Na entrevista que deu à BBC após à sua ligação ao pedófilo Jeffrey Epstein ter sido tornada pública, o príncipe André vestia uma capa de indignação. Enquanto garantia nada ter a ver com o magnata - que pôs fim à vida na prisão, mas não à investigação sobre a rede de tráfico sexual por si criada, que persiste - afirmava ainda que a sua viagem a Nova Iorque em 2010 apenas tinha tido um motivo: informar o predador sexual que a amizade entre os dois estava terminada.
No entanto, a realidade mostra-se todos os dias um pouco menos nobre do que a suposta intenção do monarca de romper laços com Epstein e os últimos emails do milionário divulgados pelo departamento de Justiça dos Estados Unidos fazem como que uma cronologia da estadia do filho da rainha Isabel II por Nova Iorque, revelando o que verdadeiramente André esteve a fazer na 'Big Apple'.
Na altura, Epstein fazia do seu email uma espécie de diário de bordo e foi também a propósito dessas comunicações que, aos dias de hoje, se consegue reconstruir o rasto de como teriam sucedido os abusos do pedófilo, que aliciava dezenas e dezenas de raparigas menores para irem até à sua mansão na Flórida, onde decorriam as 'famosas' festas, com a presença de muitos ilustres da sociedade.
Naquele fim de ano de 2010, o príncipe André seria o convidado principal de um desses eventos e, a propósito disso, há emails a acelerar a contratação de raparigas que chegariam a casa de Epstein "depois da escola", como se pode ver numa dessas comunicações, em que se preparava uma estadia de nove dias para o monarca, que à chegada foi logo recebido com um tratamento estético: um spa facial, tendo-lhe sido disponibilizado motorista particular para toda a estadia.
Na troca de emails seguintes, é detalhada, a 'contratação' das diversas raparigas que iriam marcar presença não só na grande festa que estava a ser organizada, mas também no dia a dia de André nos EUA. Num deles, lia-se que determinada rapariga "poderia vir depois das aulas", enquanto noutro Epstein pedia para a noite da festa ao contabilista que lhe trouxesse "cinco mil dólares em dinheiro" - recorde-se que o magnata, amigo de Donald Trump, pagaria a cada vítima perto de 300 dólares, mantendo largas quantias de notas na sua mansão.
Nessa noite, Epstein recebe um e-mail a dizer: "Olá Jeffrey, vou trabalhar e estudar amanhã. Quarta-feira posso ir entre as 16h e as 18h30." A mesma rapariga pediu-lhe dinheiro para comprar "sapatilhas de ponta para os ensaios de ballet".
A NOITE DA FESTA
Para receber o príncipe André, houve festa brava, com o momento a estar a cargo da conhecida organizadora de festas Peggy Siegal. Entre os convidados ilustres estava o realizador Woody Allen e a mulher, Soon-Yi. Mick Jagger também esteve entre os convidados, mas disse que "adoraria poder estar presente", mas que se encontrava em França, enquanto Kate Winslet terá recusado o convite.
No dia seguinte, há emails que relatam o sucesso da festa e já depois da sua longa estadia em Nova Iorque - onde assistiu com Epstein antecipadamente ao filme 'O Discurso do Rei', que foi enviado por Harvey Weinstein - André mostrou-se rendido.
Ao chegar a Inglaterra, enviou um email ao amigo a agradecer todos os convívios. "Foi ótimo passar algum tempo com a minha família americana. Ansioso por me juntar a vocês novamente em breve."
Publicamente, porém, mostraria, mais tarde, um discurso diferente, garantindo que, quando visitou Epstein para lhe comunicar que a amizade entre os dois estava desfeita, se mostrou chocado. "Havia pessoas a entrar e a sair daquela casa o tempo todo. "Eu não tinha nada a ver com o que elas estavam a fazer e porque estavam ali."
O príncipe, recorde-se, perdeu todos os títulos reais depois de ter sido provada a sua ligação ao milionário e foi, inclusivamente, obrigado a deixar a habitação onde vivia, propriedade da Coroa.