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Já ouviu falar do caso Lindsay? O julgamento da mulher que matou os três filhos que está a dividir a opinião pública

Em 2023, Lindsay Clancy matou os três filhos menores e tentou de seguida pôr termo à vida. Ficou paralisada da cintura para baixo e o julgamento, que entretanto começou nos Estados Unidos, chamou a atenção para o estado psicológico desta mulher, meses antes do crime, naquilo que a defesa chama de psicose pós-parto. Deve passar o resto da vida na prisão ou processar o que aconteceu num centro psiquiátrico? O caso lançou um imenso debate público e as figuras públicas portuguesas juntaram-se ao coro que se posiciona ora contra ora a favor de Lindsay, que aguarda pelo veredicto do júri. Entenda a polémica.
Por Rute Lourenço | 23 de agosto de 2026 às 10:53
Lindsay Clancy, acusada de matar os três filhos, em julgamento nos EUA Foto: D.R.

Isto é, muito resumidamente, o que se sabe dos factos. A 24 de janeiro de 2023, Lindsay Clancy, uma enfermeira residente em Boston, nos Estados Unidos, matou os três filhos durante um momento em que o marido não se encontrava em casa e logo de seguida tentou cortar os pulsos e atirou-se do segundo andar do apartamento onde vivia. Não morreu (ficaria paralisada da cintura para baixo) e quando o companheiro, Patrick Clancy, regressou encontrou-a coberta de sangue à entrada do prédio, sendo que o verdadeiro horror estava dentro de casa: os dois filhos mais velhos, Cora, de cinco anos, e Dawson, de três, estavam mortos, sendo que o mais novo, Calan, de apenas oito meses, faleceria dias depois no hospital. Foram estrangulados com recurso a um elástico de fitness. 

Lindsay e Patrick Clancy tinham três filhos Foto: D.R.
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Isto são, como já o dissemos, os factos, o que foi apurado durante a investigação àquele que ficou conhecido como 'Caso Lindsay', e que está a dividir a opinião pública, num aceso debate, depois de o julgamento ter tido início nos Estados Unidos.

O início do processo judicial trouxe à tona uma série de outras questões, e que se prendem com o estado psicológico de Lindsay, que começou a sofrer de depressão pós-parto após o nascimento do segundo filho, sendo que tudo se agravou com a chegada do terceiro. Nos meses anteriores ao crime, a enfermeira não se encontrava bem e já o tinha feito saber à mãe e ao marido, relatando que, em momentos de psicose e névoa, já lhe tinha ocorrido "fazer mal às crianças". "Esta não sou eu, nunca tinha sido assim antes", disse à mãe, em declarações reproduzidas no julgamento.

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Lindsay Clancy no tribunal a aguardar julgamento por assassinato dos seus três filhos Foto: D.R.

Lindsay não nega ter cometido os homicídios mas, de acordo com a defesa, não deve ser condenada por sofrer de psicose pós-parto, uma perturbação pouco conhecida, que é diferente e bastante mais rara do que uma depressão pós-parto, e que se enquadra na categoria da perturbação mental. Há, aliás, um caso paralelo na justiça norte-americana, ocorrido há cerca de 20 anos, o de Andrea Yates, uma mulher do Texas que afogou os seus cinco filhos e foi declarada não culpada por sofrer de uma doença mental.

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Sobre o caso concreto de Lindsay, a defesa diz que era uma mulher feliz, que desejou muito ser mãe, mas que mergulhou numa depressão após o nascimento do segundo filho e que o seu quadro se agravou muito nos meses anteriores aos homicídios, vivendo momentos de pânico, pensamentos acelerados e revelando um medo crescente relacionado com a sensação de que algo terrível estava prestes a acontecer. Durante esse tempo, foi acompanhada por médicos e chegou a ser internada, mas ninguém conseguiu retirá-la do estado de profundo sofrimento e psicose em que se encontrava. A questão que se coloca agora é: deve esta mulher, agora com 36 anos, ser condenada a uma prisão para a vida ou restabelecer-se num centro psiquiátrico?

Homenagem a Cora, Dawson e Callan Foto: Getty Images

O próprio marido de Lindsy pede compaixão, criticando julgamentos precipitados. "A verdadeira Lindsay era uma mulher generosa e carinhosa com todo o mundo", escreveu, movendo, inclusivamente, processos contra os médicos que acompanharam Lindsay e desvalorizaram o que sentia.

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No entanto, a acusação pede mão pesada para Lindsay, que descreve como "fria e calculista". "Sabia exatamente o que estava a fazer", disse no julgamento a procuradora Shanan Buckingham. As alegações finais do caso estão marcadas para a próxima segunda-feira, dia 25 de agosto, e só depois disso o júri começará a deliberar, numa decisão final que poderá demorar horas ou dias a ser tomada.

Lindsay Clancy, acusada de matar os filhos, enfrenta julgamento nos EUA Foto: Getty Images

O DEBATE PÚBLICO QUE SE ACENDEU

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Quer pela magnitude, pela vida de três crianças que se perderam ou pelo estado psicológico desta mãe, a verdade é que o debate se acendeu nas redes sociais e na esfera pública, com muitos a defenderem Lindsay - sobretudo mulheres - e uma ala mais conservadora a pedir uma condenação veemente.

Em Portugal, as posições assumem, igualmente, polos opostos. "Três crianças foram mortas pela própria mãe. Mas, perante o caso de Lindsay Clancy, grande parte da atenção virou-se para ela, para a sua dor e para a sua história. Compreender não pode significar desresponsabilizar. E muito menos esquecer as verdadeiras vítimas. Quem fala pelas crianças quando elas já não têm voz?", criticou a deputada do Chega Rita Matias, enquanto Iva Domingues chamou a atenção para as dúvidas que o caso lhe suscita, elogiando o trabalho do advogado de defesa de Lindsay Kevin Reddington, cimentado no discurso da empatia.

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"Kevin Reddington foi extraordinário. Não apenas pela competência e pela forma minuciosa como construiu a defesa de Lindsay, mas pela maneira como o fez: com uma compaixão, uma sensibilidade, uma empatia e uma assertividade extraordinárias. E talvez o mais importante tenha sido isto: não nos deixou olhar apenas para aquela noite. Fez-nos olhar para tudo o que veio antes. A deterioração da saúde mental, os pedidos de ajuda, os tratamentos, os sinais que existiam e aquilo que, algures no caminho, ninguém conseguiu juntar. E é impossível acompanhar este julgamento e não pensar na saúde mental das mulheres,e no tanto que há para fazer e discutir, sobretudo no pós-parto", escreveu, numa reflexão aplaudida pela atriz Matilde Breyner. "Muita coisa falhou no apoio a esta Mãe. E maior parte das pessoas que julgam e não compreendem, são homens. E isso diz muito sobre este assunto. Podemos sentir empatia por esta MÃE sem por isso minimizar a morte das crianças. Compreender não é justificar. Ter compaixão por quem estava doente não é ter menos compaixão por quem morreu. As duas coisas podem coexistir."

Lindsay Clancy com os filhos Foto: D.R.
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No entanto, essa não é a visão de outros tantos e o cantor Miguel Cristovinho foi bem mais duro ao abordar o caso, olhando para a perspetiva das vidas dos menores, que foram ceifadas.

"Assumindo que ela é culpada e condenada, tenho de vos dizer que é chocante ver pessoas aqui na net a ponderar ver sequer defender uma mulher que foi capaz de tirar a vida aos seus três filhos porque, coitada, a saúde mental no pós-parto é mesmo tramada. Há limites para a compaixão e as pessoas que cometem atos de violência contra crianças, seja em que circunstâncias for, abdicam eternamente do seu direito à liberdade e à compaixão da sociedade", escreveu o artistados D.A.M.A., mostrando o outro lado de um debate que está aceso e que coloca, entre tantas outras coisas, a questão da saúde mental das mães em cima da mesa.

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