Luís Marques Mendes abre as portas de casa à FLASH!, mostra-se em família e desvenda segredos de vida: "É difícil alguma coisa irritar-me"
É um avô babado, que se diz cheio de energia e continua a adorar praia e bodyboard. Em Vilamoura, onde passa os verões com a família, o candidato à Presidência da República, que se tornou popular como comentador de política na SIC, recebeu a FLASH! e deixou-se fotografar na intimidade. Falou de tudo sem tabus e diz ao que vai se for eleito. Esta é a primeira entrevista aos vários candidatos à Presidência. Marques Mendes, na primeira pessoa.
Luís Marques Mendes na casa de Vilamoura com a mulher Sofia
Tinha 28 anos quando recusou, por três vezes,
o convite de Aníbal Cavaco Silva para fazer parte integrante do Governo. Essas
recusas foram um ato de coragem ou de desprendimento?
Acho que não foi nem uma coisa nem outra. Acho
que foi uma coisa natural. Eu, aos 28 anos, tinha uma vida estável, fora da
política. Vivia no Norte, fazia advocacia, ainda não tinha filhos. A mudança
para Lisboa era uma mudança radical. Tinha que mudar do Norte para o Sul, tinha
que deixar a advocacia e dedicar-me à política. E, portanto, tudo isso era um
problema sério na minha vida pessoal. Era uma mudança forte e
era, sobretudo, um desafio difícil na vida profissional. E por isso é que eu
recusei, de facto, o convite uma vez, recusei segunda vez e acabei por aceitar
à terceira. O mérito é mais do professor Cavaco Silva, porque eu nunca imaginei
que uma pessoa como eu, ele insistisse duas vezes para que eu fosse para o
Governo. E, portanto, era, não diria uma aventura, mas era um desafio cheio de
riscos.
Alguma vez se arrependeu?
Eu não estou arrependido daquilo que fiz. Foi uma decisão difícil,
não é uma questão de coragem nem de desprendimento, era uma questão apenas
ligada à minha vida pessoal e profissional. Toda a gente sabe que eu já na
altura gostava de política, toda a gente sabe que eu gostava de ter feito uma
vida de advogado mais intensa e com mais anos, mas as oportunidades aproveitam-se e esta oportunidade não sei se alguma vez voltaria a repetir. Aproveitei a oportunidade porque me foi concedida a terceira hipótese
de repensar e foi uma mudança radical de vida. Nunca mais nada foi igual, mas
não me arrependo.
Acabou por ficar 10 anos no governo com o
professor Cavaco Silva.
A primeira experiência foram 10 anos.
Foi aí que percebeu que a política ia fazer
parte da sua vida sempre?
Sim, quer dizer, foi de facto uma mudança
radical de vida. Eu diria que tenho, até aos 28 anos, uma vida com alguma
intervenção política, mas é apenas alguma, pontual, esporádica. A partir dos
meus 28, foram 22 anos consecutivos de política nacional, dos 28 aos 50 anos. A política ficou entranhada dentro de mim e foi uma carreira
longa, porque foram 22 anos consecutivos só de política nacional, seja no
Governo, seja no Parlamento, como líder parlamentar, como líder partidário.
Se pudesse viajar no tempo, teria feito alguma
coisa diferente nessa época?
Provavelmente não. Não mudaria nada de substancial. Podia mudar
coisas pontualmente, mas não mudava nada de substancial porque eu não me
arrependo de nada de estrutural que tenha feito. Eu não me arrependo de ter ido
para o Governo com 28 anos. Eu não me arrependo de, aos 38, já na oposição, ser
líder parlamentar – foi talvez o cargo que eu mais gostei de desempenhar –, eu
não me arrependo de, depois, por volta dos 45, 46 anos, ser líder partidário. Eu
nem me arrependo sequer de, aos 50 anos, ter feito uma nova mudança de vida e
ter deixado a vida política.
Mas o dr. Luís Marques Mendes também já
assumiu que a sua imagem dessa época poderia ter passado de uma outra forma.
Sim, isso admito que sim. A minha imagem
pública, por exemplo, quando saí do Governo, aos 38 anos, no fim do
'Cavaquismo', poderia estar um pouco degradada. Reconheço que sim.
Isso é o desgaste normal de quem está num
cargo público?
É o desgaste normal de 10 anos de Governo. E
reconheço, naturalmente, que provavelmente a imagem não estava muito em alta.
Mas também não culpo ninguém por isso. Culpa minha e das circunstâncias. Mas
depois as coisas mudaram e isto leva-me sempre à seguinte conclusão: a vida
pública tem altos e baixos. A vida em geral tem altos e baixos e a vida pública, provavelmente, é um reflexo
da vida real. E, portanto, nem sempre em casa, nem sempre fora de casa, nem
sempre em alta, nem sempre em baixa. Acho que o importante não é tanto
trabalhar para essa componente da popularidade, o importante é
trabalhar na base da convicção e da credibilidade. Esta é a parte em que eu me
mantive, digamos assim, mais ou menos coerente ao longo do tempo, fazendo
apenas as coisas em que verdadeiramente acreditava. Isto é um bocadinho de
convicção.
OS 'VÍCIOS' E A DISTÂNCIA DA FAMÍLIA
Dessa altura, para além do sabor dos cigarros,
fica também o amargo de não ter acompanhado a família como gostaria? Uma
família que estava a iniciar nessa fase.
Os cigarros foram um vício que me acompanhou
durante anos, mas já deixei de fumar há 15 anos...
Ainda mantém o charuto?
Isso sim, mas é uma componente já só quase
social. O resto, fumar, fumar, deixei há 15 anos. Agora, sim, nos primeiros 10
anos de Governo tenho pena de não ter acompanhado os meus filhos mais tempo.
Fui acompanhando, evidentemente, mas devia ter acompanhado mais. Mas a vida
governativa é muito intensa. E aqueles 10 anos foram de uma intensidade brutal
e, por isso, uma pessoa, quando está com um desafio entre mãos muito sério,
como ser governante, acaba por desvalorizar, dar menos atenção a outras funções.
Foi aquilo que aconteceu comigo. Tive a sorte que a minha mulher me substituiu
na perfeição. Em vários momentos fez de mãe e fez de pai. E eu estou agora, com
os netos, a compensar aquilo que não fiz com os filhos.
E os seus filhos acabaram por
"perdoá-lo"?
Acho que nem sequer houve necessidade de
perdão. Viram tudo isso como natural. A mãe preencheu o espaço vazio que, em
muitos momentos, havia do pai e, portanto, acho que eles nem sequer se
aperceberam. É qualquer coisa que não chegou propriamente a fazer história.
E como foi depois recuperar essas ausências
com a família?
O período mais difícil foi entre os 28 e os 38
anos. Os três primeiros Governos em que participei. A partir daí, a situação digamos que normalizou-se.
E será que também é um pouco o trauma
desse tempo para que nenhum dos seus filhos tenha decidido por uma carreira
política?
Nenhum deles se decidiu por carreira política,
embora todos eles gostem de uma boa conversa de política. Eles gostam de saber,
de acompanhar, gostam mesmo da especulação política. Portanto, eles têm um
bichinho da política.
E algum deles ainda vai chegar lá?
Não. Mas o bichinho da política deles é mais,
digamos assim, intelectual, cultural, de curiosidade. Não é o bichinho da
carreira política. E, portanto, nenhum deles fez nenhuma carreira política, nem
vai fazer carreira política.
O seu bichinho da política veio precisamente
do seu pai?
É, o meu bichinho veio em grande medida do meu
pai, sim. O meu pai já fazia política antes do 25 de Abril [de 1974]. Quando se
deu o 25 de Abril, em casa já se falava um bom bocado de política, por causa
da atividade do meu pai. E, portanto, eu acho que o meu gosto pela política vem
em grande medida do meu pai. Os meus filhos não seguiram carreira política
nenhuma, embora gostem de uma boa discussão política. Eu acho que em grande
medida porque ficaram vacinados. No caso deles acho que se aplica mesmo esta
ideia do efeito 'vacina'. E vacinados porquê? Porque habituaram-se a ver o pai na
televisão. E habituaram-se a ver o pai a ser criticado. Isto na política é
normal. Qualquer pessoa que anda na política acha isto completamente normal e
natural. Para os meus filhos, na altura, isto fazia-lhes um pouco de impressão.
Eu julgo que este efeito 'vacina' contribuiu muito para que eles virassem as
costas a qualquer ideia de carreira política. Mas eles estão muito bem nas suas
vidas.
E, para si, enquanto ator político, é fácil
lidar com essas críticas?
Quer dizer, não, fácil não é. Mas quem anda na
vida política tem que estar preparado para isso. Quem não estiver preparado
para ser criticado, o melhor é não entrar na vida política. A vida política
exige uma grande resistência; resistência física, resistência psicológica,
resistência a críticas, a comentários, a especulações. Umas são mais justas,
outras menos injustas, mas é um pouco a lei da vida. Tenho a sorte, ao longo da
minha vida, em que já estive longos períodos dentro da política, sobretudo 22 anos
de política nacional consecutiva, entre os meus 28 e os meus 50 anos. Mas, dos
meus 50 anos até agora, aos meus 67, já são 17 anos fora da vida política, ou
seja, sem cargos políticos. E devo dizer que não me arrependo de ter estado
na vida política, como não me arrependo de ter saído da vida política. Sempre
de bem com a vida, numa situação ou noutra, sobretudo porque eu sou uma pessoa
muito otimista, com espírito positivo, que vejo as coisas sempre muito mais
pelo lado da confiança do que pelo lado da dificuldade.
Não se leva demasiado a sério, é isso?
Não, isso é um desastre. Uma pessoa levar-se
muito a sério? Não, não. Primeiro, eu nunca me levo muito a sério.
Segundo, nunca dou muita importância aos cargos, porque os cargos são
efémeros. Eles desaparecem com uma facilidade olímpica e, portanto, o melhor é
não os levar muito a sério. Nem nunca me deixo deslumbrar por qualquer tipo de
poder, seja poder político, poder mediático. A melhor atitude, sempre, é uma atitude de humildade e de respeito. É aquilo que eu recomendo sempre
a toda a gente e é, modéstia à parte, aquilo que eu fiz ao longo da vida. Não
vale a pena uma pessoa deixar que o poder lhe suba à cabeça, porque isso é o
primeiro passo para um trambolhão monumental e é um exercício de arrogância, o
que é uma coisa péssima.
Marcelo Rebelo de Sousa e Marques Mendes em 2004, no lançamento de uma biografia sobre Cavaco Silva
A CANDIDATURA À PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA
E, depois de 17 anos de vida
"tranquila", o que o leva a voltar à vida política como candidato à
Presidência?
Foi uma reflexão longa que eu fiz, de um ano e
meio. Tive momentos ao longo desta reflexão em que me inclinava para uma
candidatura e outros momentos em que recusava a ideia de uma candidatura.
Acabei por decidir avançar por uma única razão: a ideia, modéstia à parte, de
que, fruto da grande experiência e conhecimento que adquiri ao longo da vida,
possa ser útil ao País. A minha ideia é a seguinte: o Mundo está no estado em
que está, a Europa também não está bem, Portugal está profundamente dividido e
polarizado, e, neste contexto de grande incerteza nacional e internacional,
acho que a experiência política conta. Se vivêssemos um momento normal, as
coisas até poderiam ser diferentes, mas nós vivemos um momento de enorme
incerteza, em que qualquer falha pode ser um perigo. Ora, a experiência ajuda a
ter traquejo, ajuda a ter conhecimento, ajuda a ter maior preparação. Ora, essa
parte acho que ninguém discute...
Isso é uma 'farpa' ao candidato almirante Henrique Gouveia e Melo?
Não, não é uma crítica a ninguém, é uma
constatação apenas. Mesmo as pessoas que não concordam comigo, ou que não
gostam da minha maneira de ser, ou dos meus pensamentos – o que é normal, é
legítimo –, mesmo essas pessoas reconhecem que eu sou uma pessoa experiente. Ora,
eu acho que a experiência conta, porque a experiência gera segurança e gera
confiança. Isto é um pouco como uma pessoa que tem que fazer uma cirurgia
delicada. Num momento da verdade vai querer o médico mais experiente que possa
ter à sua disposição. Aqui é a mesma coisa. Eu pensei muito nisto: o Mundo está
no estado em que está, e a Europa não está bem, o País está muito dividido, então a minha experiência pode ser útil. Mas agora, os portugueses é que
vão decidir e eu aceito humildemente a decisão que os portugueses tomarem.
Já voltamos às presidenciais. Há pouco
sublinhou a ajuda de Sofia, da sua mulher, um amor que tem 50 anos, que começou
ali no 25 de Abril de 1974.
No 25 de Abril, sim, logo a seguir.
Tem resistido melhor o vosso amor do que
propriamente os valores de Abril?
Acho que têm resistido as duas coisas. Quer
dizer, o nosso namoro e casamento, isso, como é óbvio, está à vista, resistiu
estes anos todos, e acho que resistiu sem grandes dificuldades. Mas eu acho
que, sinceramente, os valores de Abril também. Quer dizer, porque os grandes
valores de Abril são a Liberdade, são a Democracia, e em terceiro lugar,
talvez, o Serviço Nacional de Saúde. Mas, bem, estes valores, ao fim destes anos
todos, acho que ninguém os coloca em causa.
Isto era uma provocação...
Sim, claro. Mas quer dizer, pensando-se mais à
direita ou menos à direita, ninguém quer deixar de viver em liberdade. Sendo-se
mais conservador ou mais progressista, toda a gente gosta de viver em
democracia, nem lhe passa pela cabeça outra solução. E mesmo no domínio da
saúde, que é uma área mais polémica, eu julgo que não há português nenhum que
não tenha grande paixão pelo Serviço Nacional de Saúde. Pode ser difícil lá
chegar, mas o Serviço Nacional de Saúde é uma grande conquista de Abril.
E quais são as vossas principais conquistas,
enquanto casal?
Eu acho que é a harmonia e a tranquilidade.
Nós sempre vivemos neste quadro de harmonia e tranquilidade. Nunca houve
propriamente entre nós guerras, crispações, divisões, grandes desentendimentos.
Portanto, foi uma vida sempre feita, de facto, de harmonia e feita na
tranquilidade.
A Sofia, em 1992, acabou por entrar na
política...
Na política não. Não, ela nunca entrou na
política.
Como assessora de secretário de Estado...
Ah sim, sim, está bem. Mas foi uma coisa
pontual.
Luís Marques Mendes com a mulher, Sofia
Terá sido uma 'vingança' pelos anos em que
teve de fazer de mãe e de pai?
Não, não. Acho que foi uma experiência
pontual, mas ela nunca.. quer dizer, acompanha a vida política, mas também
nunca lhe passou pela cabeça uma ideia de carreira política. Ela está mais ao
nível da ideia dos filhos do que o contrário.
O dr. Luís Marques Mendes chegou a dizer que
não tinha sido uma decisão acertada, por fazer parte do mesmo Governo em que o
Sr. estava...
Ah sim, já me recordo. Ou seja, tem a ver com
a questão de familiares a fazerem parte de gabinetes de outros membros do
Governo. Na altura, nos anos 90, não foi visto, como um problema, mas visto aos
olhos dos dias de hoje, digamos assim, poderia ter sido diferente. Se voltasse
atrás, eu recomendaria que ela não tivesse feito isso, mas as coisas às vezes
acontecem. Nós também não somos perfeitos, fazemos coisas bem feitas e outras
com erros.
UM HOMEM DE FAMÍLIA... E A PAIXÃO PELO DESPORTO
Avô de seis netos, com o sétimo a caminho.
Sim.
Nesta fase da sua vida, é um avô mais presente
do que foi como pai nesse período dos dez anos, entre os 28 e os 38 anos?
Sim, hoje sem dúvida. Sim, talvez um avô mais
presente do que um pai que foi ausente em alguns momentos. Portanto, estou um
pouco a compensar as falhas do passado. Mas, sobretudo, estou a desfrutar de um
estatuto extraordinário, que é o estatuto de ser avô. Sou aquilo
que em linguagem popular se chama um 'avô babado', embora acho que, como eu, há
milhares em Portugal, porque quem já é avô, ou quem já passou por esse
estatuto, sabe que é uma coisa absolutamente extraordinária. Há mais
disponibilidade, há mais abertura e, de facto, consegue-se usufruir de situações
e oportunidades que, porventura, pela vida intensa que uma pessoa levava quando
era pai, não conseguia.
E acompanha-os nas brincadeiras, por exemplo,
durante as férias? Ainda faz bodyboard?
Não, já não faço. As minhas costas não
permitem. Eu sempre fiz muito desporto, ao longo da vida, e continuo a fazer.
Com a idade vou é mudando o tipo de desporto que faço. Joguei futebol, joguei andebol, eu joguei
ténis, muitos anos, eu fiz bodyboard também, alguns anos, mas isto vai deixando
algumas sequelas, no meu caso, sobretudo nas minhas costas. Portanto, hoje eu
tenho que ter desportos que não causem trepidação na minha coluna. Hoje,
sobretudo, faço ginásio. Para mim, o desporto é uma parte indissociável da minha
vida. Eu diria que há duas ou três coisas que são indissociáveis da minha vida:
gosto muito de fazer desporto, gosto muito de ler e gosto muito de viajar. São
três coisas que ajudam, digamos assim, à minha tranquilidade de espírito.
Marques Mendes na praia
E que teve tempo para fazer nestes últimos anos mas que poderá deixar de ter.
Mas agora vou deixar de ter, exatamente.
Até agora tive mais tempo, por exemplo, para viajar. Estes 17 anos
fora dos cargos políticos permitiram-me tempo para viajar, para conhecer o
Mundo, e tenho ainda outros projetos na cabeça em termos de viagens, mas que,
para já pelo menos, vão ficar entre parênteses
Quando está de férias, no Algarve, prefere
manter-se resguardado aqui por casa ou gosta da confusão própria desta época?
Nem uma coisa nem outra. Primeiro,
evidentemente, que gosto de estar tranquilo e reservado. Prefiro jantar em casa
todos os dias com os filhos e com os netos, e, uma vez ou outra, juntando alguns
amigos mais íntimos, do que propriamente ir para restaurantes.
VIDA SOCIAL E ASSÉDIO NA RUA
Ia perguntar-lhe precisamente se gosta dos
restaurantes da moda...
Não, não frequento muito restaurantes neste
período de férias. Prefiro fazer férias mesmo em família, e com alguns amigos
mais íntimos, que normalmente são amigos fora da política. E é isso que eu faço
há muitos anos. Mas não é agora, não é este ano, é desde sempre, há 20 anos que
faço assim. Agora, também devo dizer que não me aborrece nada andar na rua e
falar com as pessoas e de ser interrompido pelas pessoas. Não me aborrece nada.
De resto, vou todos os dias para a praia a pé (praia da Marina,
em Vilamoura), e são três quilómetros. Vou sempre a pé, sempre, porque
gosto de fazer caminhadas. Evidentemente que encontro sempre pessoas que me
conhecem.
E é muito abordado na rua?
Sim, a cada passo. Mas eu sempre gostei
disso. Não estou apenas a dizer este ano, porque estou em vésperas de uma
eleição. Nos anos anteriores, as pessoas conheciam-me da televisão. Quando estou
em família, gosto de estar em família, quando estou na rua, não tenho nenhum
problema em falar com as pessoas. Sempre tive esta relação muito próxima e de
uma certa simpatia com as pessoas em geral. Nunca vi uma pessoa na rua a ser
antipática comigo. Nunca vi, nunca tive disso. E eu também não tenho razão nenhuma,
até pela minha maneira de ser, para não cultivar esta relação de proximidade.
Sempre fui assim. Não tem nada a ver com a proximidade de eleições. Tem a ver
apenas com a minha maneira de ser, genuína e autêntica. Eu não sou o postiço.
Sempre assumiu a família, nunca a escondeu.
Isso pode ser também um trunfo político?
Não é por uma questão de tática política, não
é por uma questão de trunfo, é pela naturalidade. Não ando a expor a família
todos os dias, mas também não ando a trancá-la em casa. Portanto, é como toda a
naturalidade. Nós somos assim na vida, nem sempre em casa, nem sempre fora de
casa.
A TELEVISÃO E A RELAÇÃO COM CLARA DE SOUSA
Falou da televisão há pouco. Sente saudades
das noites de domingo ao lado da Clara de Sousa, na SIC?
Quer dizer, saudades da Clara de Sousa sempre,
porque tenho-a na conta de uma grande profissional e ajudou-me imenso durante
12 anos a fazer comentários. Portanto, saudades dela tenho. Tenho saudades e
admiração por ela. Mas eu já a tinha, porque eu acho que ela é uma grande
profissional. Do melhor que há. Agora, nos primeiros meses, custou-me um pouco
não cumprir aquela rotina de sair de casa, fazer o comentário, voltar a casa,
ver as mensagens que recebia por causa do comentário que fazia. Nas primeiras semanas
senti um vazio. Mas neste momento já me adaptei. É como tudo na vida. Quando
aos 28 anos aceitei ir para o Governo, foi um choque; a saída do Governo, aos
38 anos, foi outro choque; o de ter sido líder parlamentar, de repente – eu que
nunca tinha sido deputado –, outro choque. Deixei de ser líder parlamentar, e
deixar aquele cargo que eu mais adorei, foi um choque; ser líder partidário há
20 anos, foi outro choque; deixar a vida política, outro choque. A vida faz-se
de isto. A vida faz-se de choques. Uns mais positivos, outros mais negativos,
mas são choques no sentido de mudanças. São desafios, são riscos. Mas eu faço o
meu discurso sempre, a recomendar às pessoas, risco, inovação, vamos empreender,
vamos inovar, vamos arriscar. Eu começo por dar o exemplo praticando isso.
Nunca se esqueça que o meu primeiro grande desafio comportou o maior número de
riscos possível a imaginar, e foi logo em 1975: estudar e trabalhar ao mesmo
tempo. Fiz o meu curso na Faculdade de Direito de Coimbra, ao mesmo tempo que estava
a trabalhar no Governo Civil, em Braga. E, depois, como vice-presidente da
Câmara. Foi um choque, foi um desafio. Comportava enormes riscos. Correu bem.
Sou um super-homem? Não, não sou coisa nenhuma, nem nada que se pareça. Há
tanta gente que faz o mesmo do que eu. Só é preciso um mínimo de disciplina e
de organização.
Ou seja, foi obrigado a aprender todas essas
funções e desafios enquanto estava a desempenhar esses cargos.
A minha vida, e digo isto com satisfação – não
digo isto com nenhum drama –, a minha vida é um bocadinho o retrato daquilo que
há anos a esta parte se diz: antigamente, um emprego que se começava era um
emprego para toda a vida. Agora uma pessoa muda de emprego várias vezes ao
longo da vida. Cinco, seis, sete vezes. Foi o que aconteceu comigo. Mudei de
atividade várias vezes ao longo da vida e tentei fazer o melhor possível. Acho
que, no essencial, não correu mal.
Isso faz de si um candidato mais preparado
para estas eleições?
Eu não quero dizer mais preparado. Acho que
estou preparadíssimo. Não quero estar agora a denegrir os outros. Quero,
sobretudo, pôr as questões pela positiva e falar por mim. Acho que estou
preparadíssimo. Se eu não estivesse preparado não me metia neste desafio. E
porquê que eu estou preparado? Porque eu conheço muito bem o País, o Norte e o
Sul. Porque eu conheço muito bem o poder local; foi lá por onde comecei a minha
experiência política. Porque eu conheço muito bem o poder central; sou das
pessoas em Portugal que têm maior tempo de vida governativa, quase 13 anos.
Porque conheço bem o poder parlamentar; fui tudo o que é possível no plano
parlamentar. Porque conheço muito bem a vida partidária; fui líder partidário.
E porque até conheço bem a relação com a Presidência da República, porque estou
há 15 anos no Conselho de Estado, que tem uma relação íntima com a Presidência
da República. Portanto, não quero estar a comparar-me com os outros, muito
menos denegrir os adversários, mas há uma coisa que eu acho que qualquer
português, da esquerda à direita entende: este homem está preparado. E depois,
acho que tenho também uma outra coisa, que faz alguma diferença, os portugueses
conhecem-me. Além de mais de estes anos de política, mais dos anos de
comentário – que é uma coisa diferente –, as pessoas conhecem-me. Conhecem os meus
pensamentos, conhecem o que eu penso sobre a maior variedade de assuntos. Podem
concordar ou discordar, mas sabem como eu penso. Até sabem que eu sou baixo e
às tantas gostariam que fosse alto. Mas também isto não tem drama, porque na
Presidência da República não é a altura que conta, é saber se o Presidente está
à altura dos desafios. E, portanto, as pessoas conhecem-me. E fui escrutinado,
todas as vezes e em todos os momentos. Julgo que isto é uma vantagem. Porque se
as pessoas me conhecem, conhecem as minhas ideias, o meu pensamento, e acho que
isso lhes dá confiança.
Comentador político, candidato à Presidência
da República. Irrita-o as comparações com o Marcelo Rebelo de Sousa?
Não. Como é que hão de irritar? É difícil alguma coisa irritar-me. Eu sou calmo, tranquilo. Tenho muita energia,
mas não me deixo facilmente irritar. Agora, as comparações com o professor
Marcelo? Não. Porque qualquer pessoa que vê um e outro sabe que somos
diferentes. Eu costumo dizer, para não enganar ninguém, somos amigos, é
verdade, há muito tempo, mas somos muito diferentes. Até nos comentários éramos
muito diferentes. O Marcelo era mais analítico, eu tinha mais o hábito de tomar
posições sobre as matérias, portanto, até no comentário éramos muito
diferentes. Na maneira de ser, também somos muito diferentes. Portanto, se eu
for Presidente, como desejo, serei um Presidente diferente, porque se sou
diferente no conteúdo, no estilo e na forma de Marcelo, também farei uma
Presidência diferente. Isto é porque não há duas Presidências iguais
e porque não há duas pessoas iguais. E esta é a riqueza da democracia.
Foi o primeiro candidato a avançar. Foi um
risco calculado?
Quer dizer, um risco foi e calculado também.
Eu avancei em fevereiro. Muito cedo. Num calendário muito semelhante ao que
Jorge Sampaio adotou em 1995, ou seja, quase com um ano de antecedência. Fiz
isto sobretudo por uma razão, por uma questão, digamos assim, de ética. Acho
que não era correto manter-me mais tempo a fazer comentários, porque acho que
as pessoas começavam a perceber, nas últimas semanas de comentários, que eu
provavelmente estava inclinado a ser candidato e, portanto, manter-me na televisão
a fazer comentários era uma coisa que eticamente não era correto, porque era
estar a usar um lugar para fazer tempo de antena e, portanto, resolvi sair. Por
exemplo, nisso, sou muito diferente de Marcelo. Marcelo Rebelo de Sousa foi
candidato, mas foi comentador até outubro, quase em cima das eleições. Ora, eu
deixei logo no início do ano, quase a um ano de eleições. Achei que eticamente
era assim que devia ser. Essa foi a grande razão pela qual eu avancei logo, no
início de fevereiro. Não era aceitável continuar a manter-me como comentador,
quando as pessoas interiorizavam que eu já tinha tomado a
decisão e portanto estaria de usar aquele espaço para fazer campanha eleitoral.
E portanto, se foi assim tão cedo, evidentemente que era um risco. Agora, era
um risco calculado, porque, evidentemente, tinha na minha cabeça como preencher
o tempo. Ou seja, havia muito tempo para a frente. Havia um de dois riscos, ou
o risco de uma pessoa fazer coisas a mais e desgastar-se, ou o risco de uma
pessoa fazer coisas a menos e ser esquecida. Acho que, sinceramente, consegui
aqui um meio termo em que não houve desgaste e também não houve esquecimento.
E como é que vê o surgimento, nestas últimas
semanas, de tantos candidatos? Vai ser uma primeira volta mais difícil?
Normal, foi sempre aquilo que eu imaginava e
fico com a certeza de que ainda vamos ter mais candidatos do que aqueles que
avançaram até ao momento.
É o seu lado de comentador a vir ao de cima?
É. Mas vão surgir mais, sim.
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'Faremos tudo para que não volte a acontecer”: Gouveia e Melo refere-se a morte de PSP e traça linhas vermelhas na Marinha
O doutor Luís Marques Mendes tem por trás um
partido político, PSD, vai estar na Universidade de Verão do partido no final
de agosto. Depois temos depois um candidato, como o almirante Henrique Gouveia e Melo,
que não quer o apoio oficial de partidos políticos, e temos António
José Seguro, que também não é propriamente o candidato do Partido Socialista.
Qual a importância de ter apoio partidário?
E não é apenas a democracia faz-se com
partidos. É que mesmo os cinco Presidentes da República que o País teve até
hoje, todos tiveram apoios partidários. Todos, sem exceção. Ramalho Eanes teve
apoios partidários, Mário Soares teve apoios partidários, Jorge Sampaio teve
apoios partidários, Cavaco Silva teve apoios partidários, Marcelo Rebelo Sousa
teve apoios partidários. Todos tiveram e todos depois foram independentes. E é
esta marca também que eu tenciono seguir. Eu tenho apoio partidário, mas mesmo o
meu partido sabe que sou muito independente. E não digo isto agora, já provei.
Nos meus comentários televisivos, durante 12 anos, várias vezes fiz críticas ao
meu próprio partido, ou várias vezes fiz críticas a Governos do meu próprio
partido e, às vezes, até irritei os meus companheiros de partido. E os
portugueses sabem isso. Quando eu ando na rua, e as pessoas me falam dos meus
comentários – e falam com saudade muitas vezes –, aquilo que mais dizem é isto: o
senhor é muito isento. Encontro imensas pessoas na rua que me dizem: não sou do
seu partido, mas voto em si porque o senhor é muito isento. E esta foi, em
grande medida, a imagem que eu deixei.
E esse foi um exercício difícil ou não?
Difícil, porque criticar a própria família é
sempre difícil. A nossa família política não deixa de ser a família política,
mas é a família, e portanto custa sempre. Mas isto é como repreender um filho,
também custa, mas muitas vezes tem de ser. Eu não podia estar a fazer
comentário político a fazer tempo de antena. Se estivesse a fazer tempo de
antena, ou seja, se eu dissesse sempre bem do meu espaço político, não tinha
feito 12 anos de comentário político, tinha feito três ou quatro, porque as
audiências quebravam e eu era corrido. Não tenha nenhuma dúvida, fiz 12 anos
consecutivos, porque as minhas audiências estavam sempre em alta, e quando
estão sempre em alta não se muda. Mas para estar sempre em alta, tinha de ter
um fator de credibilidade, porque as pessoas sabiam muito bem qual é a minha
área política, e portanto, por isso mesmo, eu adotei sempre este princípio que
para mim é genuíno, quando há que elogiar, elogia-se, quando há que criticar,
critica-se. Uns concordam, outros discordam, mas isto é a lei da vida. Quem não
quer isto, não se envolve nesta atividade. Portanto, já provei que sei ser
isento, imparcial e independente, e é isso que eu tenciono ser, e é por isso
que hoje também sinto um grande prazer, em ter uma candidatura que é muito
abrangente, vai do centro-direita ao centro-esquerda. Tenho muitos apoiantes
que são de centro-esquerda, tenho membros do Governo de António Costa. Eduardo
Barroso, que é o meu mandatário em Lisboa, ainda há dias escreveu um artigo a
dizer que nunca na vida votou no PSD e no CDS, mas que vota em mim, e é o meu
mandatário. Quer dizer, tenho imensas pessoas que são da área do
centro-direita, que são mais do centro, e outras que são do centro-esquerda, e
isto sim é aquilo que eu quero, é a ideia de unir por um lado e de representar
todos. Porquê? Porque todos temos em comum uma coisa que é o País. Eu até
tenho apoiantes da área da CDU. O Toy, que é um cantor e um compositor
bem conhecido, já disse publicamente que nas últimas eleições legislativas
votou na CDU, mas é meu apoiante, quase desde o início. Acho que há um
reconhecimento que nas eleições presidenciais está à escolha a pessoa, não outras
razões, e que a sua preparação e a sua isenção contam muito.
Olhando o País e o Mundo, a ordem mundial e as
democracias estão em perigo?
Acho que nós estamos sobretudo num estado de
desordem mundial. Há quem diga que a ordem mundial saída do pós-guerra acabou.
Eu diria que não acabou ainda, mas está mais próximo do fim. Há quem diga que
já estamos numa nova ordem mundial, não, acho que estamos a acabar uma, mas
ainda não começou outra. Estamos num período de transição. E um período de
transição que é um período de desordem, e qualquer período de desordem é
sempre, de facto, um risco muito sério. Portanto, nós estamos num tempo muito
difícil. Para mim, o exemplo mais sério, embora menos falado, é este que lhe
vou dar: Nações Unidas. As Nações Unidas foram sempre a grande entidade a quem
o Mundo recorria para tentar mediar, regular e resolver conflitos. Neste
momento, as Nações Unidas não existem, são irrelevantes, são impotentes. E isto
é a coisa mais grave que pode acontecer. Porque, mais sério do que um conflito
que emerge no Mundo é nós sabermos que não há nenhuma entidade independente, à
escala global, que o consegue resolver. E, portanto, isto é muito sério. As
Nações Unidas, que foram sempre a grande válvula de segurança, neste momento,
não existem. Portanto, o Mundo está perigoso, está difícil? Está. Depois, o
segundo grande exemplo é a nova administração americana, que dá um sinal para o
Mundo inteiro que não é um sinal favorável às democracias. É, exatamente, o
sinal no sentido oposto, dos populismos, dos radicalismos, dos movimentos
antidemocracia. É este o sinal que vem de cima, da administração americana, e, se
de cima vem um mau sinal, corre o risco de contaminar a humanidade. Mas, como
eu vejo sempre as coisas também pelo lado positivo, devo dizer o seguinte: a
administração americana tem os defeitos que tem, mas não vai ser eterna e,
portanto, o Mundo, e sobretudo as democracias, têm que ter resiliência e
capacidade de aguentar, porque estes problemas não vão ser eternos. Há que ter
esperança num mundo diferente e melhor.
Luís Marques MendesFoto: Cofina Media
O QUE PROPÕE MARQUES MENDES?
E, no meio de todo este caos, que Presidente
quer ser Luís Marques Mendes?
Eu diria que quer ser um Presidente moderador
por um lado e mediador por outro. Pode parecer um jogo de palavras, mas não é.
São duas realidades diferentes e complementares. Quero ser um Presidente
moderador porque o País precisa de moderação, precisa de equilíbrio, precisa de
tolerância. Nós precisamos de ser um País cada vez mais tolerante, em que um
pensa de uma maneira e outro pensa de outra, mas respeitam-se mutuamente e em
que as divisões não têm que ser fator de crispação. Têm que ser fator apenas do
direito à diferença, isto é tolerância, isto é moderação e uma sociedade
moderada e tolerante é uma sociedade mais saudável. O Presidente tem de fazer
esta pedagogia. É aquele que está em melhores condições para fazer esta
pedagogia e esta pedagogia nunca foi tão importante. Tem que ser também um
Presidente mediador e mediador, o que é? É mediar. E o que é que é mediar? É fazer pontes. E o
que é que são pontes? São entendimentos. Sobretudo entre quem governa e quem
está na oposição, para resolver problemas, para evitar crises. Quer dizer, há
anos que Portugal tem problemas que se agravam; na saúde, na habitação, na
justiça. Só três exemplos. E agravam-se porquê? Não se resolvem. E não se resolvem porquê? Porque não há os
entendimentos necessários entre quem governa e quem está na oposição, porque
não há Governos com maioria absoluta. Ora, o Presidente tem um papel
indispensável de fazer estas pontes, ou seja, de mediar, de aproximar as
partes, de as chamar e de lhes pedir que ponham os interesses do País acima dos
interesses partidários. O Presidente é eleito diretamente pelos portugueses,
tem uma autoridade muito grande, e essa autoridade não pode ser apenas para
tirar selfies.
Isso é uma crítica ao atual Presidente da
República?
Não, não é uma crítica. Até por isto: não é só
para tirar selfies, embora tirar selfies também possa ser importante porque
cultiva uma relação de proximidade com as pessoas, portanto, não tem mal nenhum.
Mas não pode ser só isso. Também tem que ser esta capacidade de fazer pedagogia
a favor da moderação e de fazer pontes para resolver problemas. Insisto, fazer
pontes para resolver problemas. Nós não podemos continuar anos a fio com os
problemas que já existiam no passado. As pessoas querem mudança. Mudança. E a
mudança é a mudança de soluções, de políticas. E é nisto que o Presidente da
República pode ser um instrumento essencial, de mudança. Mudança não é mudar o
partido A, B ou C, o Governo que está ou que deixa de estar, é mudar as
soluções, e isso só se faz com entendimentos.
Vai ter um trabalho redobrado dentro do
próprio Parlamento?
Trabalho redobrado, face ao passado, sim,
porque o Parlamento está mais dividido, mais fragmentado e mais polarizado do
que nunca. Essa foi a grande razão que me levou a avançar com a candidatura, a
situação interna, de grande fragmentação. E como eu tenho uma grande
experiência política ao longo dos anos, Governo, Parlamento, acho que estou em
condições para fazer estas pontes. Até por um outro facto: a minha vida
política foi feita a fazer entendimentos. Eu fiz entendimentos para dar o voto
aos imigrantes nas eleições presidenciais. Há 20 anos, os imigrantes não votavam
nas eleições para o Presidente da República, foi um entendimento que eu fiz com
o Partido Socialista. Eu fiz entendimentos num Pacto da Justiça, 2006, para
resolver problemas sérios que na altura existiam na Justiça Penal. Eu fiz, em
2005, um entendimento para que os mandatos dos autarcas fossem limitados, a 12
anos. Coisas que muitos tentaram e nunca tinham feito. Eu fiz um entendimento
para permitir que nas leis eleitorais possa haver um ciclo nacional, que hoje
muitos reivindicam, por causa dos votos perdidos, sobretudo no interior do
País. Isto são vários entendimentos. Apenas alguns. A minha vida política é
feita de diálogo, de entendimentos, uns à esquerda, outros à direita. Portanto,
quando eu hoje falo de entendimentos, não falo por ser candidato, falo porque
já fiz. Mas se eu já fiz quando tinha menos poder,
como Presidente da República julgo que tenho outras condições e o País precisa
muito disso, de diálogo, entendimentos, pontes, com vista a uma mudança de
políticas e de soluções.
E o Presidente precisa de mais poderes ou não?
Não, não. Acho que o sistema funciona bem como
está e os poderes que estão na Constituição parecem-me suficientes.
Mas agora fala-se muito de uma revisão
Constitucional.
Sim, fala-se, mas não me parece que haja
nenhuma razão nacional para fazer uma revisão Constitucional. Parece-me que é
um bocadinho mais de show off, do que propriamente de necessidade de revisão
Constitucional. Todas as questões fundamentais que o País tem podem ser
resolvidas sem revisão Constitucional. Todos os problemas da habitação podem
ser resolvidos sem revisão Constitucional; todos os problemas da saúde podem
ser resolvidos sem revisão Constitucional; todos os problemas essenciais da
Justiça, a mesma coisa. Portanto, vamos é resolver os problemas concretos das
pessoas. Revisão Constitucional acho que não diz nada a nenhum cidadão. Mas os
partidos é que decidem, não sou eu.
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