Como Nuno Morais Sarmento enfrentou a morte de frente. Passou por 12 cirurgias, esteve dois anos internado e chegou a despedir-se dos filhos, mas nunca desistiu: "Se alguma vez baixei os braços? Não"
Nuno Morais Sarmento tinha anunciado em janeiro a sua saída da presidência da FLAD por motivos de saúde, lançando o alerta sobre uma recidiva na luta contra o cancro. Uma batalha que bem conhecia e que enfrentou de frente, recebendo dos médicos a alcunha de 'doente rebelde'. Depois de ter descido aos infernos ao lutar contra um agressivo tumor no pâncreas, teve alta e, mais do que nunca, aproveitou os pequenos prazeres da vida, ainda que sempre com a consciência do machado que pairava sobre si. "Fisicamente não estou recuperado. Tomo não sei quantos medicamentos por dia, que é uma coisa que me incomoda. Tento fazer a vida normal e isso dá-me um gozo. Um dia normal pode ser para mim um dia de extraordinária satisfação. Morreu este sábado, aos 65 anos.Em janeiro, a dias de completar 65 anos, a notícia de que Nuno Morais Sarmento tinha decidido deixar a presidência da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD) gerava alarme no meio político e entre aqueles que sempre o estimaram, e rumores de que o antigo ministro podia ter tido uma recaída no seu complicado boletim de saúde. Na altura, era publicamente revelado que a saída do ex-político se devia ao facto de "não poder, neste momento, garantir as condições pessoais e de saúde necessárias à completa realização das funções", uma vez que se adivinhava um ano exigente e de grandes desafios.
Em comunicado, a fundação revelava ainda que a demissão tinha sido aceito "com efeito a partir do dia 5 de Janeiro" e adiantava que "os próximos anos, especialmente o de 2026, em que a FLAD comemora os 250 anos da independência dos Estados Unidos da América (EUA), serão de grande exigência, obrigando a um elevado número de viagens de longo alcance, como é o caso das viagens para os EUA", algo que a saúde de Nuno não lhe permitiria cumprir.
Depois do anúncio, a notícia era clarificada. Nuno Morais Sarmento tinha, efetivamente, desafios maiores em mãos. Paulo Sande, especialista em assuntos europeus e ex-consultor do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, veio a público, nas redes sociais, expor o que realmente se passava, e revelar o momento crítico de saúde que travava o antigo ministro do governo de Durão Barroso. "Não é segredo para ninguém, e ele próprio nunca o escondeu, que combate há anos um cancro agressivo, combate feito com o estoicismo e a coragem que sempre o caracterizaram", recordava o amigo, lembrando como, depois de ter estado 18 meses hospitalizado - cinco dos quais nos cuidados intensivos e de ter sido submetido a 12 operações com anestesia geral e três intervenções com anestésicos mais ligeiros - "ainda participou, ainda muito debilitado, em novembro de 2023, num Congresso do PSD".
Dois meses depois de ter apresentado a demissão, Nuno Morais Sarmento foi encontrado morto em casa, sendo que o óbito foi confirmado este sábado, dia 7 de março. É o fim de uma longa batalha pela saúde que Morais Sarmento enfrentou sempre com dignidade, mas sem nunca esconder a dor associada.
Em 2024, já depois de ter saído do hospital após a mais dura batalha da sua vida, o antigo político explicava, no podcast da SIC e do Expresso, 'Tenho cancro. E depois?', ter vivido um inferno na terra durante o tempo em que esteve nos Cuidados Intensivos, tendo chegado a despedir-se dos dois filhos, Francisco e Madalena Maria, e da ex-mulher, Ana Filipa, de quem se divorciou em 2016, mas que esteve sempre à sua cabeceira.
"Saí do hospital com 38 quilos, devo ter tido menos. Quis poupar os meus filhos. De fora era um morto-vivo”. O diagnóstico de cancro no pâncreas aconteceu depois de Morais Sarmento ter vencido um tumor na próstata e exigiu muita perícia da equipa médica que o acompanhava, que não imaginava que os sintomas agressivos que o antigo ministro apresentava se deviam a um novo tumor, bem mais complicado do que o últiomo. No entanto, o pior cenário acabou por se revelar, com Morais Sarmento a começar um verdadeiro calvário. Quando entrou no hospital, estava longe de imaginar que não teria alta nem no mês nem tão pouco no ano seguinte. Passaria quase dois anos hospitalizado, durante os quais foi sujeito a 12 cirurgias.
"Foram-me cortando às postas, primeiro foi o pâncreas, depois a vesícula e depois o baço", diz, aquele que era chamado pelos médicos de 'doente rebelde', pela resiliência e pelo facto de nunca ter desistido, nem nos cenários mais aterradores. "Se alguma vez baixei os braços? Não, isso não. Em momento nenhum da vida", garantia o antigo pugilista. "O que está à frente combate-se e acredita-se que a vida continua. Numa das vezes tive perfeita consciência de estar com um pé lá e outro cá. Lutei contra e tive consciência de ter dado o passo atrás. Fiquei com uma certeza tranquila de que a vida não acaba aqui. Tenho a certeza absoluta por causa desses momentos", resume.
A VIDA DEPOIS DO INTERNAMENTO
Apesar de ter superado o pior, Nuno Morais Sarmento tinha consciência de que o seu boletim seria para sempre complexo e, em outubro de 2024 garantia que a doença estava "em ponto morto" e que não havia muito mais que se pudesse fazer. "Fisicamente não estou recuperado. Tomo não sei quantos medicamentos por dia, que é uma coisa que me incomoda. Às vezes faço jejum intermitente dos remédios e durante uma semana não tomo nada. Tenho remédios para o coração, para o colesterol. Há dores, há incómodos. Tento fazer a vida normal e isso dá-me um gozo. Um dia normal pode ser para mim um dia de extraordinária satisfação. O diagnóstico de cancro é uma etapa, não podemos fugir, temos de passar por ela. Não podemos fingir que não é nada".