As palavras arrepiantes dirigidas a Lara, a menina que foi morta às mãos da madrasta: "Desculpa-nos. Não te protegemos"
Perdeu a vida aos 8 anos por causa de uma vingança vil contra o seu próprio pai. Asfixiada até à morte pela madrasta Eulália.Lara, de apenas oito anos, foi atraída para um plano maquiavélico e antecipadamente arquitetado por Eulália, a mulher que partilhava a vida com o pai da menina. Movida pelos ciúmes e por um cruel sentimento de vingança, esta mulher de Valpaços asfixiou a criança para ferir o companheiro naquilo que sabia que mais o magoaria.
Depois de ter assumido o crime, Eulália, mãe de três filhos, está em prisão preventiva. Chocado com esta morte, tal como o país inteiro, o escritor Pedro Chagas Freitas escreveu uma espécie de carta à pequena Lara: "Desculpa-nos. Não te protegemos. Deixamos-te sozinha no meio das nossas guerras, das nossas misérias. Tinhas oito anos. Não devias preocupar-te com o ódio asqueroso dos que se dizem maiores do que tu, não devias morrer por causa dele."
Continua Chagas Freitas: "Tenho vergonha da minha espécie. A vingança é uma doença fatal. Uma das doenças mais letais que o ser humano inventou. E sobretudo uma das mais estúpidas: uma das mais mentirosas. Promete terminar uma dor, reparar a injustiça, equilibrar a balança, devolver aquilo que foi perdido."
Acrescenta ainda o conhecido escritor: "Mentirosa. A vingança não devolve nada; só rouba mais, e mais, e mais. Acrescenta cadáveres, sofrimento, dor, escuridão. A vingança é uma besta com fome infinita. Começa numa pessoa, depois avança para outra, e outra, e outra. Num instante, já não sabemos onde começou, de onde veio. Há famílias inteiras destruídas assim, pessoas que passam décadas a alimentar uma ferida que acaba por se tornar na única identidade que lhes resta."
E termina esta carta dirigida à menina: "A vingança cria sacerdotes do próprio sofrimento. Gente que pensa espalhar justiça e que só espalha monstruosidade. Eu acho que é no meio da m**** da vingança que nascem os monstros. Todos os vilões começam numa vingança. Tu sabias, não sabias, Lara? Quem passa demasiado tempo a conversar com o monstro deixa de distinguir a sua voz da dele. Não quero justificar o que te fizeram. Há coisas que não podem ser absolvidas. Podem ser analisadas, estudadas. Não podem ser absolvidas. As crianças vivem dependentes da bondade dos adultos. Não escolhem os pais, as casas, os conflitos, os ambientes, as guerras. São colocadas no centro delas, esperam que nós façamos o nosso trabalho. É o contrato mais básico da humanidade. O mais sagrado de todos. Não o cumprimos, Lara. Não o cumprimos. Acredito que a grandeza de uma sociedade se mede pela forma como trata quem é incapaz de se defender: uma criança, um idoso, um doente, todo e qualquer vulnerável. É aí que se vê quem somos. Somos uns trastes, Lara. Nenhuma guerra entre adultos vale uma criança. Desculpa, desculpa. Descansa em paz. Se conseguires, perdoa-nos."