Era humilde e quase não tinha brinquedos! A história de Marcelo Rebelo de Sousa: do início de vida na cave dos pais às aventuras nas casas do amigo rico
Maria das Neves, assistente social e mãe do nosso ex-Presidente da República, decidiu que ter brinquedos em excesso em casa era "um escândalo". Por isso dava-os aos filhos, depois escondia-os e voltava a dá-los numa outra época festiva. Marcelo cresceu a ver os amigos com brinquedos e ele sem eles. Não sendo rico, conta com otimismo como se safou na infância e na adolescência quando queria brincar: "Continuo a dizer que mil vezes melhor do que ser rico é ter amigos ricos. E eu tive. Assim pude brincar com coisas que de outro modo seria impossível."Marcelo Rebelo de Sousa, agora com 77 anos, já foi um menino com poucos recursos, que não tinha brinquedos, nem um berlinde de jeito. Leu bem, não tinha brinquedos e cresceu desde bebé na cave de um prédio na Avenida Almirante Reis, em Lisboa. A história é contada pelo próprio Marcelo Nuno, que das suas adversidades de infância e adolescência fez forças. E chega mesmo a brincar com os tempos em que via as outras crianças com tudo e ele com quase nada: "Continuo a dizer que mil vezes melhor do que ser rico é ter amigos ricos. E eu tive. Assim pude brincar com coisas que de outro modo seria impossível".
É preciso voltar a antes de 1948, ano em que nasceu, para perceber o início de vida mais modesto do nosso agora ex-Presidente da República. Os pais, Baltazar Rebelo de Sousa e Maria das Neves, quando casaram na Igreja da Pena, em 1947, tinham pouco dinheiro. Ela tinha vindo da Covilhã e era assistente social. Ele um aluno finalista de Medicina. Foram morar numa modesta cave na conhecida artéria de Lisboa, no lado então mais humilde da capital. Ali nasceu e cresceu Marcelo Nuno, a criança que em 2016 se viria a tornar a primeira figura da Nação.
Entretanto, o pai termina o curso e torna-se subinspector médico dos Serviços Médico-Sociais e da Federação das Caixas de Previdência. Tinha sido um ativo e reputado dirigente da Mocidade Portuguesa e esteve sempre ligado à educação, seguindo fielmente a cartilha do Estado Novo. Em 1953 é eleito deputado da Nação e dois anos depois nomeado subsecretário de Estado da Educação Nacional, de 1955 a 1961, sempre sob a batuta do Chefe do Governo, o ditador António de Oliveira Salazar.
Quando chega ao Executivo já Marcelo Nuno não estava sozinho na família. Em 1952 nasce António Jorge, três anos à frente, em 55, Pedro Miguel, conhecido advogado e genro da falecida atriz e escritora Rosa Lobato de Faria. A família Rebelo de Sousa começara então a sua ascensão no elevador social e muda-se da modesta zona da Avenida Almirante Reis novamente para uma cave, mas desta vez no chique bairro da Lapa. Não demorarão muito anos até se mudarem para um primeiro andar, antes de terminarem a habitar um duplex, com boas condições, no mesmo bairro de morada de muitos ricos da capital.
E onde entram então os brinquedos, ou a falta deles... na vida do pequeno Marcelo? Fácil. Numa entrevista à 'Notícias Magazine', em julho de 2010, o ex-Presidente revela tudo, e com bastantes pormenores. Não com mágoa, mas com ironia e até uma ponta de admiração. Admiração, é verdade. E a culpa foi da mãe, Maria das Neves, e do seu pulso firme contra supostos consumismos em tenra idade. A progenitora do futuro professor universitário foi assistente social, e por isso levou para a vida privada e familiar uma certa frugalidade intencional, com disciplina, sabedoria, mas sem ser forreta... Vá, só um pouquinho. Para si, excesso de brinquedos era considerado "um escândalo".
O SUMIÇO DOS BRINQUEDOS, AS FUTEBOLADAS EM CASA COM OS IRMÃOS
Não se julgue, contudo, que Marcelo não brincava. Brincava mas era na escola e quase sempre com brinquedos dos colegas. Como entrou cedo no ensino primário, socializou rápido com outras crianças e isso fê-lo esquecer que não tinha as mesmas condições que outros meninos. Das suas brincadeiras em bando constavam jogos à bola, mas também à carica. "Também havia o berlinde mas eu preferia a carica", conta, dando uma explicação lógica, mais própria do pensamento infantil de então, rematando: "Primeiro, porque os berlindes eram caros. Depois porque os melhores eram 'fanáveis' e era um desconsolo ficar sem eles".
A crescer numa família só de rapazes, a que muitas vezes nas brincadeiras se juntava o pai Baltazar, sem que a mulher visse, e para desespero do sistema nervoso de Maria das Neves, Marcelo também jogava à bola dentro de casa com os irmãos António e Pedro, sob a supervisão e ajudinha do pai. Além das fintas indoor a jogar à bola, os manos Sousa jogavam basquetebol caseiro e encestavam num cesto imaginário, que ficava entre uma parede específica e um varão dos cortinados, com a mãe sempre com as mãos na cabeça, à espera de um vidro ou bibelot partidos.
Mas então e os brinquedos? Pois, com os brinquedos é que era um 'ver se te avias', cumprindo Maria das Neves o papel de um 'Grinch' (a criatura rabugenta que estraga o Natal às crianças)... subtil. "A nossa mãe achava que o excesso de brinquedos no Natal era um escândalo. Por isso, recebíamos os presentes, brincávamos uns tempos com eles, e depois os presentes iam desaparecendo. Em 15 dias tinham sumido. Eram devidamente empacotados e guardados e serviam para mais tarde, para nos oferecer no Natal seguinte, para um aniversário", relata, com um sorriso. Marcelo diz sentir que perdeu a conta às vezes em que a mãe repetiu uma prenda que deu e voltou a dar a todos os filhos: "Acho que ela nos ofereceu o mesmo carro dos bombeiros duas ou três vezes".
O hábito materno de dar prendas, tirá-las e arrumá-las direitinhas fez com que uma caixa de Meccano (brinquedo educativo de marca inglesa associada a um sistema de construção de mecanismos em miniatura) fosse herdada pelo primogénito Marcelo. Está impecavelmente preservada na sua casa em Cascais e ainda hoje, quando a reabre, o professor monta as peças com destreza e orgulho. "Já lhe faltam umas peças, mas está quase tudo impecável", observa, mostrando os seus dotes de pequeno 'engenheiro' enquanto monta uma engenhoca simples com roldanas: "Acho que tinha jeito para fazer estas construções. Montava, desmontava... tinha muita paciência".
O AMIGO RICO, A LIBERDADE NO ESTORIL E RESMAS DE LIVROS
Se em casa dos Rebelo de Sousa a mãe tinha imposto um voto de pobreza em matéria de brinquedos, a sorte do futuro Presidente foram os amigos. A escassez que tinha em casa sobrou-lhe em fartura na do amigo Carlos Pires, o rico da grupeta. "O Carlos tinha tudo. Vivia num palacete com jardim na Rodrigo da Fonseca (Lisboa), tinha outra casa no Estoril onde eu ia passar férias, no Verão. A mãe dele organizava peças de teatro, marionetas, era uma artista. Fumava, conduzia um Cadillac e levava umas 15 crianças à praia. O banheiro dava-nos aqueles mergulhos tapando o nariz, comíamos batatas fritas e barquilhos (bolachas de canudos de massa). Passeávamos num carro puxado a cavalos, almoçávamos no alpendre da casa, bife com ovo a cavalo, trazido pelas funcionárias", recorda, detalhando o facto de o Carlos ter algo que ele não tinha, mas que o deliciava: "O meu amigo tinha a coleção inteira dos Dinky Toys (carrinhos miniatura fabricados em metal) e todos os brinquedos que se possa imaginar".
A magia de brincar e estar na casa do amigo Carlos Pires não se ficava por toda esta liberdade de experimentar coisas novas fora de casa dos pais e livre da asa da mãe mais austera. Frequentar a casa deste amigo rico trouxe-lhe uma das suas maiores riquezas pessoais, que fez despertar uma paixão que o marcou até hoje. "A mãe dele tinha uma biblioteca formidável, com todos os livros da Agatha Christie, toda a coleção do Júlio Verne, uma loucura. Às vezes, quando iam para fora deixavam-me ir para lá ler todos os livros que quisesse", remata com prazer.