“Agora baixo os braços”: a dolorosa despedida de Arnaud Denis antes de morrer por eutanásia
Conheça a emotiva carta de despedida deixada pelo ator francês antes de morrer por morte medicamente assistida. Nas palavras que escreveu, Arnaud Denis, de 43 anos, expôs os três anos de sofrimento que viveu e deixou duras críticas à forma como foi tratado.“Agora baixo os braços”. É desta forma que Arnaud Denis descreveu a decisão que tomou depois de três anos marcados por dores e graves complicações de saúde. O ator francês, conhecido, entre outros trabalhos, pela participação no filme Yves Saint Laurent, morreu na passada terça-feira, 22, aos 43 anos, em Namur, na Bélgica, depois de recorrer à eutanásia.
Antes de morrer, Arnaud Denis deixou uma longa carta de despedida nas redes sociais. O texto, escrito na primeira pessoa, é também um duro testemunho sobre os últimos três anos da sua vida e sobre aquilo que considerava ter sido uma sucessão de falhas no acompanhamento médico em França.
“Acabei com os maus-tratos médicos”, escreveu logo no início. Arnaud Denis recordou que os problemas começaram depois de uma cirurgia a uma hérnia inguinal, em 2023, a partir da qual, segundo o próprio, o seu estado de saúde se foi deteriorando de forma contínua.
O ator afirma ter perdido 17 quilos em apenas três meses, por não conseguir alimentar-se devido a problemas de motilidade intestinal. Revela ainda que chegou a recorrer às urgências 12 vezes num único ano, sem encontrar, segundo o seu relato, uma resposta para o agravamento dos sintomas. “Disseram-me primeiro: ‘Não tem nada’. E quando já não conseguia caminhar, um dia disseram-me: ‘Sim, mas agora é crónico; não há nada a fazer. Vá para casa’”, contou.
Na carta, Arnaud Denis enumera vários problemas de saúde que associava às complicações surgidas depois da cirurgia, entre eles dores incapacitantes, problemas digestivos, perda de massa muscular e dificuldades neurológicas. O ator afirma também ter sido diagnosticado com encefalomielite miálgica, uma doença que, segundo descreveu, agravou ainda mais a sua condição.
A revolta estende-se a várias instituições e profissionais de saúde. Arnaud Denis acusa a assistência hospitalar francesa de ter desvalorizado os seus sintomas e afirma que chegou a pedir internamento e cuidados paliativos, sem conseguir obter o acompanhamento que considerava necessário. “Alguém não fez o seu trabalho a tempo e depois já era demasiado tarde”, escreveu.
O ator dirigiu ainda críticas à forma como foi tratada a prótese colocada durante a cirurgia. Na sua versão, o implante esteve na origem de uma série de complicações que lhe afetaram a saúde física e a autonomia. Arnaud Denis chegou mesmo a apresentar uma queixa contra desconhecidos relacionada com as consequências que atribuía à intervenção cirúrgica. Estas acusações fazem parte do seu testemunho e não constituem uma conclusão judicial sobre eventuais responsabilidades médicas.
A justiça francesa também não escapou às críticas. Na carta, Arnaud Denis afirmou acreditar que o processo acabaria arquivado sem que fosse estabelecida uma relação de causalidade entre a cirurgia e os problemas de saúde que enfrentou posteriormente. Meses antes da morte, o ator já tinha tornado pública a intenção de recorrer à eutanásia na Bélgica. Foi naquele país que encontrou, segundo as suas próprias palavras, o acompanhamento que procurava.
“Enfim, escuta, respeito pela minha dignidade, pela minha integridade física, a consideração pela minha dor física e moral”, escreveu, referindo-se à forma como foi acompanhado na Bélgica. A decisão de morrer é, aliás, uma das partes mais pessoais da carta. Arnaud Denis sabia que as suas palavras poderiam ser alvo de críticas e deixou uma mensagem direta a quem pudesse questionar a sua escolha.
“Quanto àqueles que se atreverem a julgar a minha decisão de partir com o pouco de dignidade física e moral que me resta, proíbo-o. Estão a anos-luz de imaginar o sofrimento físico e neurológico permanente que esta doença provoca”, afirmou. E acrescentou: “Resisti, custasse o que custasse, durante três anos de sofrimento atroz. Agora baixo os braços. É o meu direito.”
Arnaud Denis fez ainda questão de esclarecer que não escreveu aquela mensagem para despertar pena. “A piedade não me serve de nada”, escreveu. “Eu era o homem mais feliz do mundo antes de ficar gravemente doente.” No final, deixou uma mensagem dirigida a outros doentes que, tal como ele, sentem que as suas dores não são compreendidas. “Há aqueles que vivem isto. Esses sabem”, escreveu.