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Maníaco e bipolar! Especialistas falaram em psicose e alucinações, mas um único perito mudou o rumo do julgamento de Renato Seabra

Ataque psicótico, alucinações e um quadro psiquiátrico grave. Ao longo do processo, vários especialistas encontraram sinais que apontavam para uma perturbação mental séria em Renato Seabra. Ainda assim, o jovem foi considerado imputável pelo homicídio de Carlos Castro e acabou condenado. Quinze anos depois, a discussão sobre o seu estado mental está longe de estar encerrada.
Ana Cristina Esteveira
Maníaco e bipolar! Especialistas falaram em psicose e alucinações, mas um único perito mudou o rumo do julgamento de Renato Seabra
Renato Seabra
Amiga de Carlos Castro recorda últimos momentos e responsabiliza Renato Seabra
Imagens retiradas da Internet do modelo Renato Seabra, de 21
O jovem modelo Renato Seabra, homicida do cronista num hotel
carlos castro, renato seabra
Renato Seabra, Carlos Castro
renato seabra
renato seabra
renato seabra
renato seabra
Renato Seabra
Renato Seabra
Renato Seabra
Renato Seabra
Renato Seabra
Amiga de Carlos Castro recorda últimos momentos e responsabiliza Renato Seabra
Imagens retiradas da Internet do modelo Renato Seabra, de 21
O jovem modelo Renato Seabra, homicida do cronista num hotel
carlos castro, renato seabra
Renato Seabra, Carlos Castro
renato seabra
renato seabra
renato seabra
renato seabra
Renato Seabra
Renato Seabra
Renato Seabra
Renato Seabra

Depois de matar Carlos Castro, Renato Seabra não ficou no quarto à espera da polícia. Tomou banho, vestiu um fato preto, camisa branca e uma gravata roxa e deixou o Hotel InterContinental, em Nova Iorque, com uma tranquilidade que impressionou os investigadores. As câmaras de vigilância registaram todos os passos do jovem português, que parecia cumprir uma rotina perfeitamente normal.

Mas não estava. Pouco depois de abandonar o hotel, Renato entrou num táxi e pediu ao motorista que o levasse a um hospital. Tinha os pulsos cortados e precisava de assistência médica. Foi o início de um percurso por várias unidades hospitalares nova-iorquinas que viria a ser fundamental no julgamento pela morte de Carlos Castro.

No primeiro hospital e, posteriormente, numa segunda unidade, para onde foi transferido e encaminhado para a ala de psiquiatria, os médicos observaram comportamentos e sintomas que levantaram sérias preocupações sobre o seu estado mental. As avaliações clínicas acabariam por ser apresentadas pela defesa para sustentar a tese de que Renato atravessava um grave episódio psiquiátrico quando matou o cronista social.

E não era apenas a defesa que tinha essa leitura. Os relatórios médicos, juntamente com as avaliações dos especialistas contratados pelos advogados do jovem, apontavam para um quadro psiquiátrico grave, com sintomas psicóticos e episódios de alucinação. A questão que se colocava era, porém, muito mais complexa: estar doente significava que Renato não sabia o que estava a fazer quando atacou Carlos Castro?

Foi aqui que entrou em cena William Bahr, o psiquiatra apresentado pela acusação. A leitura de Bahr era substancialmente diferente da defendida pelos especialistas que sustentavam a tese da inimputabilidade. Para a acusação, não bastava demonstrar que Renato apresentava problemas psiquiátricos. Era necessário provar que, no momento do crime, esses problemas lhe tinham retirado a capacidade de compreender a natureza e a gravidade dos seus atos.

E o comportamento do jovem depois do homicídio tornou-se uma das peças importantes deste puzzle. Tomar banho. Vestir-se cuidadosamente. Sair do hotel. Apanhar um táxi. Procurar tratamento para os ferimentos nos pulsos. Para a defesa, estes comportamentos podiam ser interpretados à luz de um estado mental profundamente perturbado. Para Bahr e para a acusação, podiam revelar precisamente o contrário: um homem que sabia o que tinha feito e que era capaz de agir de forma organizada depois do crime.

Foi esta diferença de interpretação que acabou por colocar as avaliações psiquiátricas no centro do julgamento. E, perante os 12 jurados, a versão de William Bahr acabou por ter mais força. O júri não deu crédito à avaliação de Jeffrey Singer, o psiquiatra contratado pela defesa, que descreveu Seabra como “um jovem ingénuo” que, durante a estadia em Nova Iorque, se sentiu “aprisionado, sozinho e aterrorizado”, levando à tensão que desencadeou a psicose. Singer considerava ainda que Renato mantinha uma relação com Castro essencialmente por interesse profissional.

O especialista recorreu também aos registos hospitalares das três unidades de saúde por onde passou o jovem, então com 21 anos, que documentavam um “estado maníaco psicótico agudo”, logo depois do crime e muito tempo depois. Já o psiquiatra William Bahr, chamado pela acusação, foi muito mais convincente para os jurados ao defender em tribunal que Seabra tinha consciência dos seus atos e fingiu sintomas de loucura.

O júri considerou o arguido imputável e declarou Renato Seabra culpado. A 21 de dezembro de 2012, o jovem conheceu finalmente uma das penas mais pesadas previstas pelo sistema penal de Nova Iorque: um mínimo de 25 anos de prisão, com possibilidade de a pena ser estendida a prisão perpétua.

Agora, 15 anos depois da morte de Carlos Castro, o caso volta a ser analisado no programa 'Portugal Criminal', da SIC, transmitido este domingo, dia 23. Fernando Vieira, reconhecido médico psiquiatra forense em Portugal, Assistente Graduado Sénior do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa e antigo diretor do Serviço de Clínica Forense do Instituto Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses, tem uma opinião muito diferente sobre o estado mental de Renato.

Para o especialista, o jovem “agiu pela doença” e, se o crime tivesse acontecido em Portugal, é quase certo que Renato Seabra teria sido considerado inimputável. “O crime que cometeu foi responsabilidade da doença”, afirmou o psiquiatra perante as câmaras.

Entretanto, também no referido programa da SIC, é recordada uma investigação do'The New York Times' que levanta dúvidas sobre a imparcialidade de William Bahr. O especialista foi contratado pela acusação mais de 100 vezes ao longo de 13 anos, defendendo, segundo o jornal, de forma recorrente a tese da Procuradoria de Manhattan.

A investigação identifica um padrão nos seus testemunhos: os arguidos estariam a exagerar ou a fingir sintomas de doença mental e os crimes teriam sido cometidos por raiva. Uma posição semelhante à que Bahr apresentou no caso de Renato Seabra. O artigo enumera vários processos em que o especialista defendeu que os arguidos tinham exagerado os sintomas, mesmo em situações envolvendo pessoas com diagnósticos psiquiátricos anteriores e que estavam medicadas há vários anos.

“No caso de Renato Seabra, William Bahr contrariou o diagnóstico de, pelo menos, 16 médicos e até o manual da Associação Americana de Psiquiatria. Chegou a dizer que estava em revisão e que ia incluir mudanças que sustentavam a sua posição. Até hoje essas mudanças não se verificaram”, é dito no 'Portugal Criminal'. A SIC tentou ouvir o especialista sobre estas questões, mas William Bahr recusou dar uma entrevista.

Quinze anos depois, permanece assim uma questão central: Renato Seabra era um homem que sabia exatamente o que estava a fazer ou um jovem dominado por uma doença mental grave no momento em que matou Carlos Castro?


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