Pedro Chagas Freitas quebra o silêncio sobre a "tempestade perfeita" que quase lhe roubou o filho e acabou em livro 'catarse'
A sua vida andava em espiral. Sentia que estava "a querer trepar o Everest da vida quando não olhava para a horta que tinha em casa". Foi obrigado a olhar quando o filho, Benjamim, então com 6 anos, que esteve entre a vida e a morte.Pedro Chagas Freitas, o escritor de 46 anos de idade, deu uma entrevista à revista TV Guia que esta semana está nas bancas onde revela a tempestade perfeita que viveu há dois anos: perdeu o pai e teve o filho de 6 anos internado, em risco de vida, a aguardar um dador compatível de fígado. Escreveu 'O Hospital de Alfaces' (um bestseller com quase 120 mil exemplares vendidos) num período bastante difícil da sua vida e revela tudo agora.
"Este período foi o mais difícil. Acho que não há nada comparado, que nos magoe mais, e que nos assuste mais, do que ter um filho em risco de vida num hospital", conta, confessando como exorcizou esses momentos dramáticos num ecrã de computador: "Escrever é a minha ferramenta. Eu preciso escrever para saber o que sinto. E no final do dia, quando de alguma forma o Benjamim acalmava ou adormecia, tentava perceber: 'Deixa cá ver o que aconteceu'. Não tanto por fora – isso eu sabia: os exames, o que tinha acontecido –, mas por dentro: 'O que é que aconteceu em mim?'. 'O que é que isto hoje fez em mim'. O escrever dá-me essa possibilidade".
Ele e a mulher, Bárbara Teixeira, decidiram tornar pública a doença do seu filho porque descobriram que não eram dadores compatíveis e por isso precisavam de alguém que lhes salvasse o filho. O sucesso do livro acaba por ser o reflexo dessa partilha e o autor confirma que tudo foi genuíno, orgânico e não resultou de uma campanha bem pensada de marketing. "Digo sempre às pessoas que preferia não ter escrito este livro, por mais que goste muito dele. Se ele não existisse era sinal de que não tinha acontecido nada daquilo."
APELO DE PAIS TORNOU-SE VIRAL
O apelo de dois pais desesperados nas redes sociais gerou uma onda de solidariedade, que se estendeu à adesão ao livro. "Foi tanto que depois disso ficou uma dívida de gratidão nossa, tremenda, para com estas pessoas todas que se disponibilizaram para dar uma parte do seu corpo para salvar o Benjamim. É uma coisa inacreditável: pessoas que não conhecíamos de lado algum estiveram dispostas a correr riscos, porque há alguns riscos para o dador, para salvar uma criança. Isso criou, da nossa parte, uma dívida muito grande", revela, sempre e ainda grato.
Escrever compulsivamente. Publicar os pensamentos do dia, em jeito de diário de dor de um pai, ajudou a sobreviver aos dramas daquele annus horribilis que viveu. "Foi uma escrita terapêutica, sobretudo para mim", salienta, sublinhando o que mudou em si: "Foi um encontro com coisas que nem imaginava ter em mim. Foi uma limpeza também. Foi um despejar de tralha, muita que eu tinha na minha vida. No fundo foi renascer".