Vamos aos factos: de onde vem a queixa de assédio contra Cotrim de Figueiredo, quem sabia do caso e como o político está a tentar dar a volta à polémica... a seu favor
Há novos desenvolvimentos do caso em que Inês Bichão acusa João Cotrim de Figueiredo de assédio sexual no trabalho. Antiga assessora da Iniciativa Liberal diz que a denúncia não é de agora, que relatou o sucedido ao próprio partido e que vai avançar com uma queixa na Justiça. Enquanto 30 mulheres se juntaram para defender o político, houve outras que vieram a público dizer que há um ano e meio a advogada lhes pediu ajuda, relatando aquilo que tinha vivido no trabalho.Se é certo que, como no futebol, as contas só se fazem no final, a última sondagem da Católica - na qual Cotrim de Figueiredo surge em terceiro lugar - levantou o moral ao candidato à Presidência da República que, depois das polémicas dos últimos dias, não tem poupado esforços em correr a apagar todos os fogos como melhor sabe: a fazer 'barulho' nas redes sociais. Mas se o caso em que admitiu que na segunda volta estaria disposto a votar em André Ventura - e que depois desmentiu - vai caminhando para um esquecimento morno, o mesmo não se pode dizer da controvérsia em torno da denúncia de Inês Bichão, antiga assessora da Iniciativa Liberal, que o acusa de assédio, e cujos contornos começam agora a ser esclarecidos.
Tudo começou quando uma publicação da advogada, da sua conta privada de Instagram, foi tornada pública - algo que Inês diz ter ocorrido sem o seu consentimento. Ora, nesse texto, a antiga assessora falava sobre Cotrim de Figueiredo para denunciar os alegados ilícitos que tinha vivido em contexto laboral e tudo por causa do assédio do seu superior.
"Não vou esquecer o que acontece às pessoas que não fazem o que ele [Cotrim de Figueiredo] quer ou que pensam diferente de si. E dos telefonemas que faz logo a seguir para minar propostas de trabalho", escreveu Inês Bichão para acrescentar: "Que me acuse daquilo que quiser, se tiver ponta por onde pegar. Calada estive eu e assim vou continuar, porque não merece que a minha vida seja prejudicada por aquilo que ele fez. Não suporto a ideia de o ver em Belém, com o Octávio, com o Bernardo e com o Ricardo (figuras da Iniciativa Liberal)". Na mesma publicação, Inês descrevia os tipos de assédio de que seria alvo.
"Nunca vou esquecer as várias vezes em que bloqueei quando me disse 'Excelente trabalho, só falta abrires as pernas comigo', 'De que tipo de homens gostas?', 'Mais grossa ou mais comprida?'"
Ao vir a público, a denúncia - desmentida por Cotrim - explodiu como uma 'bomba', mas depressa os dedos se apontaram à advogada, que era questionada sobre o timing em que dizia tal palavras. Um grupo de 30 mulheres uniu-se para defender Cotrim - entre as quais Iva Domingues, que em tempos se afirmava assumidamente feminista - garantindo que nunca presenciaram "atitudes inadequadas" por parte do político, o que, na verdade, não impediria que este tivesse cometido algum ilícito.
e Inês Bichão, ex-assessora do grupo parlamentar da IL, como o facto de a advogada garantir que deu conhecimento ao partido e não apenas agora, contrariando a ideia que se trata de uma campanha suja que apareceu agora por ter hipóteses como candidato presidencial.
Com a vida exposta em praça pública, Inês Bichão tinha, na verdade, duas opções: recuar ou avançar e explicar o que aconteceu. Decidiu-se pela última, através de um comunicado enviado à Lusa em que explicava que não, não pretende "dinamitar" a campanha de Cotrim - como o próprio a acusou - mas que fez um desabafo privado que, na verdade, já tinha denunciado à própria Iniciativa Liberal em 2023, sem que nada tivesse acontecido. "Essa divulgação está a ser instrumentalizada em contexto de campanha eleitoral, contra a minha vontade, no âmbito da qual não tive nem tenho qualquer intervenção. Os factos em causa foram reportados em sede interna no decurso de 2023", escreveu, acrescentando que formalizará uma queixa-crime, pelo que o assunto será esclarecido nos tribunais.
Mais uma vez, a Iniciativa Liberal apressou-se a desmentir o caso. "É completamente falso que tenha havido qualquer queixa interna ou reporte, formal ou informal, sobre o candidato Presidencial João Cotrim Figueiredo", afirma a IL em comunicado, garantindo que se trata de uma "campanha suja" que lança "acusações muito graves sem qualquer evidência ou prova".
Apesar dos dedos que se apontam a Inês também houve quem viesse a praça pública defendê-la e até mesmo mostrar que este é um assunto há muito comentado, não de agora.
Através de uma publicação nas redes sociais, Júlia Garraio, Maria João Faustino, Rita Santos e Sílvia Roque — autoras do livro '#Me Too – Um Segredo Muito Público: Assédio Sexual em Portugal' explicaram que o testemunho de Inês lhes chegou há quase dois anos.
"No dia 13 de junho de 2024, quando apresentámos o nosso livro na Feira do Livro de Lisboa, uma mulher jovem veio ter com uma de nós e contou como estava a passar uma fase difícil da sua vida devido às situações de assédio sexual de que era alvo por alguém muito influente na IL. Ontem soubemos o nome dessa mulher quando a sua fotografia surgiu na comunicação social. Essa jovem mulher era Inês Bichão", pode ler-se no texto, que alerta para a crítica fácil a quem denuncia e a empatia em torno do alegado agressor.
Entre os que acusam e os que defendem e todos os que serão chamados para testemunhar caso Inês Bichão avance, efetivamente, para tribunal, certo é que, em vésperas de eleições, este caso promete continuar a dar que falar.