A ferida começa por matar
a pele, à traição.
- Gosto de te dizer o que sinto, e depois sentir.
Depois vem o interior do sangue, o momento
em que a dor se cruza
com a veia.
- Quando te magoo dói-me o antes de mim, o que fica entre o que sou e o que poderia ser.
Aos poucos a ferida transforma-se em nós, ou
nós na ferida, e acabámos por ser o que
a ferida é em nós, ou que somos nós
no espaço que ela ocupa.
- O que falta em mim é sempre o que me impede de te salvar do que dói. Fosse eu capaz de te tirar as lágrimas e jamais choraria.
A ferida maior não é a mais funda, só
a mais fina, a mais cirúrgica, a que quanto
mais pequena maior se sente.
- Dói-me a tua presença apenas por saber o que me vai doer a tua ausência.
A ferida não é um espaço
magoado; é um órgão.
Funcionamos, quando ela aparece, em função
do que ela é: do que ela pode não ser, do que
poderemos fazer para ela deixar de ser.
- Gasto-me todo para te poupar.
A ferida faz mover o mundo pela maneira
como faz parar: somos muito mais a
ferida do que a sua cura, e nada nos cura mais
do que uma ferida curada.
- Tenho nojo de quem ama quando pode. Só se ama quando não se pode, quando tudo o desaconselha, quando tudo o abomina. Um amor recomendado não é recomendável.
A ferida é uma felicidade
que deu errado. Como nós, sempre
que me dizes que não me queres,
e depois nos queremos a vida toda.
Rumo: s.m. Aquilo que só se encontra sem querer; nunca a felicidade foi combinada.