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Saio da redação, ainda na rua João Crisóstomo, em Lisboa, para entrevistar Pedro Lima. Na altura, o eterno galã da ficção nacional vestia a pele do padre Romeu, na novela ‘Queridas Feras’. A expectativa sobre esta produção, que acabou por se revelar de enorme sucesso na televisão portuguesa era elevada, daí a necessidade de conseguir verter para o papel muitas novidades sobre a trama.
"Não vai ser fácil", pensei várias vezes durante a viagem até ao Badoka Park, um parque natural fabuloso, onde se gravaram muitas das cenas da novela. Por entre as notas que trazia numa folha branca recordo-me que destaquei com um sublinhado mais carregado a seguinte frase: Pedro Lima é muito recatado.
O alerta lançado pelo Hugo Alves, ainda hoje jornalista da 'TV Guia', companheiro de muitas batalhas e para mim a maior sumidade jornalística em termos de ficção nacional, era para ser levado a sério. Como iria eu arrancar de Pedro Lima uma notícia exclusiva sobre o projeto?
Estava muito calor naquela tarde de maio e foi o Pedro que sugeriu conversarmos mais abrigados numa sombra. Pedidos os cafés e ainda sem ligar o gravador faço uma referência ao facto de também ter nascido em Angola como ele.
A partir daí a conversa acabou por se desmultiplicar em memórias e referências entusiastas à cultura africana que nos moldou o caráter. Num ápice, já estávamos a partilhar o orgulho comum de termos nascido em África, as tardes e noites passadas em família à volta de uma mesa repleta de muita comida e bebida.
Quase uma hora depois o gravador finalmente começou a trabalhar. Da conversa não resultou nenhuma capa ou manchete para a revista, mas ficou a certeza de ter selado uma relação muito saudável com alguém que se veio a revelar um dos atores mais versáteis e talentosos da televisão portuguesa.
O facto de ter trabalhado durante muitos anos na melhor revista de televisão do país ('TV Guia') ofereceu-me um mundo que poucos conseguem ter neste meio e deu-me também a oportunidade de me cruzar com os melhores de sempre.
O Pedro Lima era um deles. À frente e por detrás das câmaras. Conheci o profissional dedicado e acompanhei a grande história de amor que construiu ao lado de Anna Westerlund e dos filhos que tanto amava.
Se pudesse voltaria a marcar uma entrevista com o Pedro para o ouvir, com atenção, sem ligar o gravador, tal como aconteceu há 16 anos. Descansa em paz, campeão.