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Desde que Sofia Arruda decidiu assumir na televisão que tinha sido vítima de assédio sexual no seu local de trabalho – uma estação de televisão –, várias têm sido as vozes que se escutam, sobretudo nas redes sociais, dizendo:"Eu também."
Quando o movimento #metoo surgiu há dois anos nos Estados Unidos, denunciando, com nomes dos "culpados", os homens que ameaçaram ou impediram mulheres de continuar no seu trabalho porque estas se recusaram a prestar favores sexuais aos seus "superiores hierárquicos", foi preciso, a partir de certo momento, separar o trigo do joio. Recordo que na mesma altura houve mulheres – como Catherine Deneuve – que fizeram o "ponto de situação", explicando claramente que era preciso perceber do que se falava:uma coisa é sedução. Essa sempre existiu, sempre existirá e é maravilhosa desde que consentida. É da sedução que nasce a paixão, o amor, as relações. Até aqui não há dúvidas. Assédio é outra coisa:é chantagem, é medo, é exercício da autoridade da pior forma possível. É nojento e reprovável. É o pior do ser humano. Assédio não é um exclusivo dos homens, embora seja deles que se fale na maior parte das vezes. Acontece de mulheres para com homens, acontece (e não pouco) no mesmo sexo. É tudo igual. Tudo mau.
Ora, dois anos depois do movimento nos Estados Unidos e de as primeiras abordagens ao tema acontecerem em Portugal – Cristina Ferreira, Dânia Neto, entre várias outras figuras públicas falaram sobre a sua experiência –, a questão do assédio regressa. E o resultado não podia ser mais constrangedor. Basta olhar para as redes sociais e para os comentários às notícias em que a questão é tratada. Os insultos às mulheres que falam sobre o que passaram abundam, por parte de mulheres e de homens. Sem piedade.
Quando se denuncia é bom que se vá até ao fim. Que se deem nomes, que se comece e termine a questão para que não restem dúvidas, para que não se dê mote a qualquer crítica injusta. Mas vale a pena pensar por que razão os nomes não aparecem em Portugal. Por que razão o medo prevalece. Vale a pena separar as águas:do aproveitamento e da verdade. Para construir uma sociedade melhor, justa e honesta.