Depois do sucesso de 'A Gaiola Dourada', Ruben Alves promete arrebatar com história de 'Santo António: o Casamenteiro'
Estreia esta quinta-feira, dia 10, o filme que passa para o ecrã a história do mítico santo padroeiro de Lisboa. Com Rita Blanco e Joaquim Monchique nos principais, há a expectativa para saber se a trama vai igualar o sucesso estrondoso de 'A Gaiola Dourada'.13 anos depois de ter conseguido um sucesso fulminante com 'A Gaiola Dourada', o luso-francês Ruben Alves apresenta o seu primeiro filme em solo português, 'Santo António: o Casamenteiro de Lisboa', cuja apresentação decorreu nesta segunda-feira, 7 de setembro, no Centro Cultural de Belém, onde o realizador não escondeu a sua felicidade com a concretização deste projeto – a estreia nas salas de cinema está agendada para esta quinta-feira, dia 10.
Trata-se de uma produção de humor que versa sobre dois organizadores dos Casamentos de Santo António, Carmo (Rita Blanco) e Valentim (Joaquim Monchique, na sua estreia cinematográfica) que tentam salvar o evento numa altura em que um vereador da Câmara Municipal de Lisboa (papel a cargo de Albano Jerónimo) mostra a intenção de o vender a uma empresa francesa – a premissa até chamou, curiosamente, a atenção de Carlos Moedas, edil da capital, que presenciou a apresentação, até por praticamente toda a ação do filme ocorrer na cidade das Sete Colinas.
Para evitar que tal aconteça, e rejeitando fazer parte de uma iniciativa que implicasse que os icónicos matrimónios passassem a estar em mãos estrangeiras, a dupla pede a autorização ao mesmo autarca para organizar por uma última vez esta tradição lisboeta e mostrar que se mantém viva no coração dos 'alfacinhas'. Assim, decide fazê-lo com contornos contemporâneos e elege pares que potenciem essa nova versão 2026, com o intuito de contrariar a perda de popularidade que vem acontecendo nos últimos tempos.
Sofia (Inês Aires Pereira) e Tiago (Nuno Nolasco), que, prestes a separar-se e com um filho em comum, sobem ao altar com um interesse específico; Liliana (Maria Rueff) e Marcelo (Pedro Nercessian), uma devota religiosa e o galã brasileiro que acredita ter-lhe sido enviado de forma divina; Alfredo (Rui Mendes) e Catarina (Lídia Franco), um casal de terceira idade que pretende coroar o amor de uma vida; Fábio (Pedro Nuno) e Nuno (Miguel Amorim), umpar homossexual eleito para os organizadores mostrarem que os Casamentos já são "queer-friendly" e, por fim, as irmãs Beatriz (Maria João Bastos), a viver em Espanha, e Fátima (Jacqueline Corado), cuja mãe, Maria (Ana Bola), quer ver dar o nó no Santo António com os respetivos companheiros, o espanhol Jaime (Paco León) e o presidiário António (João Catarré). Acresce a este numeroso elenco, o padre dos casamentos, Miguel (Joaquim de Almeida).
As especificidades de cada personagem e a sua interação são o dínamo para várias situações de humor, sendo que o filme varia entre a comédia mais tradicional com referências mais modernas. A rápida cadência de momentos humorísticos talvez possa fatigar alguns espectadores menos adeptos desse tipo de guião, fazendo até lembrar um pouco outros géneros de produção, mas, por outro lado, a taxa de eficácia é bastante considerável, diminuindo efeitos mais nefastos que esse fator pudesse comportar.
Sem prejuízo para os méritos dos restantes intérpretes, Rita Blanco e Joaquim Monchique são autores de duas prestações assinaláveis e usam as suas qualidades artísticas acumuladas através das carreiras que firmaram numa miríade de géneros para dar vida a todas as cenas em que entram, desde as mais comédicas às mais dramáticas.
Ao longo do filme, a narrativa coloca na mira as alterações na cidade de Lisboa operadas pela nova realidade da capital lusa: desde a invasão dos alimentos "da moda", à preponderância das redes sociais, ao comércio tradicional ter sido trocado pelos serviços de entrega, até, claro, à ocupação de terreno lisboeta por uma população internacional endinheirada e os seus efeitos nas dinâmicas urbanas. Há quem possa ficar de pé atrás com uma ou outra cena que pudessem ser associadas a uma linha indesejada pelo cineasta – a ideia da proteção das tradições tem sido usada como bandeira por entidades nacionalistas e, numa recente entrevista à 'Sábado', Ruben Alves fez questão de dizer que "não vive neste mundo" se identidade e tradição se tornarem associações à extrema-direita, rejeitando a ideia de que manter tradições signifique exclusão.
Se, em algumas ocasiões, as piadas se possam ter desviado demasiado das subtilezas de que vive o humor (numa cena, a personagem de Rita Blanco é informada de que o café em que está não serve torradas, só "avocado toast"), noutras, o tiro é certeiro, visa de forma precisa a descaracterização de que a cidade foi alvo e até pode levar muitos espectadores a considerar a pertinência de algumas alterações de hábitos que foram coletivamente adotados. Refira-se que o "budget português" aludido, em jeito de ironia, por Ruben Alves no seu discurso na apresentação do filme, acabou por obrigar a algum "product placement" por vezes demasiado óbvio dos "sponsors" deste projeto, conjuntura que pode contrastar com algumas das críticas societais abordadas (mas que, nesta realidade, poderá ter sido inevitável para a materialização da produção).
Vale a pena mencionar ainda um fenómeno interessante. Potencialmente numa tentativa de aumentar o alcance deste filme noutras demografias que menos atraídas pelas luzes das salas de cinema (e no streaming, já que irá chegar posteriormente à plataforma Disney+, sendo a primeira produção portuguesa a fazê-lo), Ruben Alves chamou diversos nomes de grande popularidade entre a geração mais jovem para o elenco. Kiko is Hot, Vasco Pereira Coutinho, tal como a dupla do podcast 'Plágio', Mafalda Creative e Mariana Bossy, têm 'cameos' ao longo do filme, Joana Marques também empresta a sua voz a uma locutora de rádio. Aprópria Inês Aires Pereira, que, ocupa um dos papéis principais, viu a sua popularidade incrementar também graças às suas aparições nas plataformas digitais.
É difícil prever se, com 'Santo António: O Casamenteiro de Lisboa', Ruben Alves poderá igualar o sucesso de 'A Gaiola Dourada': não só pelo facto de os comportamentos dos espectadores mudaram e a futura estreia no 'streaming' poderá condicionar a intenção de haver uma mobilização, mas também porque o filme de 2013 tem um registo impressionante, sendo o 15.º filme mais visto desde 2004 nos cinemas portugueses, segundo dados do ICA, com mais de 760 mil espectadores e uma receita bruta de 3,9 milhões de euros.
Para além da palete viva de cores aludir de certa forma a esse êxito da década passada, repete-se também a opção pela inclusão de todos os símbolos referentes à realidade na qual se debruça o filme, desta feita, as alterações no quotidiano nacional que o afastam das suas raízes, desde as inúmeras aparições do padroeiro em várias formas, às tradições a ele adjacentes, como os titulares casamentos e as Festas de Lisboa, gerando uma identidade dificilmente repetível numa outra obra, que será decerto apreciada por muitos dos espectadores.
É certo, porém, que, no panorama dos filmes populares portugueses lançados em tempos recentes, esta obra tem todo o potencial de deixar a sua marca e cimentar Ruben Alves como um dos mais influentes nomes contemporâneos do género.