As peripécias de Jorge Jesus e os 'tiques' à mesa do Selecionador que "respira futebol", contados pelos amigos
Chamam-lhe workaholic e, desde que chegou à Seleção, em junho, quase não lhe põem a vista em cima. Almoça na Cidade do Futebol, janta sempre peixinho em casa com a mulher Ivone e o filho Mauro e está mais perto da sua coleção de valiosos relógios suíços da marca Franck Muller.Além do prazer do futebol, de falar constantemente deste desporto e da procura do lance perfeito, em especial dos jogos de estratégia e de aplicar as suas estratégias e táticas nos jogos que prepara, o mister Jorge Jesus (JJ), de 72 anos de idade, que hoje se estreia como Selecionador nacional, adora estar à mesa com os amigos. De preferência com amigos que fiquem horas, horas e mais horas a falar consigo sobre... Futebol.
Pedro Cardoso, dono e gerente do Solar dos Presuntos, conhecido restaurante de Lisboa, é um deles. Garante à The Mag, by Flash! que, desde que Jorge Jesus assumiu em junho deste verão os destinos da Seleção Nacional, a sua presença no seu espaço é cada vez mais rara, mas continua a acontecer. "Já cá esteve, não tantas quantas vinha quando era treinador do Sporting. Ele está a atravessar uma fase em que se nota que está tremendamente focado naquilo. Em que quer ir ao centro de estágio, quer ver jogos", salienta.
OPORTUNIDADE DE "PÔR OS MENINOS (JOGADORES) NA LINHA"
O patrão de um dos restaurantes mais famosos da capital e amigo do peito de JJ compreende as ausências do mister e relembra: "Uma coisa é treinares uma equipa, outra é veres 30 ou 35 jogadores de muitas equipas. Isto é mais moroso e mais trabalhoso". O empresário do ramo da restauração elogia ainda o mister e defende que "ser Selecionador não é grande oportunidade da vida dele". "É a oportunidade de Portugal fazer alguma coisa com a equipa maravilhosa que tem. Foi uma vergonha o que se passou antes. Para estar à frente da Seleção tem que ser um gajo muito bom e que ponha os meninos na linha", assegura Pedro Cardoso, filho do Saudoso Evaristo Cardoso, fundador do Solar dos Presuntos e o chef da Seleção Nacional durante duas décadas.
O empresário conhece bem há 30 anos o Selecionador e também os seus amigos, que almoçam muitas vezes com ele no Solar dos Presuntos. "O Jorge é um homem de não perder os amigos. Ele não tem muitos, contam-se por uma mão aqueles mais chegados, para além da família (a sua bússola moral), como é lógico. Esses mantém-se sempre. Dois dos maiores amigos dele são o Júlio António (antigo dirigente do Estrela da Amadora) e o Vítor Araújo (empresário e amigo de longa data, além de compadre de Jesus (que conheceu nos tempos do Sporting de Braga), que agora está em Angola", sendo que para estar alinhado com JJ à refeição há uma condição 'sine qua non': "Para estares a uma mesa com ele tens de estar a falar de futebol. A vida dele é futebol, futebol e futebol. Ele ama e respira futebol. E é genial. E quando digo génio, merecia ter treinado um Real de Madrid ou um Barcelona. É um grande treinador, mas tem o handicap da língua. Não sabe falar inglês e teve que ir para a Arábia para aprenderem que no futebol não é só preciso saber falar inglês, é só preciso ser bom treinador", remata.
RECATADO, GOSTA DE FICA À NOITE EM CASA COM A FAMÍLIA
Talvez o melhor amigo de Jorge Jesus seja mesmo Vítor Araújo, sendo JJ padrinho de batismo de Rodrigo, filho deste. "Quando o Vítor está em Portugal almoça quase todos os dias com o Jorge e ele à noite é mais recatado. É raro sair de casa e jantar", conta Pedro, adiantando que "é mais ao almoço que ele se encontra com as pessoas com quem tem que se encontrar. Desde que chegou à Seleção as coisas estão mais complicadas, ele está a arrumar a casa. Ele além de viajar mais está sempre na Federação, almoça lá, é um workaholic, está sempre ligado à corrente e agora é um trabalho mais difícil porque tem que acompanhar outros jogadores que não estão cá, fazer análise de jogos. Está a trabalhar imenso e raramente sai de lá", avança.
O gerente do Solar dos Presuntos revela também que "o melhor que se pode dar a Jorge Jesus depois de uma derrota é uma cabeça de garoupa e não falar de futebol" e garante que "é muito complicado tirá-lo da casinha dele". "Não é fácil, ele dali vai só comer um peixinho ao Retiro do Pescador na Fonte da Telha. Ele olha para o peixe e vê logo se aquilo é fresco ou não. Ele sabe ver peixe, tem a mania que é pescador", brinca Pedro, contando como às vezes passa as passas do Algarve com o amigo cliente: "Ele na minha casa às vezes chateia-me a cabeça: 'Achas que este peixe fresco?'. Eu digo-lhe que ele tem razão, que tem 15 dias de maturação e depois ele ri-se."
CARNE ZERO, PEIXE SEMPRE, MAS COM PÃO, LARANJAS E... PUDIM FLAN
À mesa de um restaurante nunca pode faltar pão a Jorge Jesus. "Pão tem que estar sempre na mesa, depois o peixinho e no final gosta sempre de comer uma laranjazinha e um pudim Flan", como conta Pedro Cardoso; mas em casa não podem faltar os seus relógios de coleção da marca suíça Franck Muller, os seus favoritos. Quando em 2025 se despediu dos jogadores do Al-Hilal, na Arábia Saudita, onde esteve duas épocas seguidas, Jesus fez questão de presentear cada jogador com um relógio da sua marca de eleição. Na garagem predominam sempre os carros da marca Mercedes, de preferência SUV's, e no vestir JJ é zero exigente.
Jesus não gosta de comer carne mas curiosamente a sua gloriosa carreira deve-a a um talhante. Quando em 1989, com 35 anos e ainda a jogar no Almacilense, foi um encontro com Mário Rui, presidente do Amora e talhante de profissão, que o convidou-o para treinar o Amora, na altura a disputar a 3.ª divisão. Como o clube não tinha capacidade financeira para oferecer um contrato cativante ao mister, Mário Rui propôs arranjar os materiais de construção para Jesus construir uma piscina na mesma casa no bairro da Marisol onde ainda hoje vive, e que na altura era um dos seus sonhos. Décadas mais tarde, o próprio recordaria em entrevista que deve a carreira de treinador "a uma pessoa que já não está cá", numa referência direta a Mário Rui. A partir daí foi sempre a escalar degraus até chegar à primeira divisão portuguesa e a afirmar-se como um dos mais irreverentes treinadores de futebol.