Esta semana, a descoberta do passaporte de Eliza Samudio, num apartamento em Portugal, trouxe à tona a história do assassinato da modelo brasileira, a mando do guarda-redes do Flamengo Bruno Fernandes, que 15 anos depois, continua a fazer correr muita tinta. Os contornos do crime macabro, por um lado, e as questões ainda por responder, por outro, mantêm o assunto nos escaparates e ainda recentemente 'A Vítima Invisível - O caso Eliza Samudio' chegou à Netflix para que não se esqueça o horror que marcou o fim de vida da jovem, alertando para questões que, passados tantos anos, continuam, infelizmente, a ser tão atuais.
Para entender a história, temos de regressar ao ano de 2008, quando Eliza e Bruno se conheceram. Ela era modelo, humilde, oriunda de uma família carenciada, e que por vezes trabalhava como acompanhante, ele um guarda-redes que começava a ser cada vez mais popular, o delírio da torcida do Flamengo. Sobre o dia em que os dois se conheceram, as teorias divergem, sendo que Eliza admite que se encontraram num churrasco, no Rio de Janeiro, enquanto o craque descreve o momento como uma orgia, com a presença de outros futebolistas.
Certo é que, a partir de então, e apesar de Bruno ser casado, os dois iniciaram um romance paralelo, com o futebolista a financiar a vida da jovem, que acabaria por deixar de aceitar trabalhos como acompanhante, vivendo na íntegra para este amor, que o guarda-redes ia alimentando, prometendo que em breve deixaria a companheira. E tudo ia bem neste engano, embalado pela promessa de um futuro risonho, até Eliza anunciar que estava grávida. O futebolista exigiu-lhe que fizesse um aborto, o que ela não aceitou. O caso amoroso terminava com os dois em guerra, um ano depois do início, naquilo que seria também o começo do pesadelo da manequim.
A partir daí, o assunto sairia da esfera mais privada dos dois para se tornar num caso de polícia quando, desesperada, Eliza prestava declarações em sede de polícia. Revelava ter sido mantida em cativeiro, e obrigada, por dois 'capangas' de Bruno, a tomar substâncias abortivas, que depois seriam detetadas na urina da jovem. Mas se inicialmente o testemunho de Eliza seria tido em conta pelas autoridades, rapidamente a modelo foi descredibilizada por um futebolista em alta, que garantia estar a ser vítima de uma campanha difamatória. "Não é a primeira vez que ela inventa esse monte de mentiras para tentar me prejudicar", disse perante a juíza, que revogaria a ordem de restrição inicialmente fixada, que impedia que Bruno se aproximasse da ex-companheira.
O bebé, que recebeu o nome do pai, nasceria meses depois, em 2010, mas não seria reconhecido pelo jogador, que dizia duvidar de que Bruninho seria seu filho. Acusava Eliza de se prostituir e, por isso, não poder definir quem seria o pai, ao mesmo tempo que afirmava publicamente que tudo o que a modelo tinha feito era dar "o golpe da barriga". Face à polémica, Eliza tinha duas vias: desistir do assunto e aceitar que Bruno nunca iria assumir o filho ou lutar pelos direitos do bebé que acabava de dar à luz. Fê-lo, de forma acérrima em tribunal, e foi nessa procura pela Justiça que conheceu o seu fim de vida infernal. Ao acusar Bruno não só de não cumprir com as obrigações de pai, mas também de a agredir, colocou o seu nome e fama em causa, num momento de tensão que enfureceu o futebolista.
Eliza desapareceria pouco depois, nos primeiros dias de junho de 2010. A história veiculada então à polícia era que esta se teria ido encontrar com Bruno, na sua casa, em Minas Gerais, para chegarem a um acordo amigável sobre o bebé, e que depois disso, a modelo teria desaparecido, com Bruninho a ser encontrado, abandonado, mas bem de saúde, nas imediações. A versão correu e foi mantida durante muito tempo, mas no crime havia vários nomes envolvidos e um dos participantes do massacre, de apenas 17 anos, não aguentou e contou tudo à polícia: que atingiu Eliza na cabeça, que ele e outros cúmplices a mantiveram amarrada e que, depois disso, a modelo foi estrangulada por 'Bola', um polícia reformado, amigo de Bruno, que depois de matar a jovem, pediu que todos deixassem o local. É referido que esquartejou o cadáver da modelo, o colocou num saco e se encaminhou para o canil, tendo atirado os restos mortais para os cães, da raça Rottweiler.
Em 22 de agosto de 2012, Sérgio Rosa Sales, considerado testemunha-chave do caso e primo de Bruno, foi encontrado morto em Belo Horizonte, com seis tiros. No julgamento, o futebolista foi condenado a 22 anos, bem como os cúmplices do crime, sobre o qual nunca se entenderam quanto às versões. Da que os restos mortais da jovem teriam sido atirado aos cães somou-se a que, afinal, a tinham enterrado, mas certo é que o corpo nunca apareceu, para desespero da mãe de Eliza, que iniciou um luto lento e difícil, que é interrompido de cada vez que parece haver, de alguma forma, novidades sobre o caso, como aconteceu agora, quando o passaporte da jovem apareceu misteriosamente em Portugal.
No entanto, a representante legal da família, Maria do Carmo Santos, esclareceria depois que a modelo viajou para Portugal em 2007 e que precisou de uma documentação especial para regressar ao Brasil por ter perdido o passaporte, pelo que não seria estranho o aparecimento deste. No entanto, para mãe, Sónia Fátima, há questões que continuam sem ver esclarecidas, e que são focos de dor. "Há respostas que ainda não foram dadas. A minha filha merece respeito, verdade e justiça", escreveu nas redes sociais.
Depois do julgamento, Bruninho – que tinha quatro meses quando a mãe foi barbaramente assassinada – foi entregue aos cuidados da avó materna, com quem vive até aos dias de hoje. Acabaria, ironia do destino ou não, por seguir a mesma carreira do pai jogando, inclusivamente na posição de guarda-redes, no Botafogo. Tem hoje 15 anos. O pai passou a regime semi-aberto em 2018 e já se encontra em liberdade condicional desde 2023, com a vida a seguir, inclusivamente no campo amoroso, tendo conhecido, enquanto estava a ser julgado por homicídio, uma dentista, Ingrid Calheiros, com quem se casaria ainda dentro da prisão. A de Eliza terminou barbaramente, aos 25 anos, um filho perdeu a sua mãe e a família só pede respostas e algum sentido de justiça para poder terminar o luto.