A nova Letizia: como a rainha se moldou para proteger a família e o império que construiu
Depois do escândalo de infidelidade com o antigo cunhado, Jaime del Burgo e das acusações do sogro, Juan Carlos, a rainha ergueu muros em torno da sua vida mais pessoal. Sorridente em público, poucos sabem, efetivamente, como gere a sua vida mais privada, com a mulher de Felipe VI a confiar em cada vez menos pessoas e a tudo fazer para proteger o seu 'castelo'.Letizia é uma figura da realeza bastante acarinhada. No entanto, é também das que mais sofrem com o assédio público, com o forte interesse em torno da sua vida a ditar algumas situações menos felizes e dissabores para a mulher de Felipe VI que, sobretudo nos três últimos anos, não tem tido paz.
Tudo começou com as acusações de que tinha sido infiel ao marido com o seu antigo cunhado, Jaime del Burgo. Um escândalo que se abatia sobre a Casa Real espanhola e que, durante quase um ano, colocou a vida dos reis de pernas para o ar. Perante o escândalo, urgia que Felipe e Letizia se mostrassem cada vez mais unidos, mas o esforço não era acompanhado por uma crença geral, pelo contrário. Cada vez soavam mais vozes a dar conta de que aquilo que unia os monarcas não era mais do que uma fachada, um jogo de interesses, que mantinham sob as regras de um contrato assinado. E que perante as especulações, Felipe VI tinha perdido a fé no casamento.
Sobre o tema, nunca houve uma reação oficial, sendo que a arma para lidar com a situação seria a mesma que o casal optaria perante a maioria dos temas complicados que os assolariam nos tempos seguintes, e teriam várias a colocá-las à prova.
Uma das situações mais tensas aconteceu quando, já dias depois de terem ocorrido as trágicas cheias em Valência, em 2024, com o balanço de mais de 200 mortos, foram recebidos com raiva por parte dos populares, com o episódio a trazer alguns ensinamentos para os reis: teriam de ser mais terra a terra e estar ao lado do povo se queriam garantir mais simpatia popular.
Nesse sentido, ao longo do último ano, temos visto uma Letizia mais próxima daqueles que visita. Já a vimos com bebés ao colo, em discursos humorados em eventos e galas, em gestos de carinho para com as filhas, mostrando uma maternidade de proximidade, e também em pequenas atitudes, quase impercetíveis durante o ano, mas que depois revertem a favor da rainha.
Foi o que aconteceu recentemente quando se soube que, de entre os vários elementos conhecidos da realeza, tinha sido a que menos havia gastado em roupa, repetindo muitas vezes peças e, quando necessário, estreando, mas com muito mais contenção do que no passado.
A GUERRA COM O SOGRO
Toda a vida se soube que a relação entre Juan Carlos e Letizia não era salutar, mas até aqui nada era muito mais claro do que rumores que corriam no Palácio de um relacionamento tenso, que muitos atribuíam ao feitio incompatível dos dois. E se dúvidas houvesse, desde que o rei emérito rumou ao seu exílio, nos Emirados Árabes Unidos, que houve como que uma confirmação dessa distância. Enquanto, por ocasião de aniversários ou datas importantes, outros membros da família real rumavam ao Dubai para estar ao lado de Juan Carlos, tal nunca se viu da parte de Letizia ou Felipe VI. Estava erguido um fosso no clã, que de alguma forma parece intansponível.
O assunto é pela primeira vez clarificado pelo próprio monarca, de 87 anos, numa altura em que publica as suas memórias de vida, reunidas no livro 'Reconciliação'. Com uma saúde cada vez mais débil e longe de casa, a obra soa a ajuste de contas com o passado e também a uma vontade de não deixar pontas soltas, mas sim, tudo esclarecido.
Sobre a nora, Juan Carlos admite que sempre teve um ascendente forte na vida de Felipe e que as mudanças começaram logo no início da relação, com este a afastar-se "não só dos pais e das próprias irmãs" como também de alguns amigos de infância. No entanto, admite que apesar de se ter apercebido disso desde muito cedo, nunca tentou interferir nas escolhas do filho. “[Felipe] tinha trinta e quatro anos e sabia o que queria. Assim como com as minhas filhas, que se casaram com os homens que amavam. Nunca tentei influenciá-las ou fazer de cupido. E se tentei, foi em vão”, pode ler-se no livro.
Apesar das divergências, Juan Carlos tinha esperança que, com o passar dos anos, pudesse haver uma maior harmonia na família, algo que, admite, nunca aconteceu e que o rei fazia para que não fosse notório nos compromissos públicos em que tinham de estar juntos. "O sucesso deles enquanto casal era uma garantia para o futuro da Coroa."
A maior dor, afirma agora Juan Carlos, prende-se com o facto de a má relação com Letizia ter interferido na convivência com as netas, Sofia e Leonor, que o rei emérito afiança que, apesar de afetuosa, nunca foi cúmplice, à semelhança do que acontecia com os seus outros netos.
“Elas são muito elegantes e afetuosas, mas entristecia-me não poder estabelecer um relacionamento mais pessoal com elas, contar histórias, partilhar refeições em restaurantes, viajar com elas, levá-las a assistir a jogos, como fazia com os meus outros netos."
No livro, Juan Carlos elogia a forma como o filho e a nora educaram as filhas, mas diz que sempre lhes faltou esse contacto próximo com a família, algo que não era apenas dirigido a si, mas também à mulher, a rainha Sofia. "A minha mulher nunca pôde recebê-las sozinha em Palma, como costuma fazer com todos os seus primos. Ela via as netas ocasionalmente, mas adoraria tê-las visto com mais frequência, especialmente porque moram a apenas cem metros de distância. Queria transmitir-lhes a nossa genealogia, história e valores familiares. E alguns conselhos de uma ex-rainha com um histórico impecável para uma futura rainha", disse, acusando Letizia de não se esforçar por contrariar a sua natureza e de ter tentado criar pontes entre a família, ao contrário do que ele próprio afirma ter feito. “Sempre fui um lobo solitário (foi assim que fui criado), mas cumpri o meu papel de homem de família de coração: reunia os meus filhos com a avó para o almoço de domingo, as minhas irmãs e as suas famílias para o Natal, e sempre estive disponível para meus primos, sobrinhos e sobrinhas, e meus muitos afilhados.”
Afirmações que vão de encontro àquilo que a especialista em realeza espanhola Pilar Eyre já tinha relatado num dos seus livros em que, a páginas tantas, é descrita uma confissão polémica que Juan Carlos teria feito a um amigo de infância. "Na minha família, ninguém gosta da Letizia. As princesas não a suportam. Ela dividiu-nos a todos, monopolizou o príncipe e até o afastou da mãe! A minha casa é um caos!"