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Notícia

O crime domesticado

Quem quiser comparar dados estatísticos, perceberá desde logo como baixaram em flecha os números da criminalidade.
12 de março de 2025 às 23:35
Polícia Judiciária
Polícia Judiciária Foto: Ricardo Ponte

Fez esta semana cinco anos que a pandemia de Covid 19 entrou em Portugal. Não sabíamos bem aquilo que vinha ao nosso encontro. Apenas nos chegavam notícias da China, da Itália, de Espanha revelando a agressividade do vírus que matava indiscriminadamente. Primeiro, foi concelho a concelho depois, a nível nacional, a fúria pandémica trucidava os mais descuidados e os mais débeis. Nos Lares fez verdadeiras matanças. E o País fechou, com milhões de pessoas encerradas nas suas casas, numa imensa cerca sanitária que interrompeu o viver, e o encontro, o abraço, o beijo se tornaram interditos. As máscaras retiraram-nos a identidade, o policiamento mostrou cidades, vilas e aldeias em verdadeiro campo de concentração. Nem a morte escapou ao açaime. Funerais com familiares à distância, rápidos, numa sucessão ininterrupta de cadáveres despedidos à pressa.

Quando revejo esses dias, ou melhor esses meses de flagelo, as imagens que me acodem, vindas da memória, é de Lisboa deserta, quase uma cidade-fantasma recolhida sobre si mesmo.

A pandemia partiu e nós, vagarosamente, despertámos para a vida truncada, desorientados e medrosos de novas vagas de doença.

Porém, deixou-nos lições. Quem quiser comparar dados estatísticos, perceberá desde logo como baixaram em flecha os números da criminalidade. Com o espaço público interditado, com as instituições públicas encerradas, com as empresas optando pelo teletrabalho, as relações sociais desintegraram-se, os territórios urbanos desertos, e a atividade criminosa desceu a níveis nunca vistos. Foi também esse tempo aproveitado para o oportunismo político. Mostravam-se esses números como grandes vitórias da ação governativa que, graças às políticas securitárias, revelavam competência na segurança das populações.

Porém, quem olhou e estudou esses números de forma desapaixonada percebeu que existia uma relação biunívoca entre a população encerrada por força do vírus e a diminuição dos delitos.

Cinco anos depois, as estatísticas regressaram à normalidade. Tal como a liberdade de circulação que, por sua vez, baixou todos os níveis de segurança. Foi o melhor exemplo para percebermos como Liberdade e Segurança são conceitos irmãos. Que fique como lição para os habituais profetas da desgraça.

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