O amor que resiste há 60 anos: o drama secreto da mulher de Ricardo Salgado, que se tornou a "timoneira" do clã após a derrocada e sofre com a condição do antigo "dono disto tudo"
O Tribunal confirma que não vale a pena prender quem nem saberá o que lhe aconteceu. Chama até à ida para a prisão do ex-banqueiro de "ato inútil". Quem toma conta do antigo 'Dono disto tudo' agora é a mulher, Maria João Salgado, timoneira à força da família, 'presa' à condição do marido. Mas não é só ela quem sofre. De 1600 lesados do BES 150 já morreram e largas centenas padecem de doenças como a de Salgado. Tudo se arrasta há 12 anos, sem fim à vista.Agora é oficial, Ricardo Salgado, de 81 anos de idade, não vai ser 'convocado' para passar 13 anos na prisão, pena a que foi condenado pelo tribunal e que ficou suspensa devido à doença – Alzheimer – daquele que já foi apelidado de "dono disto tudo". Maria João Bastos Salgado, de 80, mulher de papel passado há 60 anos do ex-banqueiro, mantém-se na condição de "cuidadora oficial de maior acompanhado" do homem com quem se casou no verão de 1965, numa cerimónia privadíssima no Hotel Palácio, no Estoril. Os pombinhos deram então o nó mesmo local que, quatro anos mais tarde, em 1969, serviu de cenário para o filme '007 - Ao Serviço de Sua Majestade', quando James Bond era interpretado pelo ator australiano George Lazenby, mas o bólide Aston Martin do espião herói, que já era um ícone mundial, esteve estacionado à porta do hotel e acelerou nas curvas do Guincho e da Malveira da Serra.
Embora a história de carreira, ou pelo menos de final de carreira, em 2014, de Ricardo Salgado pudesse dar um bom argumento policial para a saga de James Bond, o homem que também já foi considerado um dos dez mais influentes de Portugal, ao ponto de influenciar políticas governamentais e determinar estratégias empresariais, vive hoje alheado da realidade. Desse mesmo pormenor dá conta o acórdão proferido esta semana pelo Tribunal Central Criminal de Lisboa (TCCL) que o livra de vivenciar a experiência da reclusão forçada.
FACTOS QUASE TODOS PROVADOS, SÓ ESCAPA DEVIDO AO ALZHEIMER
O TCCL condenou Ricardo Salgado a 13 anos de prisão, mas a pena será suspensa na sua execução porque o ex-banqueiro sofre de Alzheimer, o que o impede de ter "a plena compreensão da condenação a que foi sujeito". A decisão de suspender a condenação de Ricardo Salgado foi conhecida esta terça-feira, dia 2 de junho, e refere-se apenas a dois dos processos judiciais em que o ex-banqueiro é arguido: São os casos EDP e Operação Marquês, no último dos quais ficou mais do que provado ter desviado 10,7 milhões de euros do grupo GES. Não houve quaisquer dúvidas da parte da juíza Ana Paula Rosa face aos crimes cometidos, com factos quase todos provados em tribunal, que o ex-presidente do Banco Espírito Santo (BES) cometeu delitos. Só o estado de saúde do arguido determinou a decisão final do Tribunal, como a magistrada fez questão de vincar no acórdão.
O arguido Ricardo Salgado já não se encontrava sujeito a medidas de coação restritivas de liberdade, depois de ter estado em prisão domiciliária na sua mansão cor de rosa em Cascais com vista para o mar. Entretanto, em outubro de 2015 foi obrigado pelo juiz Carlos Alexandre a pagar cauções no valor de três milhões de euros (as mais elevadas de sempre em Portugal) e só assim viu as medidas de controlo severas contra si serem levantadas. A juíza Ana Paula Rosa aplicou agora uma pena única de 13 anos de prisão, suspensa pelo mesmo período, considerando que Ricardo Salgado, devido à doença de Alzheimer que lhe foi diagnosticada, não tem condições mínimas de saúde para cumprir pena em clausura num estabelecimento prisional.
"Resulta indubitavelmente que Ricardo Salgado sofre de anomalia psíquica", reconheceu a juíza, depois de a doença lhe ter sido diagnosticada e de esta ter evoluído degenerativamente após praticados os factos pelos quais foi acusado e depois condenado a duas penas de prisão de seis anos e três meses e de oito anos, cujo cúmulo jurídico foi finalmente decidido, tendo-se ainda confirmado a suspensão do cumprimento da pena.
O "DONO DISTO TUDO" É "UMA PESSOA QUE JÁ NÃO EXISTE", DIZ ADVOGADO
Contudo, apesar da condenação e imediata suspensão, o arguido está obrigado a apresentar semestralmente no tribunal relatórios que comprovem o seu estado de saúde. Francisco Proença de Carvalho, advogado de defesa de Ricardo Salgado, recordou, à saída do TCCL, que "esta pessoa da altura dos factos efetivamente não existe", estando, por isso, tal como descreve a perícia médica psiquiátrica, "incapaz de compreender a pena de prisão". Já no dia 26 de maio o procurador Rui Batista, do Ministério Público, defendeu que o cumprimento da pena deveria ser suspenso face à doença de Alzheimer do ex-banqueiro. "Seria um ato inútil sujeitar a uma pena alguém que não a entende", referindo-se ao homem a quem colaboradores e parceiros de investimento chamavam "O dono disto tudo".
O procurador do Ministério Público explicou ainda que a suspensão da pena não significa a extinção da mesma, considerando que o sistema de Justiça deverá "garantir todos os mecanismos necessários para que a pessoa se cure e possa depois cumprir a pena", defende Rui Batista, sendo que, no caso de Ricardo Salgado, por se tratar de uma doença degenerativa, tais melhoras serão impossíveis de ocorrer.
Ainda a 21 de maio último foi divulgada uma perícia forense que concluiu que o ex-banqueiro estava incapaz de compreender o motivo para cumprir pena. "Ainda que possa conservar uma compreensão muito genérica da existência de um processo judicial, tal será tão somente a replicação mecânica de indicações de que está em contexto pericial, sem integrar a verdadeira noção axiológica do processo, nomeadamente a relação entre os factos e a pena, o motivo pela qual ela lhe é aplicada, a duração da mesma e a finalidade da sua execução", refere um relatório pericial, datado de 11 de maio, a que Agência noticiosa Lusa teve acesso.
A NOVA "DONA DISTO TUDO", MARIA JOÃO, A CUIDADORA AFOGADA EM PAPÉIS
Com a decadência física e mental de Ricardo Salgado, a família Espírito Santo, no ramo Salgado, passou a ter em Maria João a sua timoneira, não o homem mas a mulher do leme. A mulher que nasceu em Moçambique na década de 1940, viajou pelo mundo em veleiros de luxo e a quem nunca faltou nada, viu-se obrigada a assistir à queda com estrondo do marido, que inclusive passou de auferir uma reforma de 20 mil euros para receber apenas 1200 mensais, por força das penhoras judiciais para pagar aos credores. É ela quem passa o dia a evitar que o marido caia, a ajudá-lo a comer ou a acalmá-lo nas horas de maior agitação ou ainda a ouvir o seu discurso errático sobre coisas básicas do dia a dia, todos eles sintomas típicos desta patologia degenerativa. É também ela quem, na nova casa, mais modesta e pequena, dentro do complexo habitacional da família em Cascais, ao estilo da mansão Carrington, da série televisiva norte-americana 'Dinastia', muito popular no pequeno écrã nos anos 80 do século passado, analisa contas, desfolha dossiers, reune com advogados e toma todas as decisões que realmente impactam a vida do clã Salgado.
Descrita pelas pessoas que lhe são mais próximas como "uma pessoa extremamente inteligente, culta e que sabe estar", Maria João Bastos Salgado sempre preferiu viver à sombra das luzes da ribalta mediática em que o marido surgia. Fugiu dos grandes palcos e mesmo nos tempos áureos do BES (atual Novo Banco) deixou o protagonismo todo para o marido. Aparecia em algumas partidas do Estoril Open, no arranque da Feira da Associação Novo Futuro, onde fazia trabalho voluntário, mas foi sempre uma mulher que, mesmo nos anos tensos de derrocada do Império BES, nunca cedeu à catástrofe ou ao fatalismo: ergueu a cabeça e assumiu-se como a líder da casa, com a missão de guiar o marido perdido para inevitabilidade da degeneração provocada pelo Alzheimer.
Maria João reformulou a vida do casal, deixou a mansão com vista para o mar e começou a habitar uma moradia mais pequena dentro da propriedade que também possui capela privada, que uma vez por semana se abre ao público para uma celebração religiosa, e converteu a nova morada numa estrutura de apoio médico e enfermagem para acompanhar a doença do marido, que incluem diminuição da incapacidade cognitiva ou desorientação, tendo-o por causa disso o Tribunal Local Cível de Cascais declarado "incapaz de gerir a sua pessoa e bens".
Desde 2021 que Maria João Salgado ganhou em mãos um trabalho inesperado: tomou o lugar do marido, então oficialmente diagnosticado com Alzheimer, e passou a estudar o Código Penal, a ler extensos dossiers e a tomar conta de contas do casal, matéria sobre a qual pouco ou nada saberia. Toma decisões a pensar naquilo que Ricardo Salgado faria no seu lugar. "No fundo, agora é ela quem sofre e suporta os processos, o que é uma das grandes injustiças disto tudo", revela ao jornal online 'Observador' uma fonte familiar, acrescentando que, nos últimos tempos, amigos e pessoas conhecidas se aproximaram dela para a ajudar. Descrita como forte e resiliente, não verga e toma agora as dores de toda uma família.
LESADOS DO BES ESTÃO A MORRER OU SOFREM DA DOENÇA DE RICARDO SALGADO
Ricardo Salgado não se recordará do que fez ou poderá cumprir pena pelos crimes que cometeu, mas dos 1600 lesados do BES que se juntaram e criaram uma associação para defenderem os seus interesses, desses, 150 já morreram, passando o legado para os herdeiros, segundo recorda a publicação online 'Jornal PT50'. Passaram-se quase 12 anos após o processo de resolução que determinou a queda do Grupo Espírito Santo (GES) e esta mesma publicação avança com dados nada positivos quanto ao futuro do processo que se arrasta na justiça e nos gabinetes de advogados, sem acordo final à vista que minimize os danos patrimoniais e pessoais causados a terceiros pelo antigo banco liderado por Ricardo Salgado. "A idade média dos mesmos situa-se atualmente entre os 73 e os 75 anos, o que coloca muitos deles numa situação de especial vulnerabilidade, dependentes de uma resposta que tarda em chegar", escreve o mesmo órgão de comunicação digital.
Outra realidade, menos visível e potencialmente ainda mais preocupante, é que, nos casos de falecimento, os processos judiciais não chegam sequer a prosseguir. A razão é simples – os familiares não dispõem, em muitos casos, de meios financeiros para suportar os custos associados à continuação das ações judiciais, o que leva ao abandono dos processos. Na prática, isto significa que, para familiares de muitos lesados, a possibilidade de justiça extingue-se com a morte dos mesmos. Há, segundo o 'Jornal PT50' "registo de lesados em estado de saúde muito debilitado, incluindo pessoas com doenças oncológicas, Alzheimer, Parkinson e outras patologias graves, que continuam à espera de uma decisão mais de dez anos depois dos acontecimentos que levaram à queda da instituição financeira".