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A incrível história do marido de Paula Amorim, o 'Miguel das Notas', que correu o mundo, enfrentou duas vezes as chamas e das duas vezes se reergueu: "Achava que ia ser presidente do Ritz"

Hoje, é dono do JNcQUOI, um dos maiores símbolos do luxo e empreendedorismo em Portugal, mas até aqui chegar, percorreu muitas milhas, viveu em oito países, viu dois hotéis arderem-lhe diante dos olhos, mas nunca teve medo de recomeçar. Das maiores dores que viveu - como a morte da mãe, quando tinha apenas 15 anos - fez a sua força, arregaçou as mangas e forçou-se a ir mais além. Marido da milionária Paula Amorim, Miguel nunca quis estar na sombra e ergue os seus esforços em parceria, mas também por conta própria.
Por Rute Lourenço | 12 de agosto de 2026 às 19:54
Miguel Guedes de Sousa e Paula Amorim Foto: Instagram

Na história de Miguel Guedes de Sousa, há dois ou três momentos decisivos, que o levaram a uma viragem na sua vida. Um dos principais aconteceu quando estava nas Filipinas. Depois de ter tirado Gestão Hoteleira, na Suíça, quis correr o mundo para ver o que se fazia lá fora e a ambição levou-o a gerir um hotel de sonho, numa ilha remota da Ásia, Amanpulo. Era um pequeno pedaço de terra, que funcionava como um resort exclusivo de areais branca e para onde quer que se olhasse só havia o verde da vegetação e o turquesa das águas cristalinas. Até ao dia em que o impensável aconteceu.

Amanpulo, nas Filipinas Foto: D.R.
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O calendário celebrava a Páscoa e Miguel Guedes de Sousa lembra-se de ter subido a um monte para uma pequena procissão para assinalar a quadra. Foi quando viu a primeira nuvem de fumo: o hotel estava em chamas. O empresário ficou em choque, temeu não saber o que fazer, mas depois de uma hesitação inicial, arregaçou as mangas e fez o que tinha de fazer enquanto diretor-geral do espaço, no caos estabeleceu uma ordem de trabalhos e foi ele próprio combater as chamas com baldes de água.

Miguel Guedes de Sousa Foto: Instagram

"Desci a correr, o fogo era nos staff quarters, onde estavam os geradores e a parte toda da logística. De repente, tenho dois barracões a arder, tudo aos berros, 300 e tal pessoas a correr com baldes de um lado para o outro, uma confusão. Tive um ataque de pânico, mas disse: 'Tenho de me aguentar, tenho de ser líder.' Havia um carro de bombeiros, que nem funcionava, uma coisa extraordinária, ponho-me em cima do carro e grito: 'Parem! Imediatamente!' Dei ordem para fazerem três filas: 'Romero, vais contar os clientes e levá-los para a outra ponta da ilha', a outro disse para tirar os barris de petróleo que iam explodir e pô-los num barco, e ao outro disse: 'Vamos combater o fogo.' Éramos cem a combater o fogo, durante 12 horas, a ilha a arder. Fiquei com os pés todos queimados, mas ninguém morreu, foi um milagre", recordou o marido de Paula Amorim, em entrevista ao 'Público', ignorando na altura que o pesadelo se iria voltar a repetir na sua vida: em junho de 2024, um incêndio consumiu o hotel de charme que estava prestes a inaugurar na Avenida da Liberdade.

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Incêndio em hotel de Paula Amorim Foto: Flash

A tristeza e devastação eram palpáveis, mas no meio das cinzas, Miguel Guedes de Sousa, hoje com 61 anos, muniu-se da mesma força do passado. Ergueu a cabeça e começou tudo de novo, reconstruindo pedra por pedra o espaço.

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Por vezes, nem ele sabe onde vai buscar tanta força, mas admite que a resiliência foi uma herança das intempéries da vida. Nascido em berço de ouro em Angola, Miguel Guedes de Sousa juntar-se-ia ao lote de 'retornados' que regressaria a Portugal, onde, ainda assim, conseguiria durante antes manter-se numa bolha de privilégio. O avô dirigia o Hotel Ritz e o pequeno Miguel, então com cinco anos, ia de motorista para a escola.

Paula Amorim e Miguel Guedes de Sousa Foto: Flash

"Uma das coisas que mudaram totalmente a minha forma de pensar foi a Revolução. Nós retornámos para Portugal – éramos os retornados – e a vida foi diferente. O meu pai ainda teve algumas empresas em Portugal, mas umas correram bem, outras não tão bem. Mas lembro-me perfeitamente de que ia de motorista para a escola. E que, um dia, o meu pai, à volta dos meus 13, 14 anos, chegou à cozinha e disse: 'O nosso motorista vai-se embora amanhã porque eu não consigo pagar mais.' Tive de andar, como qualquer pessoa normal, de transportes públicos. Lembro-me do choque desse primeiro dia. Isso mudou-me totalmente. Eu era mau aluno porque era muito malandro. Estava sempre a fazer desporto, sempre na rua. Sentia que a vida era fácil. E comecei a ficar mais consciente ao ver o meu pai triste, ao ver as dificuldades financeiras, que não eram muitas, não me posso queixar, mas já não era o que era antes. E isso trouxe uma motivação: tenho de me desenrascar na vida."

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Miguel Guedes de Sousa Foto: Instagram

Começou, então, a trabalhar para ter o seu próprio dinheiro, o que lhe valeria a alcunha pela qual muitos amigos ainda o tratam aos dias de hoje: "Miguel das Notas". "Comecei a trabalhar muito cedo. Por isso é que eu sou o Manota, o "Miguel das Notas". Aos 16 anos trabalhava em bares, em restaurantes. Sempre adorei gastronomia e desde os 10 anos que achava que ia ser presidente do Hotel Ritz. Quando estava a estudar hotelaria na Suíça, o meu pai liga-me a dizer que o meu avô tinha vendido o hotel. Foi outro choque. Já não tinha razões para voltar a Portugal e, portanto, decidi conhecer o mundo. Estive 23 anos fora de Portugal e vivi em oito países."

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Miguel Guedes de Sousa Foto: Instagram

Mas os embates que o deitaram ao chão foram, sem dúvida, os pessoais. Ao 'Público', Miguel Guedes de Sousa assume a morte da mãe, quando tinha apenas 15 anos, como um dos momentos mais dolorosos da sua vida. "Costumo dizer que houve duas ou três situações na minha vida que me tornaram a pessoa que sou. Uma delas foi a morte da minha mãe quando tinha 15 anos. Era muito ligado à minha mãe, e foi algo que me traumatizou mas que também me deu uma grande garra e uma força para enfrentar a vida", lembra, acrescentando que, muitos anos depois, quando o pai faleceu, a sensação de orfandade tomou conta de si. "É aquele dia em que sentes que já não tens cá ninguém, que estás por ti próprio e te tornas homem."

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Se fossem vivos, estariam ambos orgulhosos de tudo aquilo que conquistou a pulso. De uma vida lá fora, tomou notas, aprendeu como se fazia, apaixonou-se pelo conceito de luxo, da exclusividade que torna cada cliente especial, importou o conceito para o nosso país e, ao lado da mulher, Paula Amorim, edificou o JNcQUOI, que começou de forma tímida, com um restaurante na Avenida da Liberdade, mas rapidamente se assumiria como o rosto do luxo em Portugal, galgando terreno para a Comporta, onde se implementou em todo o seu esplendor, e que afunila em direção a um conceito de turismo de exclusividade, em vez do de massas.

Miguel Guedes de Sousa e Paula Amorim Foto: Flash
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"A minha visão para o JNcQUOI e para Portugal tem que ver com isso: proteger a nossa autenticidade, não a podemos banalizar, e para isso temos de ser mais elitistas. Sei que a expressão não parece muito democrática, mas temos de ser um país-boutique.  Temos de seleccionar aqueles que verdadeiramente querem a nossa autenticidade, a nossa cultura, e que estão dispostos a pagar por ela. Isto faz com que eu consiga ter menos volume, mas mais valor. E possa proteger as comunidades locais, os artesãos, aquilo que é verdadeiramente português", diz, salientando que não quer ser mal interpretado, mas que ainda há muito preconceito em Portugal quando se fala de luxo. 

Paula Amorim e o marido, o empresário Miguel Guedes de Sousa Foto: Foto: D.R.
Paula Amorim e Miguel Guedes de Sousa no 'Pink Ball' em Londres Foto: Flash
Paula Amorim, Miguel Guedes de Sousa Foto: Flash
Miguel Guedes de Sousa e Paula Amorim Foto: Flash
Paula Amorim e Miguel Guedes de Sousa Foto: Flash
Paula Amorim e Miguel Guedes de Sousa Foto: Flash
Paula Amorim e Miguel Guedes de Sousa Foto: Flash

"Eu sei que é politicamente incorrecto um ministro do Turismo dizer que o mix vai mudar e que nós queremos apostar em alta qualidade. As pessoas não percebem que é um benefício para todos. Há muitos preconceitos quanto à riqueza neste País e são eles que nos tornam cada vez mais pobres."

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