Ljubomir vende todos os restaurantes a grupo internacional. É o fim de uma era com 17 anos do chef que se tornou famoso pelos ataques de fúria na televisão
Em 2009, falido, cheio de dívidas e depois de noites em que dormiu num banco de jardim, conseguiu reerguer-se e reabriu o '100 Maneiras' no Chiado. Em 2024, após vários desaires pessoais e empresariais, começou uma travessia no deserto da restauração que culminou agora na venda de todos os seus restaurantes. Perdeu a estrela Michelin, um dos espaços ardeu, deixou escapar um contrato televisivo milionário. Diz que se vai dedicar "à vida no campo".O chef Ljubomir Stanisic, de 47 anos de idade, vende todos os seus restaurantes. A notícia caiu que nem uma bomba na noite de sexta-feira, dia 8. "O grupo '100 Maneiras' mudou de mãos. Ljubomir Stanisic, Nuno Faria e Nelson Santos passaram o '100 Maneiras', Bistro 100 Maneiras e Carnal Gastrobar". É desta forma que em comunicado o polémico e popular chef de origem jugoslava e os seus sócios anunciaram nas redes sociais o fim de um sonho com 17 anos. E continuam, comprovando a má fase nos negócios que o cozinheiro que veio do Leste está a atravessar. "Hoje anuncia-se o fim de um ciclo, mas também um início. O meio ficou para trás, nas histórias que se contaram ao longo destes 17 anos em Lisboa, guardadas dentro do coração de muitos. Porque somos muitos, nós. O '100 Maneiras' é gente", avançam.
O comprador é um grupo internacional Dhurba Subedi, liderado por Jamuna Subedi, Dhurba Sapana, Niraj Subedi e Kismita Subedi, com mais de 100 restaurantes espalhados pelo mundo e que detém em Lisboa os restaurantes Las Ficheras, no Cais de Sodré com uma gastronomia inspirada nos cabarés mexicanos, e o Marisqueira UMA, na rua dos Sapateiros, também na capital. No mesmo comunicado em que anunciam o fim de uma era, Ljubo afirma ainda: "Foi ('100 Maneiras'), antes de mais, o meu primeiro filho, o primeiro projeto que abri em nome próprio em Portugal, em Cascais, quando tinha apenas 26 anos e mal dominava a língua portuguesa. Hoje marca-se apenas o fim de um ciclo. Não o fim das lutas, mas o início de outras batalhas. 'O que a lagarta chama de fim do mundo, o mestre chama de borboleta.', diz Richard Bach, um dos meus escritores favoritos".
CARTA DE AMOR E DESPEDIDA AOS COLABORADORES E CLIENTES
O chef afiança ainda que "esta é a carta de amor que precisávamos escrever. Antes de mais, à equipa, essa turba de gente díspar, meio torta, muitas vezes disfuncional, que passou por aqui nestas duas décadas. É também uma carta de amor aos clientes, aos parceiros, à imprensa, aos amigos, aos artistas amigos que sempre nos pintaram as paredes com efervescência, atitude, aos restauradores independentes, à hotelaria feita de corpo e alma. Temos lágrimas, claro. Porque um filho não se desamarra sem elas. Mas temos sobretudo orgulho no que construímos. Queremos construir mais – e, se possível, melhor. Queremos dar tempo ao tempo, ter tempo, continuar a fazer a diferença, manter o sangue desta equipa sempre quente nas nossas veias, fazendo sempre como se fosse a primeira vez. Assim o faremos, noutras latitudes, de outras maneiras, com outros nomes, mas sempre sem medo, sem merdas", remata.
O cozinheiro não revela os novos projetos, mas desvenda um ponta do que poderá acontecer: "Estou cada vez mais encantado com a vida no campo, a desenvolver projetos de ligação direta à terra", solta, defendendo a sua dama: "Somos. Fomos. Seremos. Sempre. Sem maneiras. Com cem maneiras de olhar o mundo, a vida, os outros. Sempre diferentes, sempre caminhando em frente. (Porque para trás só mija a burra)", conclui.
A CULPA É DA CRISE E DO PÓS-PANDEMIA
E deixa uma mágoa, com que tenta justificar o fim da operação gastronómica no Chiado, em Lisboa: "Lutando para pagar os investimentos, os empréstimos fruto do confinamento, os impostos e os produtos que nunca paravam (páram) de aumentar. Fizemos frente a esta(s) guerra(s), lutámos em nome dos restauradores independentes, da hotelaria, falando sem medos das letras, fazendo jus à liberdade. Hoje marca-se apenas o fim de um ciclo”, descrevem ainda no comunicado, numa alusão aos desafios trazidos por um cenário de pós-pandemia.
Nos últimos 12 anos, Ljubomir Stanisic tornou-se um dos rostos mais conhecidos da televisão pelas suas participações em reality shows de culinária, como o 'Masterchef', ainda na TVI, 'Pesadelo na Cozinha' (TVI) e 'Hell’s Kitchen' (SIC) – onde sempre teve uma postura firme e sincera com os participantes, sem poupar palavrões e duras críticas. O cozinheiro vive em Portugal desde 1997, quando cá chegou aos 19 anos para fugir da guerra na Bósnia. Aos 14, trabalhou numa padaria para sustentar a sua família e foi menino soldado nas montanhas ao redor de Sarajevo. Aos 26, abriu o seu primeiro negócio, o restaurante '100 Maneiras', no Hotel Villa Albatroz, em Cascais, a meias com o antigo amigo e chef José Avillez, que foi à falência com estrondo em 2008.