos' em público

A interpretação dominante na imprensa foi a de que existia uma relação difícil entre sogra e nora. O próprio 'El Pais' descreveu o episódio como revelador de uma relação deteriorada entre as duas, numa tensão familiar crescente que mais recentemente seria confirmada por Juan Carlos.

Letizia tenta afastar a sogra das netas
Letizia tenta afastar a sogra das netas Foto: D.R.

O assunto foi pela primeira vez clarificado pelo próprio monarca, de 87 anos, com a publicação das suas memórias de vida, reunidas no livro 'Reconciliação'. Com uma saúde cada vez mais débil e longe de casa - uma vez que o rei vive o seu exílio nos Emirados Árabes - a obra soa a ajuste de contas com o passado e também a uma vontade de não deixar pontas soltas, mas sim, tudo esclarecido.

Sobre a nora, Juan Carlos admite que sempre teve um ascendente forte na vida de Felipe e que as mudanças começaram logo no início da relação, com este a afastar-se "não só dos pais e das próprias irmãs" como também de alguns amigos de infância. No entanto, admite que, apesar de se ter apercebido disso desde muito cedo, nunca tentou interferir nas escolhas do filho. “[Felipe] tinha trinta e quatro anos e sabia o que queria. Assim como com as minhas filhas, que se casaram com os homens que amavam. Nunca tentei influenciá-las ou fazer de cupido. E se tentei, foi em vão”, pode ler-se no livro.

Livro expõe tensões entre Juan Carlos e Letizia, afetando relação com Leonor e Sofia
Livro expõe tensões entre Juan Carlos e Letizia, afetando relação com Leonor e Sofia

Apesar das divergências, Juan Carlos tinha esperança que, com o passar dos anos, pudesse haver uma maior harmonia na família, algo que, admite, nunca aconteceu, com o mal-estar a ser artificialmente dissipado em compromissos públicos em prol da imagem de harmonia. "O sucesso deles enquanto casal era uma garantia para o futuro da Coroa."

A maior dor, afirma Juan Carlos, prende-se com o facto de a má relação com Letizia ter interferido na convivência com as netas, Sofia e Leonor, que o rei emérito afiança que, apesar de afetuosa, nunca foi cúmplice, à semelhança do que acontece com os seus outros netos.  “Elas são muito elegantes e afetuosas, mas entristecia-me não poder estabelecer um relacionamento mais pessoal com elas, contar histórias, partilhar refeições em restaurantes, viajar com elas, levá-las a assistir a jogos, como fazia com os meus outros netos."

Letizia, Sofia e Leonor
Letizia, Sofia e Leonor

No livro, Juan Carlos elogia a forma como o filho e a nora educaram as filhas, mas diz que sempre lhes faltou esse contacto próximo com a família, algo que não era apenas dirigido a si, mas também à mulher, a rainha Sofia. "A minha mulher nunca pôde recebê-las sozinha em Palma, como costuma fazer com todos os seus primos. Ela via as netas ocasionalmente, mas adoraria tê-las visto com mais frequência, especialmente porque moram a apenas cem metros de distância. Queria transmitir-lhes a nossa genealogia, história e valores familiares. E alguns conselhos de uma ex-rainha com um histórico impecável para uma futura rainha", disse, acusando Letizia de não se esforçar por contrariar a sua natureza e tentar criar pontes entre a família. “Sempre fui um lobo solitário (foi assim que fui criado), mas cumpri o meu papel de homem de família de coração: reunia os meus filhos com a avó para o almoço de domingo, as minhas irmãs e as suas famílias para o Natal, e sempre estive disponível para meus primos, sobrinhos e sobrinhas, e meus muitos afilhados.”

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Afirmações que vão de encontro àquilo que a especialista em realeza espanhola Pilar Eyre já tinha relatado num dos seus livros em que, a páginas tantas, é descrita uma confissão polémica que Juan Carlos I teria feito a um amigo de infância. "Na minha família, ninguém gosta da Letizia. As princesas não a suportam. Ela dividiu-nos a todos, monopolizou o príncipe e até o afastou da mãe! A minha casa é um caos!"

A RAINHA DE GELO: A MONARCA COM MÃO FIRME, QUE CONTROLA TUDO

Outra crítica recorrente a Letizia diz respeito à necessidade de controlar tudo o que envolve a sua imagem. A imprensa espanhola descreve-a frequentemente como perfecionista, exigente e muito cuidadosa com a aparência, os gestos, a alimentação e a educação das filhas. Uma análise de linguagem corporal publicada pelo El Español chegou a descrever a sua postura pública como extremamente controlada e estudada. 

Ranha Letizia
Getty Images
Ranha Letizia

Já a chamaram até de rainha de gelo não só pela sua postura pública mas, alegadamente, pela forma como trata os funcionários do Palácio de Zarzuela, onde a sua mão de ferro será conhecida.

No entanto, como em todas as histórias, há sempre um outro lado e muitos afirmam que Letizia controla acima de tudo para proteger as filhas, para evitar que sofram com o escrutínio que lhes sabe destinado e que esta é também a única forma de sobreviver a um meio que lhe é muitas vezes hostil e no qual precisa de estar permanentemente atenta a todos os detalhes, que são, potencialmente, uma armadilha.

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