Na última quarta-feira, dia 11 de fevereiro, a tensão tomou conta do Congresso dos Estados Unidos e tudo por causa do polémico depoimento da Procuradora-Geral dos Estados Unidos Pam Bondi. O pedido de audição há muito que tinha sido feito pelos Democratas, que garantiam que havia sérias razões para desconfiar da atuação de Bondi no caso que investiga a rede de tráfico sexual de Jeffrey Epstein, uma vez que no verão passado, esta tinha em mãos um conjunto de ficheiros secretos do processo, mas recusou-se a divulgá-los, alegando que não continham provas incriminatórias. Forçada, mais tarde, a apresentar os documentos, fê-lo em vários lotes, e de forma faseada, sendo acusada de remover inúmeras provas, que continham nome de alguns todos-poderosos envolvidos, enquanto não teve pudor em expor aqueles que revelavam a identidade das vítimas.
No Congresso, a Procuradora foi acusada de estar a agir a mando de Trump, fazendo de tudo para o proteger. No entanto, a Bondi nunca se deixou amedrontar pelos dedos que se lhe apontavam. Com uma postura de ferro, recusou-se a pedir desculpa às vítimas de Epstein que assistiam à sessão, enquanto disparava em todas as frentes. "Se vão ficar aqui a atacar o presidente, não vou permitir. Donald Trump é o presidente mais transparente da história do país”, afirmou a procuradora-geral, enquanto o congressista-demorata Jamie Raskin alertava para a importância de ouvir as vítimas, que se encontravam na sala a assistir ao depoimento.
"Para que a justiça seja feita para o povo, é necessário ouvir as vítimas, como as mulheres sentadas atrás de si hoje. Estas são apenas algumas das centenas de sobreviventes da rede global de tráfico sexual de Jeffrey Epstein que exigem que a verdade seja dita e que os abusadores que as traficavam e violavam sejam responsabilizados", disse, acusando Bondi de participar na enorme "farsa" do caso Epstein e de encobrir a verdade para proteger Trump e uma série de outros poderosos, divulgando documentos inócuos e bloqueando os verdadeiros ficheiros secretos.
Várias vezes, Bondi interrompeu a sessão para garantir que tudo aquilo era "teatro puro", mostrando que não ia descer "ao nível da lama".
O QUE MOSTRAM OS FICHEIROS DE JEFFREY EPSTEIN
Entender a dimensão do caso Jeffrey Epstein e dos contornos da rede de tráfico sexual que é acusado de ter construído durante anos é algo que se tenta fazer há muito, mas na verdade a complexidade dos documentos relativos ao processo e o facto de serem milhares e milhares de páginas a perder de vista não facilitam o caso.
No entanto, algo fica bem claro através de uma primeira análise dos emails e conversas em geral transcritos no processo: o mundo de Jeffrey Epstein era essencialmente masculino e baseado numa sociedade patriarcal, na qual se revia. Rodeava-se de homens poderosos, com quem gostava de estar e de ser visto, proporcionando-lhes momentos prazerosos em festas organizadas, muitas vezes nas ilhas Virgens, que se transformou no palco do terror vivido para as vítimas do magnata.
Na verdade, no mundo de Epstein o papel das mulheres era resumido ao teor sexual. Por vezes, excecionalmente, há relatos de que teria convidado uma ou outra atriz ou personalidade feminina de relevo para alguma festa, mas regra geral à mesa só se sentavam homens, de preferência milionários, a quem se garantia que teriam diversão com mulheres, muitas delas jovens (até em idade escolar), contratadas a 300 dólares para sessões de massagens.
A comunicação para encontrar estas mulheres era exaustiva e com normas muito próprias a cumprir: Epstein queriam que fizessem exames a doenças sexualmente transmissíveis, a várias foi-lhes pedido que enviassem fotografias da vagina e o magnata até dava conselhos para que melhorassem a sua 'performance'. "Prostituta geme", escreveu num email para uma mulher, sugerindo que frequentasse uma aula de sexo tântrico.
Nos emails que Epstein trocava com a sua assistente, havia também pedidos de contactos com modelos da Victoria's Secret e ainda reparos sobre dentes que tinham de ser tratados, peso a perder ou, por vezes, críticas à contratação das raparigas. "A ucraniana e a moldava chegaram. Grande deceção, a moldava não é tão atraente quanto na foto. Photoshop", sugere um dos amigos de Epstein que, a dada ocasião, recebeu as raparigas que iam estar na festa. O tom era, frequentemente, de gozo ou desdém para com essas mulheres, ao contrário daquele que era dirigido aos convidados, com Jeffrey a dar ordens claras sobre as preferência de ilustres como Bill Gates e de como era suposto servir sauvignon blanc, pinot grigio e rosé. "Nada de chardonnay, por favor!"
Ao contrário das mais de cinco mil referências a Trump nos ficheiros, a palavra vagina surge apenas perto de 500 vezes, no entanto, isso é porque as outras milhares de referências tratavam-se de diferentes nomes usados para retratar o mesmo, com as conversas sobre as mulheres a serem, sobretudo, superficiais, jocosas, apenas como um apêndice essencial à festa, porém, sem conteúdo aparente. "A vagina é, de facto, baixa em carboidratos. Ainda aguardando resultados sobre o teor de glúten, no entanto", escreveu num email um médico canadiano especialista em longevidade, num comentário aplaudido por Epstein e a sua trupe que, a páginas tantas, são descritos como parecidos a um bando de miúdos do secundário sedentos de miúdas e sexo. Só que neste caso, pareciam saber exatamente o que estavam a fazer e de que forma o estavam a colocar em prática.