Depois do pesadelo do verão de 2007, Kate e Gerry McCann regressavam ao Reino Unido, com os gémeos Sean e Amelie para aquela que seria a sua nova vida a partir de então: sem Maddie, desaparecida tragicamente no Algarve e com um vazio insuportável para lidar. Para os pais, ambos médicos de profissão, o peso dos acontecimentos era avassalador, mas por outro lado os filhos, de apenas 2 anos, lembravam-nos todos os dias que era urgente algum sentido de normalidade à vida. E foi assim que nesse outono os inscreveram na natação.
O desporto sempre fez parte da vida da família – a fotografia de Maddie com as bolas de ténis na mão correria o mundo e, mesmo depois do trágico desaparecimento da filha na Praia da Luz, Kate continuava a sair para correr, o que horrorizou muita gente na época. Por isso, a natação acabou por ser uma escolha natural para os gémeos, que enfrentavam um período de mudanças, ainda que fossem incapazes de as assimilar. No entanto, no seu livro de memórias, Kate contaria que também essa experiência foi tortuosa. Enquanto Amelie se mostrou feliz pelas aulas de natação desde o primeiro dia, Sean agarrou-se às suas pernas a chorar, não queria ir. Nas primeiras vezes na piscina, foi sempre assim que a médica deixou o filho, de coração completamente destruído, com Sean em lágrimas, até que o menino não só começou a gostar como se agarrou à modalidade como fez dela uma espécie de tábua de salvação.
Nunca mais pararia de nadar, levantava-se mais cedo do que todos em casa para o fazer e conciliou sempre o desporto – que passaria a ser de alta competição – com os estudos de Engenharia Química, na Universidade de Loughborough. Por estes dias, viu o seu talento novamente reconhecido ao representar a Escócia nos Jogos da Commonwealth. A competição, que se realiza a cada quatro anos, já arrancou em Glasgow, com Sean McCann, nadador especialista em longas distâncias, a competir nos 400m, 800m e 1500m livres. Nas diversas provas, os pais marcaram sempre presença na bancada com a filha Amelie ao lado.
A VIDA SEM MADDIE E AS PERGUNTAS PARA AS QUAIS NÃO HÁ RESPOSTA
A história dos gémeos Sean e Amelie confunde-se a todo o momento com a tragédia em torno da irmã, Madeleine McCann, que desapareceu de forma nunca esclarecida do quarto onde dormia, no resort Ocean Club, na Praia da Luz, Algarve, onde a família passava férias, em maio de 2007. Os bebés, de 2 anos, estavam no mesmo quarto do que a irmã e toda a sua vida a partir desse momento se modificaria. Cresceram entre as lágrimas dos pais, Kate e Gerry, e os sorrisos que, durante muito tempo, só eles lhes eram capazes de lhes arrancar.
Em casa, era impossível haver tabus. Durante os anos seguintes, o rosto da irmã e as buscas incessantes para a encontrar, estavam por todo o lado, imiscuíam-se nas dinâmicas da família, faziam com que tudo girasse à volta de Maddie, na expectativa de como seria o dia em que a poderiam reencontrar. Desde muito cedo, Kate e Gerry contaram a história aos gémeos, primeiro de forma a que duas crianças pequenas pudessem entender, e à medida que o tempo ia passando, com todos os detalhes que já teriam idade para compreender.
Aos 4 anos, os pais contavam que os gémeos já diziam que queriam encontrar a irmã e quem lhe fez mal e em 2016, ao falar sobre as crianças, então com 7 anos, Kate adiantava que Maddie continuava a ser uma presença muito forte no seio da família. "Os gémeos estão ótimos. Eles cresceram essencialmente sem Madeleine, sabendo que a irmã está desaparecida e querem-na de volta. Eles sabem de tudo, quando nos vamos encontrar com a polícia, etc... Não escondemos nada deles."
Apesar da exposição a que a história da irmã sujeitou os filhos, Kate e Gerry tentaram que os gémeos tivessem direito a crescer como crianças felizes com rotinas normais, dentro da singularidade do seu mundo. Foi por isso, e certamente pelo pânico de quem perde um filho desta maneira, que os McCann cedo deixaram de partilhar imagens das crianças, ainda que não tenham deixado de falar destas e da forma como sempre as envolveram no movimento de tentar encontrar a irmã, o que a dada altura, revelou Kate, seria para os gémeos uma forma de curar os próprios pais da "dor, tristeza, ansiedade, frustração e raiva", com que os viram toda a vida a lidar.
A tragédia é indissociável da vida dos gémeos, mas esse terreno árido foi também uma alavanca para que crescessem com um grande sentido de resiliência e, curiosamente, foi no desporto que Sean e Amelie encontrariam um escape para o peso do mundo paralelo que sempre marcou a sua vida. A rapariga estabeleceu-se como atleta promissora na modalidade de Triatlo, enquanto Sean se revelaria um ás da natação, na cidade onde cresceram, Leicester.
Hoje, com 21 anos, tem no seu currículo diversas medalhas que levam a que seja considerado uma promessa da natação e que seja apontado como uma das estrelas mais promissoras nos próximos Jogos Olímpicos, que se realizam em 2028, na cidade de Los Angeles.
Já Amelie permanece mais arredada dos holofotes mediáticos, mas no ano passsado surgoiu, num ato público de homenagem à irmã, ao lado dos pais, mostrando como está bonita e crescida.
Apesar de, nas suas vidas privadas, preferirem não colar a sua história à da irmã desaparecida, é impossível fugir do interesse mediático em torno de Sean e Amelie, os gémeos que passaram a ser famosos ainda no colo dos pais e que se tornaram, também, um pouco entes queridos de todos aqueles que acompanharam e acompanham o drama sem fim dos McCann.
"Em casa, estamos quase sempre ocupados, como em todos os lares, mas há um vazio que permanece nesta família de cinco pessoas. Não é algo que fazemos conscientemente, mas a urgência de encontrar Madeleine mudou tudo", disse Kate recentemente, numa frase que explica bem o calvário que a família tenta camuflar com a normalidade de todos os dias.