Nuno Rogeiro é, afinal, um espião? Há uma história de dor por trás do homem que comenta guerras e serviços secretos
Presença habitual na televisão, sobretudo quando o mundo está em guerra. Mísseis, espionagem, conflitos internacionais, ditadores ou estratégias diplomáticas fazem parte dos temas que Nuno Rogeiro analisa há anos. Mas há um lado desconhecido e pessoal do comentador que agora ganha destaque.
Nuno Rogeiro mereceu um olhar atento de Luís Osório através do seu habitual 'Postal do Dia'. O escritor leva-nos para lá da imagem que o público conhece do comentador da SIC e começa precisamente por admitir uma ideia pouco habitual: “Chegou a ocorrer-me que era espião”.
A explicação surge logo de seguida, com algum humor. Aos olhos do cronista, Nuno Rogeiro tem até o perfil certo para uma personagem de cinema. “Com aquela pinta de Andy Garcia”, escreve, não seria difícil imaginá-lo ligado à CIA, à Mossad ou ao MI5. Ou, numa versão portuguesa, como um 007 envolvido em missões secretas, casinos e hotéis.
Mas a brincadeira rapidamente dá lugar a uma história muito mais íntima. “Mas não é um agente secreto.” É com esta frase que Luís Osório deixa cair a imagem do espião e conduz o leitor até ao lado mais vulnerável do comentador. E há uma pessoa que surge inevitavelmente quando se fala dessa dimensão de Nuno Rogeiro: a mãe.
Maria da Conceição morreu demasiado cedo. Nuno Rogeiro era ainda jovem e, como escreve o também jornalista, “não estava preparado para a perder”. Uma perda que ganhou ainda mais peso porque a mãe não teve oportunidade de acompanhar grande parte da vida adulta do filho.
Filha de um militar que combateu na Primeira Guerra Mundial e mulher de um político e académico, Maria da Conceição era, acima de tudo, a mãe de Nuno e do irmão mais novo. Luís Osório recupera as memórias domésticas dessa relação: os abraços, a proteção e os doces que o filho ia buscar ainda antes de estarem prontos. É uma imagem muito distante do homem que hoje aparece nos ecrãs a explicar guerras, operações militares ou movimentos de serviços secretos. E é precisamente esse contraste que torna a história tão humana.
A ausência da mãe permanece também noutra parte importante da vida de Nuno Rogeiro. Maria da Conceição morreu antes de conhecer os quatro filhos e os netos do comentador. Há poucos meses, Nuno Rogeiro falou publicamente da tristeza por a mãe não ter conhecido a filha mais velha, Inês. Advogada, a jovem dedica-se, muitas vezes, à defesa de pessoas pobres e excluídas, uma faceta que Luís Osório também destaca na sua crónica.
A mulher que esteve presente na infância de Nuno não chegou, assim, a conhecer a família que o filho viria a construir. É uma ausência que o tempo não conseguiu preencher. E é precisamente aí que Luís Osório recupera novamente a ideia dos “serviços secretos”, desta vez para terminar o seu 'Postal do Dia' com uma imagem mais delicada.
“Talvez a avó a conheça, os conheça, de uma outra maneira…”, escreve. E deixa a pergunta no ar: “Quem sabe se através de serviços secretos de que Nuno Rogeiro nem sequer imagina a existência.”