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Em altas ou a "cavar um buraco"? Os inimigos, os riscos que Joana Marques está disposta a correr e a 'linha vermelha' do humor em Portugal

Quando se pensava que com a polémica dos Anjos já se tinha debatido o humor de Joana Marques de todos os ângulos, eis que a profissional da Renascença volta às grandes controvérsias, depois de ter brincado com o diagnóstico de "neurodivergência" de Mafalda Matos. Entre os que a atacam, as queixas na ERC e quem sai em sua defesa, coloca-se novamente a questão se há 'linhas vermelhas' para o humor em Portugal.
Rute Lourenço
Foto: Instagram

O tema foi dos mais debatidos ao longo do último ano, a propósito do julgamento dos Anjos, que garantiam sentir-se lesados após um momento em que Joana Marques brincava com a atuação da dupla à margem de uma prova desportiva. Durante as várias sessões de julgamento, foram ouvidos uma série de testemunhos e levantou-se uma questão: há, afinal, limites ao humor ou estabelecê-los seria também uma forma de limitar a liberdade de expressão? A sentença absolveu a humorista com a juíza a deixar o seu parecer. "Já foi suficientemente explicada a razão pela qual este tribunal considera que não ficou provado que foi a publicação da ré que deu origem à polémica que afetou a vida e o negócio dos primeiros [dos Anjos]. (…) Da prova produzida resultou que sofreram com os acontecimentos mas não foram trazidos aos autos elementos que permitam afirmar que esse sofrimento tem como causa a conduta de Joana Marques."

Antes disso, Joana Marques também já havia abordado o assunto para garantir que o seu humor livre era sinal de que vivemos numa democracia saudável. “O que é saudável é todos falarmos uns dos outros. Porque é que um influencer ou um apresentador de televisão havia de ter um estatuto diferente em que ninguém pode falar dele? Faz parte do jogo, às vezes dá a ideia de que as pessoas queriam ter só uma parte, mas é um pacote. Há muita gente que pensa: não, eu quero ser conhecido e só ter a parte boa, que é ir ali a um restaurante e de repente o senhor arranja-me uma mesa especial, mas depois não quer que alguém possa olhar para o meu trabalho e ter uma opinião diferente da minha. Faz parte e eu não tenho problema nenhum das pessoas que não acham graça nenhuma. É sinal de que vivemos num País democrático e eu prefiro assim.”

Mas quando se pensava que este era já um assunto engavetado, a questão voltou mais premente do que nunca, e tudo por causa do episódio do 'Extremamente Desagradável' que a humorista dedicou a Mafalda Matos, depois de a atriz ter revelado que era "neurodivergente" (refere-se a uma condição onde a pessoa apresenta diferenças neurológicas, comportamentais, de comunicação e aprendizagem fora do padrão esperado pela sociedade.) "Quando a coisa com R já não está muito fácil e então trocam pelo U", diz Joana Marques. "O R de artista pelo U de autista. Quando as coisas na música ou na representação não correm talvez tão bem como o desejado, estas pessoas vão em busca de explicações e invariavelmente encontram o autismo", brincou Joana, o que levou a várias reações, inclusivamente da própria, que em lágrimas garantia estar devastada depois de ter sido alvo do humor de Joana. Mafalda Matos reagiu afirmando que "julgamento, humilhação e piada em torno de uma pessoa com autismo é totalmente vergonhoso e de uma extrema falta de responsabilidade social", acrescentando que mascarar sintomas “é uma das coisas mais nefastas” para quem tem autismo, podendo levar “a burnout e, em última instância, tirar a própria vida“. “Um autista tem dez vezes mais possibilidade de cometer isso“, desabafou, afirmando que planeou isso mesmo há cerca de três anos e no último domingo, 26, reviveu o trauma. 

"Vocês são uma rádio católica! O que é isto? Deviam ter vergonha na cara! Joana Marques, não foste ter com o Papa? Ele não te disse que humor não é humilhação. Pega neste vídeo e faz outro… Que insano! Espero que nunca tenham uma notícia má. Vou fazer o máximo para que não seja minha", rematou.

O debate tornou-se muito mais acalorado, com os chamados 'inimigos' da humorista da Renascença a virem a público lamentar mais um episódio relacionado com aquilo que consideram o 'bullying' de Marques. Gustavo Santos acabaria por dar voz à sua indignação através de um vídeo em que deixava muito pouco por dizer.

“Joana, durante o próximo minuto vou fechar os olhos a um dos meus principais valores, a compaixão, e dizer-te isto: aquilo que tu fazes é uma m***a. Aliás, a tua equipa, quem te emprega, que te patrocina, quem te premeia, é tudo uma m***a”, começou por afirmar, vaticinando um futuro pouco risonho para a inimiga.

Mas podes ter a certeza de dois coisas, Joana, nós vamos todos assistir à tua queda, vamos todos ver-te cair no buraco que tu própria estás a cavar. E depois, em algum momento, eu passarei por ti e, ao ver-te lá em baixo, vou fazer-te uma pergunta. Queres acordar, Joana? Acordar para o amor? E se tu estiveres a fim, eu esticarei o meu braço, dar-te-ei a minha mão e ajudar-te-ei a sair do lugar onde tu própria te puseste, para que depois possamos os dois caminhar juntos e fazer coisas bonitas”, garantiu.

E terminou com uma mensagem mais ‘dura’: “Até lá, neste tempo que medeia o agora e o teu grande despertar, consola-me- a mim e a muitos acordados como eu, que veem o que eu vejo- saber que, apesar de poderes não estar consciente em relação à m***a que fazes, sabes melhor do que todos nós a m***a que és. Um forte abraço, acorda Joana e acorda Portugal”.

Do lado de Joana Marques, Ana Bola acabaria por reagir, chamando a atenção para o perigo dos diagnósticos que hoje em dia se podem apregoar nas redes sociais, alertando para a importância de se recorrer aos profissionais de saúde certos.

"Antes de se declararem autistas ou neurodivergentes vão ao médico e façam os inúmeros testes e exames que vos confirmem a 'doença'. O autismo é uma doença séria e muito incapacitante para o doente e para os familiares. Fala-se disso com uma ligeireza como se fosse uma constipação ou uma dor de barriga. Não é", começou a dizer Ana Bola.

"A informação do amigo Chatgpt não chega. Não usem isso para se promoverem. É muito feio, muito feio mesmo. Há quem já tenha usado o cancro para o mesmo efeito, mas passou de moda. Tenham mas é juízo", acrescentou, sublinhando depois que errou ao definir o autismo como "doença""Editei o post porque percebi agora que o autismo não é doença. Está explicado num dos comentários".

O PREÇO A PAGAR E A 'LINHA VERMELHA' DE JOANA MARQUES

Depois de mais uma grande polémica em torno da humorista, a pergunta volta a pairar no debate público: há linhas vermelhas para o humor? E quando falamos de doenças ou alguém que esteja mais vulnerável, as regras do jogo continuam a ser as mesmas? O caso é semelhante ao dos Anjos ou há matéria para novo debate judicial?

Até ao momento, Joana não voltou a tocar no tema, que já motivou queixas na ERC, não se sabendo se este é apenas mais um fogacho das redes sociais ou terá consequências futuras. Até lá, certo é que o mediatismo de Joana Marques não para de aumentar, sendo, aos 40 anos, considerada já uma das figuras públicas mais poderosas do país.

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